Quando a realidade atropela a fantasia

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Depois da chuva de óscares, para premiar um filme sobre a pobreza cor-de-rosa, a polícia indiana resolveu contribuir para o esclarecimento de um dos participantes – ‘Por muitos filmes que faças, as coisas continuam iguais’.
A pedagógica lição de vida foi dada com o auxílio de golpes de bambu. A malta fica à espera do próximo filme que a pobreza não tem o mesmo encanto sem pipocas. Leia-se a notícia da BBC Brasil.

“A casa do actor mirim Azharuddin Mohammed Ismail, que atuou no filme Quem quer ser um milionário?, vencedor de oito Oscar neste ano, foi destruída nesta quinta-feira pelas autoridades de Mumbai, na Índia.

Testemunhas disseram que a polícia agrediu o menino com um pedaço de bambu antes de expulsá-lo da casa. As autoridades de Mumbai acusam o menino e a sua família de ocupar ilegalmente um terreno que seria de propriedade do governo.

A família vivia em um casebre feito de plástico e bambus em uma favela em Bandra East, em Mumbai.

A mãe do menino, Shamim Ismail, disse não saber o que vai acontecer agora.

“Nossa casa foi destruída pelas autoridades. Não recebemos nenhuma acomodação alternativa. Mais cedo, as autoridades haviam dito que nos dariam uma casa. Mas eu não acredito que isso vai acontecer”, disse ela à BBC.

Um dos representantes da prefeitura presente na demolição da casa, Uma Shankar Mistry, disse à BBC que as autoridades destruíram apenas casebres ilegais e temporários que haviam sido construídos recentemente na favela. Ele disse que as casas estavam ocupando uma área que será transformada em um parque público.

Em Quem quer ser um milionário? , Azharuddin Mohammed Ismail interpreta o papel de Salim quando criança. Salim é irmão de Jamal Malik, o protagonista do filme, vivido por Dev Patel.”

O Vídeo pode ser visto aqui

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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11 respostas a Quando a realidade atropela a fantasia

  1. Isto parece uma das minhas discussões intermináveis com o João Branco (de que o cansaço de ambos é o vencedor).

    “As autoridades de Mumbai acusam o menino e a sua família de ocupar ilegalmente um terreno que seria de propriedade do governo.”

    Nuno, uma coisa é ocupar um latifúndio, principalmente se for desocupado e improdutivo. Ou ocupar uma casa abandonada. Outra, bem diferente, é ocupar um terreno do estado. Principalmente com um plano para se construir um jardim. Ocupar um terreno do estado não gera redistribuição de riqueza: estás a roubar os cidadãos todos. Querias que as autoridades indianas fizessem o quê?

    “Testemunhas disseram que a polícia agrediu o menino com um pedaço de bambu antes de expulsá-lo da casa.”

    Coitadinho – um pedaço de bambu… O bambu é mau para construir a barraca, mas já é muito duro para lhe baterem. Querias que lhe batessem com quê?

    Eu estou a poucas horas de embarcar para a URSS. Mandarei cumprimentos teus à múmia do Lenine. Que achas que o Lenine faria numa situação destas? Diz-me.

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Filipe Moura,
    E eu que pensava que cabia ao Estado garantir o direito à habitação…pelos vistos, na tua opinião, ele apenas deve garantir o direito à repressão. Mas, não percebeste a ironia da coisa. Acho que devias ver o filme para entender.
    O Lenine, a mumia e o Filipe Moura, qual deles está mais fossilizado? Eu aposto nos dois últimos, de caras. Boa viagem e cuidadinho.

  3. Por acaso quando li o artigo pensei comentar a mandar a boca: “Olha que o Filipe Moura provavelmente acha bem o que fez a bófia e o Estado” , mas decidi ser comedido e não provocar.

    Obrigado, Filipe, por me teres poupado ao trabalho.

    “Ocupar um terreno do estado não gera redistribuição de riqueza: estás a roubar os cidadãos todos.”

    Mesmo que em valores tenhamos pontos comuns, parece-me que em termos de políticas estamos mesmo em extremos opostos.

