CRENÇAS E VALORES, ou o que nós ainda temos de aturar

Reproduzo a segunda parte da crónica de Daniel Sampaio na Pública de hoje:

“CRENÇAS E VALORES
(…)
Às vezes desaparecem os valores (como no exemplo anterior) e surgem as crenças. O Público de 2 de Maio continha um artigo intitulado “Tratamentos para alterar orientação sexual não são uma coisa do passado”. Tudo começou com a petição online de um homem de trinta anos que reclama “um comprimido, uma injecção”, para fazer face ao “enorme desgosto por sofrer de tendências homossexuais”. Na pesquisa do jornal, destacam-se pela negativa declarações de psiquiatras portugueses que surgem na tradição homofóbica de alguma psiquiatria, que felizmente o conhecimento científico há muito condenou. Dezenas de anos depois da homossexualidade ter deixado de ser considerada doença pela comunidade internacional, alguns dos nossos psiquiatras (com responsabilidades!) falam de “homossexualidade primária”, com “cunho biológico marcado” e de “homossexualidade secundária”, ou desenvolvem a possibilidade de “re-enquadrar a identidade de género e as opções de relacionamento sexualizado”.
O problema não é saber se os psiquiatras podem tratar homossexuais, a questão é que não devem. É certo que muitos homossexuais revelam sintomas psicopatológicos, mas a análise cuidada dessas manifestações demonstra que elas são devidas à discriminação sofrida: quem não se sentirá mal se for alvo sistemático de troça ou de humilhação? O papel dos terapeutas, perante um eventual pedido, deverá ser o de capacitar para a luta contra a homofobia, ajudando a que sejam capazes de afirmar a sua orientação sexual primeiro junto de pessoas próximas, depois (se o desejarem) em contextos mais alargados.
Quando psiquiatras portugueses admitem “tratar” a homossexualidade (alinhando, portanto, na velha e ultrapassada ideia da “doença homossexual”), estão também a manifestar intolerância contra quem é diferente. As declarações são ainda mais graves quando já se iniciou entre nós a discussão sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, porque não faltarão referências a estas posições como justificativas da não alteração da legislação sobre o casamento, embora elas não possuam qualquer justificação. O caso é ainda mais sério quando a posição ideológica provém de alguém com responsabilidade na Ordem dos Médicos, mas serve para todos: mais uma vez as vozes de alguma Psiquiatria portuguesa continuam ao lado da ideologia mais retrógrada, em vez de se colocarem no sentido do avanço da ciência.”

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2 respostas a CRENÇAS E VALORES, ou o que nós ainda temos de aturar

  1. Não, Sérgio, não só não temos como não queremos aturar.

  2. Paulo Nunes diz:

    Estas teorias de que se pode tratar a homossexualidade só servem para dár crédito às posições homofóbicas e discriminatórias que ainda existem em muitos sectores sociais e políticos da sociedade portuguesa. Já o facto de alguns homossexuais sofrerem de disturbios de ordem psicológica devido à discriminação quatidiana a que estão sujeitos será do domínio da Saúde Mental a que todos ( mas mesmo todos temos direito): Não se pode admitir que uma sociedade democrática atire para o distrurbio psiquiátrico pessoas válidas apenas porque não tem a mesma orientação sexual da maioria. Penso que este será um tema a explorar em futuras / actuais batalhas políticas. O lema será pelo Direito à nossa Saúde Mental, contra a discriminação e homofobia. Que venha uma lei do casamento para todos. Mas não podemos esquecer que o universo LGBT não será uniforme quer do ponto de vista etário, quer social, politico e mesmo económico. E, adapatndo Raul Solnado: Temos o Direito a ser felizes. Abraço

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