Santiago Sierra: a democracia como prostituição (ou a DOLCE VITA segundo Santiago Sierra)

santiagos71
Santiago Sierra. “Pessoa paga para ficar de cara para a parede”. 2002.

santiagos8
“Três homens negros penetram três mulheres negras”. 2009.

Ora bem, de que falamos quando falamos em arte conceptual que, nos anos 60 e 70, se propunha inventariar processos de definição e legitimação da arte como se fosem, tais processos, eles próprios obras de arte? De que falamos quando o minimalismo, pela mesma altura, se propunha encontrar modos de superação dupla – da pintura e da escultura – através de objectos produzidos sem intervenção manual (industrialmente, portanto) e que recorriam a formulários compositivos baseados em frias grelhas geométricas? De qua falamos quando falamos em experiências performativas – happenings, performances – que propunham superar o que achavam ser um confinamento da arte – escultura, pintura, objecto – a uma espacialidade sem tempo e a um espectador passivo/contemplativo (contrariando este facto nas obras de Beuys, “Fluxus” – Maciunas, Brecht, Yoko Ono, etc – Chris Burden, Allan Kaprow, Vito Acconci, Carolee Schneemann ou Marina Abramovic….)? Falamos nas neovanguardas que pretendiam retomar o espírito libertário das vanguardas históricas (anos 10 e 20), recusando dualidades antigas como a do autor/espectador, e superando a materialização da obra num objecto mercantil, promovendo novas formas ditas “democráticas” de interacção (relacionalidade, diz hoje Nicolas Bourriaud) entre o venerado “autor” e o passivo “espectador”.
É, depois, quando vejo e estudo artistas actuais como Santiago Sierra (n. 1966, Madrid, espanhol que vive no México) que mais e melhor penso no carácter ilusório do projecto neovanguardista. Que faz Sierra então? Fora do espaço das artes, Sierra não acredita no mercado livre e mostra-nos que todas as relações de trabalho são relações pagas de puro sadismo e humilhação. No campo da arte, Sierra não acredita igualmente numa relação livre autor-espectador que não envolva dinheiro.
Por isso, Sierra paga aos seus figurantes para representarem situações razoavelmente humilhantes que ele imagina como “obras de arte”: o espectador é uma marioneta nas mãos do autor, e ambos apenas interagem porque o autor quer e para tal paga mais ou menos bem. “Filha da putice” do autor-artista? Não, exposição, acima de tudo, da falácia democrática em arte e em sociedade, onde o dinheiro pode comprar todo o tipo de humilhação. Por isso, Sierra interage, sim, mas humilha o espectador com genialidade, e mostra que o grande desejo das democracias é ter figurantes como os seus – passivos, obedientes e pagos para tal. Passarei a alguns exemplos:

santiagos5
“Linha de 2,5m tatuada nas costas de 6 pessoas remuneradas”. 1999.

santiagos1
“Trabalhadores ilegais remunerados para permanecerem dentro de cartões”. 2000.

santiagos2
“133 pessoas remuneradas para pintarem o seu cabelo de loiro”. 2001.

santiagos3
“30 trabalhadores remunerados, virados para a parede e ordenados em dégradé da pela mais clara à mais escura”. 2002.

santiagos4
“Grupo de mulheres sem casa pagas para se manterem uma noite de pé e viradas para a parede”. 2008.

santiagos6
“Los penetrados”. 2009.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

21 respostas a Santiago Sierra: a democracia como prostituição (ou a DOLCE VITA segundo Santiago Sierra)

  1. Joane, o Parvo diz:

    Todo o tipo de humilhação, abuso de poder, desumanização, tem um custo muito elevado, quer ao nível pessoal, quer ao nível social.
    É só esperar um pouco pela factura.

  2. Carlos Vidal diz:

    E o trabalho de Sierra pode ser visto já como uma antevisão de algo muito sério (analisado desde o presente – esse é o mérito desta obra).

  3. Joane, o Parvo diz:

    A questão que se coloca é se a exposição/denúncia consegue ou não passar a mensagem?
    Quantos ao ver aprendem algo?