    Eis uma foto de uma Ìndia (não ìndiana) a ser expulsa do local onde a sua família sempre morou pelas forças da autoridade estatal. Parece que a determinado momento o governo decidiu que ela estava a “roubar os cidadãos (brasileiros) todos”.

    http://3.bp.blogspot.com/_2m413SdHjR4/R9qmSEMunxI/AAAAAAAAAPg/_wxCvSFcQ0E/s320/vio.jpg

    O Estado priva as pessoas do acesso à terra tornando-as dependentes da sua misericórdia e programas sociais.

    Nuno: E eu que pensava que cabia ao Estado garantir o direito à habitação.,

    Nota-se, nota-se. Wishful thinking (Marxista-Leninista?), Nuno. Ao Estado (e à sua violência armada) cabe (e sempre coube) proteger a propriedade ilegítima dos ricos e o previlégio dos seus funcionários.

  4. Nuno Ramos de Almeida diz:

    João Branco,
    Se tivesses lido a vulgata marxista com mais atenção, nomeadamente o 18 de Brumário, saberias que nem sempre o Estado é um instrumento das classes dominantes e que a realidade é um pouco mais complicada que este enunciados redondinhos que tanto gostas. O Estado e a lei cristalizam correlações de forças, mas muita vezes, pode ter um papel diferente que pode ajudar até a impulsionar a mudança. Em Portugal, por exemplo, a Constituição garante o direito à habitação.
    Há pensadores que defendem, como Paolo Flores d’Arcais , se obrigarmos o Estado burguês a cumprir as suas próprias leis, estamos a fazer uma verdadeira revolução.

  5. Nuno, acho que terás razão em todo o comentário, excepto numa parte: eu não gosto mesmo nada de enunciados redondinhos.
    Quanto ao resto parece-me que são interpretações diferentes da palavra “Estado” , “cabe” , e do contexto em que estávamos a falar.

    Mas estás especialmente certo numa parte: sei mesmo muito pouco da vulgata marxista (e não a li nem com muita nem com pouca atenção).

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    João,
    Os enunciados redondinhos eram para te chatear, a ver se escreves no blogue.

  7. Caros, eu ontem mesmo depois de escrever o comentário vi que não tinha lido com atenção a notícia. Tens toda a razão, Nuno: era a obrigação do estado (como eu e creio que tu o concebemos) arranjar alojamento ANTES de proceder à expulsão. Não sei se foi assim ou não, mas não deixei isto claro. Para o que já não há pachorra é para tanta propaganda.
    (Não, e não vi ainda o filme.) Mando cumprimentos teus à múmia. E, sim, terei cuidado. Vou apanhar o avião. Abraços a ambos.

  8. Morgada de V. diz:

    Pergunta para um milhão (do Filipe Moura):

    “Testemunhas disseram que a polícia agrediu o menino com um pedaço de bambu antes de expulsá-lo da casa. (…)
    Querias que lhe batessem com quê?

    A. Com dois pedaços de bambu
    B. Com cilício
    C. Com chicote
    D. Era desfazê-lo à bastonada

    (Nuno, queres pedir ajuda ao público ou preferes telefonar a alguém?)

  9. Cara Morgana, “bambu” e, segundo julgo saber, um ingrediente que os chineses usam na sopa. Sugiro que batam com alho frances ou aipo. Gastronomicamente sempre e mais do meu agrado.

    Quanto ao resto, ja nao ha pachorra para estes burgueses que dizem mal da policia mas recorrem a ela se forem assaltados. Ao menos o Joao Branco e coerente.

    Nao levem a mal o mau feitio, mas o primeiro comentario foi escrito estava eu de directa, a acabar o seminario que vim apresentar aqui a URSS.

  10. Nuno Ramos de Almeida diz:

    O Filipe Moura estava muito stressado pq, como ele é contra a poluição, não foi de avião para a Rússia. Foi de bicicleta, pq com ele é só coerência: Só come comida justa (animais que assinam um termo de reponsabilidade a dizer que estão muito felizes por ser deglutidos pelo Filipe), não usa apetrechos imperialistas, vive numa caverna, e produz tudo o que consome. Recusa-se a trabalhar para o Estado burguês. Mesmo o computador em que está a escrever é feito de restos de magalhães e torradeiras recolhidas no lixo, por trabalhadores bem pagos e sindicalizados.

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