Bom fim de semana

Quando, em 1973, Fernando Tordo venceu o Festival RTP da Canção com a “Tourada” (música do próprio Tordo e letra de José Carlos Ary dos Santos), “A Capital”, que à altura praticava um estilo jornalístico arrojado, copiado essencialmente do “Daily Mirror”, titulou mais ou menos assim (cito de memória): “Tordo vence Festival com dubidubidu psicopata”. Dubidubidu, como ié-ié, era um neologismo que designava um género musical no português da época, e que tinha surgido da mesma forma, embora um como corruptela do yeah da pop e o outro como imitação do scat jazzístico (e de algum easy listening, tipo Al Jarreau, que se consumia nesse tempo). A questão é que o ié-ié nunca morreu, enquanto o dubidubidu, no que toca à indústria musical, já só vive nalguns momentos mais extremistas e exigentes da Maria João, que dividem o universo dos seus ouvintes entre os simpatizantes ocasionais (como eu) e os fiéis devotos (a própria, o Mário Laginha e pessoalmente não conheço mais nenhum). E é pena, porque o dubidubidu, embora não reconhecido, continua a ser um género amplamente praticado entre nós, mormente no duche, onde já ultrapassou de certeza o faduncho choradinho de tavernas e salões, o tal que semeia só desalento, misticismo e ilusões. Por isso, por tudo isso, eu lanço daqui um brado: porque não organiza a televisão, uma televisão, um concurso novo chamado “Cantores de chuveiro”? Se já houve um “Na cama com Alexandre Lencastre”, e ninguém se queixou, porque não agora um “Na banheira com Catarina Furtado” (devidamente protegida por um vidro fosco, como convém a um programa emitido no domingo à noite)?? Como o fado, que parece que nasceu no Brasil, também o dubidubidu pode ter nascido nos Estados Unidos, mas isso agora pouco importa, porque ele é nosso, como é nosso o sabor da Planta (que é da Unilever, anglo-holandesa) ou da Savora (esse gostinho tão português que por acaso é da Reckitt, que é inglesa): eu corto-me todos os dias a fazer a barba enquanto pratico o meu dubidubidu, já era altura de os poderes públicos olharem para o problema e protegerem a espécie.

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SEXTA | António Figueira
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3 respostas a Bom fim de semana

  1. O “Dubidubidu” ganhou um festival da canção, disse A Capital. Imagino o que terá dito o falecido jornal desse hino à parvoíce chamado “daili daili dou, papagaio voa”?
    Já quanto ao fado ter nascido no Brasil é algo que só pode ter duas razões para sequer se falar: 1. Não saber do que se fala; 2. Tentar a toda a força exportar o fado para o outro lado do Atlântico e, para isso, até fingir que o fado nasceu por lá de forma a ser aceite. Qualquer uma das opções é parva.

  2. António Figueira diz:

    Caro José Freitas,
    Não sou especialista em fado, longe disso, mas a trajectória lundum-modinha-fado não fui eu que a inventei, a hipotético benefício da “lusofonia”; em Rui Vieira Nery ou talvez Ruben de Carvalho encontrará porventura elementos que o esclareçam quanto à questão de saber de que lado do Atlântico surgiu primeiro o fado.
    Cordialmente, AF

  3. Sim, sei que a invenção não é sua. Ficou moda há uns tempos.

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