  4. Carlos Vidal diz:

    Joane, o Parvo,
    Eu, por mim, julgo que Santiago Sierra prefere que essa pergunta fique sem resposta. Mesmo tendo eu avançado uma leitura da obra do autor, julgo que ele preferirá ser visto como alguém que denuncia e ao mesmo tempo não tem escrúpulos de aplicar aquilo que denuncia.
    A ambiguidade é o seu território, e em obras como “Los Penetrados” ou noutra também recente em que ele paga a qualquer homem para mostrar o pénis (e depois fotografa), ele sabe estar a ir longe demais, explorando e pagando. Usando o dinheiro para submeter, submetendo ele próprio (mostrando como a coisa funciona socialmente).
    O artista deseja a destruição deste mundo, mas nunca o diz de forma clara. Aquando da invasão do Iraque perguntaram-lhe o que pensava, e ele disse que apoiava a invasão americana porque um anarquista é sempre a favor da guerra.
    Neste caso concluiremos – tudo o que implique destruição para ele, Sierra, é positivo, independentemente de quem destrói e do que é destruído. Como que a dizer que o mundo em que vivemos deve desaparecer, e é positivo que se comece por algum lado.
    O “caso Sierra” ou a “polémica Sierra” é, de certo modo, interminável.

  5. Joane, o Parvo diz:

    Num post mais abaixo já referenciei dois livros de Arno Gruen, que volto a referenciar aqui (atenção, não tenho lucros a retirar desta publicidade quer ao autor quer à editora) e que desconstroem muito bem como é que personalidades deformadas, autênticos loucos como Hitler (os “sobre-adaptados”) chegam ao poder e ainda são idolatrados pelas massas alienadas: “A Loucura da Normalidade”, no livro “A Traição do Eu” ilustra como os que parecem ser mais desequilibrados e anormais, são no fundo os que por não aguentarem as pressões manipuladoras, visando traírem o seu “self”, aquilo há de mais genuíno e humano em cada pessoa “se vão abaixo” ou entram numa dita “ruptura”.
    Achei estes dois livros muito lúcidos.
    Está lá tudo.

  6. Carlos Fernandes diz:

    É fácil, é barato e dá milhões…
    Fotografar e fazer “obras de arte” assim, a pretexto de se ser vanguardista ou querer “chocar”, é fácil, qualquer um com uma boa máquina, até eu…

    Pessoalmente e na minha modesta opinião, não vejo inovação nenhuma nisto, ao longo da história sempre houve quem fizesse os mais diversos serviços, desde matar a pedido a posar a pedido e sob pagamento…

    “O artista deseja a destruição do mundo” como bem diz, é obvio que sim, trata-se dum paranoico que deve ter uns amiguinhos jornalistas e críticos de arte( pagos e bem pagos, claro!, mas aqui ele não o dirá))que lhe deram alguma projecção e relevo e que depois que faz transparecer e veicular isso mesmo ( o tal desejo de destruição)nas suas obras e fotos. Eu cá pagava-lhe era para lhe tirar uma foto muito apropriada: a ele, encostado à parede, do lado de dentro, de uma pocilga bem suja …

    Caro Professor Carlos Vidal, como sabe bem melhor do que eu, há tantos artistas novos e com verdadeiro talento e ninguém nunca fala neles…

  7. Carlos Vidal diz:

    Mas, permita-me a pergunta: vê traços ou algum traço dessas disfunções na personalidade de Santiago Sierra ou nele detecta, nomeadamente, alguma nostalgia de dominação patológica?
    Ou acha-o “alguém que se foi abaixo”?

  8. Joane, o Parvo diz:

    Caro CV,

    Parvo, eu soo.

    Mas tenho olhos para ver e sentimentos que encontram ecos noutros seres humanos.
    Já li estas obras há uns anos, talvez em 2000/01 e coincidiu a análise deste autor com o que eu também sentia e reflectia.
    Independentemente do que diz ou não Arno Gruen (pessoalmente acho que diz muito bem e ao que julgo saber com anos de experiência em clínica), qualquer ser humano que entre numa relação de abuso de poder ou de humilhação do “parceiro do lado”, antes de mais está-se a trair a si próprio. Se o outro também entrar na jogada de livre vontade (há uma clara diferença entre este e uma vítima sem poder de decidir sobre a situação) então já são dois numa relação sado-masoquista. Tudo isto terá preços elevados a nível da auto-estima e da interacção social dos envolvidos).
    Acontece que Arno Gruen reflecte e analisa as situações com conhecimento de causa (que não possuo, a não ser a experiência de viver), fundamenta-se na experiência clínica e em teorias que não domino. No entanto, vai ao encontro do que sinto e penso.
    “Julgamentos” mais individualizados, evito fazê-los, pois desconheço os contextos. Reparo, contudo, que os “sobre-adaptados” que se vão encontrando por aí, são pessoas que adoram o poder pelo poder e o elogio fácil e oco, que não tem um verdadeiro eco no “self”.
    Deixo aqui este link para consultar.
    http://www.arnogruen.com/

    Mas, isto, sou eu que sou parvo… e vou reparando…

    Saudações

  9. depreende-se portanto que haverá uma outra coisa, um outro sistema, todo um outro mundo, para além da democracia (e do capitalismo acrescento) da qual a humilhação esteja erradicada. qual? pergunto-te, dado que me pareces ter a resposta.

  10. Joane, o Parvo diz:

    A pergunta é “pera” mi, o Parvo?

    Acredito e tenho alguma esperança na denúncia das violações de que é mais humano e simultaneamente partilhado pelos sentimentos humanos.
    Serve um qualquer sistema que esteja atento aos mais vulneráveis, não permitindo que sejam esmagados, sem dó nem piedade, quando lhes foram retiradas e negadas todas as condições de existência com dignidade.
    Como muitas vezes a raiz do verdadeiro mal (negarmos ao parceiro do lado a sua dignidade) passa sem ser diagnosticada, acredito que é preciso denunciar tudo, o mais possível.
    “Dr. Gruen carefully exposes the undiagnosed and undisclosed insanity unwittingly accepted as normality…”

    E por hoje, Boa Noite!

  11. Carlos Vidal diz:

    Caríssimos Joane e Fernandes,
    Há três pontos que são também três indesmentíveis méritos e/ou factores a sublinhar na obra de Sierra :
    1. Ele envia “recados” para dentro do próprio sistema artístico, mostrando que a pretensa destruição da hierarquia autor-espectador não pode ser efectuada, como as neovanguardas dos anos 60 e 70 julgavam, apenas por vontade do autor. Reside aí um grande e absurdo paradoxo: se no “happening” colectivo (como em Beuys, Kaprow ou Wostell de “Fluxus”) o autor se julgava misturado com o espectador porque ele, autor, assim o queria, tal espelharia um fracasso fulcral. Então como é que podia desaparecer a hierarquia autor-espectador se esse desaparecimento dependia acima de tudo da vontade suprema do autor? Sierra aparece e envia-nos uma mensagem nada simpática: o autor é sempre o “poder”, e tanto assim é que pode comprar o espectador.
    2. Este gesto de Sierra é extremamente “antipático”, para não dizer pior. Ou seja, Sierra é um autor muito mais detestado do que admirado pela crítica. O seu lugar na arte contemporânea foi ganho (e vem sendo ganho) a pulso e sem quaisquer favores.
    3. Não vejo como é que Sierra, reproduzindo conhecidas relações de dominação, pode ser um dos “culpados” da nossa servidão voluntária, usando eu o conceito de La Boétie (no “Discurso Sobre a Servidão Voluntária” de 1548).

    miguel dias, aventas tu que eu sei o que está além do capitalismo, tu, leitor como eu de Badiou… Não, não sei, e, como sabes, a noção badiana de acontecimento (e da sua inevitabilidade) aponta-o como inédito e não subsumido ao conhecimento.

    Mas, já que insistes, há uma carta de Debord para o seu tradutor português, onde o francês desclassifica de todo a democracia burguesa e advoga a ocupação de propriedades e fábricas acompanhada de destribuição de armas à população desse modo emancipada.
    Que tal ?

  12. é uma hipótese. mas repara uma coisa : dá-me ideia que a seguir a um robespierre e a um saint-just vem sempre um termidor.Lenine- Estaline. Mao- Deng. Amilcar-Nino, and so on. Acção reacção, portanto. Bem sei que isto é só conhecimento, ou seja, perfeitamente irrelevante.
    (atenção que não estou de nenhuma forma a tentar converter-te ao que quer que seja- era o que faltava-,e bem sei que não estás aqui para debater “questões”, estamos só a conversar.)
    ps: leitor como tu de Badiou? quem me dera.

  13. q diz:

    Tudo isto só prova que o conceptualismo se esgota na enunciação e que nem precisa do objecto artístico.

  14. Há tempos li uma entrevista com o cantor “Tom Waits, se não estou em erro”, num caderno semanal dum jornal , onde este se afirma comunista e filiado, e a uma determinada pergunta do jornalista ele respondia: “eles não vão matar as pessoas à fome porque precisam quem compre e trabalhe, mas vão humilhá-los”;foi este humilhar que precisamente fixei, e que me trás aqui a colar ao assunto em questão.

    Até onde a humilhação irá e a revolta dela surgirá ninguém sabe.
    O pasto ressequido é sempre um potencial de fogo.

    Quanto à questão Lenine-Estaline, ou seja os caminhos torcidos ou trucidantes que os movimentos históricos libertadores acabam por tomar, podíamos ficar pela frase bíblica,” Deus escreve direito por linhas tortas” mas isso carece de alguma humanidade, convenhamos.

    O Debord advoga então a revolução permanente? para mim ela só pode ter um sentido, que venho pensando ultimamente, anular, ultrapassar o “homem comercial”, ou seja o negócio como fonte de riqueza.
    Sou levado a considerar que toda a estreiteza mental e egoísmo humano se desenvolvem em torno deste acto. A troca não tem que ter necessariamente este sentido; por isso há que desenvolver na teoria e na prática meios de produção, distribuição e regulação onde todos os interessados intervenham de alguma modo. Só a prática desta necessidade levará a humanidade à superação do estado actual, digo eu deste modo simplista.

  15. Joane, o Parvo diz:

    “3. Não vejo como é que Sierra, reproduzindo conhecidas relações de dominação, pode ser um dos “culpados” da nossa servidão voluntária, usando eu o conceito de La Boétie (no “Discurso Sobre a Servidão Voluntária” de 1548).”

    Ao ler isto, levantam-se as seguintes questões: E o que leva Sierra a reproduzir conhecidas relações de dominação/servidão? Haverá em Sierra uma identificação com o agressor retirando algum tipo de prazer, perverso diria, por poder pagar o preço para exercer poder, “nessa reprodução e eternização de modelo social”? Haverá em Sierra compaixão para com o sofrimento dos humilhados mesmo que numa servidão voluntária? Haverá um pouco das duas? Reproduzirá (subconscientemente?) algum modelo que lhe foi inculcado? (identificação, ora com o agressor, ora com o mais vulnerável). As respostas estarão dentro de Sierra. Intentará na sua obra (mesmo que de forma menos consciente) reproduzir e prolongar um modelo de agressão? Intentará romper com um padrão altamente destrutivo, denunciando o abuso de poder e a servidão humana?

    “Pera mi” que sou Parvo, vão-se levantando questões. Julgo que só Sierra terá as respostas.

  16. maria monteiro diz:

    Há arte e arte…

    Obrigada Eduardo Gageiro pelos seus”Silêncios”

  17. LAM diz:

    q :
    “Tudo isto só prova que o conceptualismo se esgota na enunciação e que nem precisa do objecto artístico.”
    Mas como toda a arte, é reciclável.
    É ou não, boss Vidal?

  18. LAM diz:

    “…casos de pessoas que, a troco de uns poucos Euros, ficaram horas na rua, durante toda a noite, para garantir a vez na fila a oportunistas que queriam comprar computadores com desconto…”

    Não é obra de Santiago Serra. Foi roubado este excerto do post de samuel-cantigueiro.blogspot.com/

  19. Pingback: cinco dias » Não copulamos!

  20. Pingback: cinco dias » REPUGNANTE

Os comentários estão fechados.