BELA-VISTA-DOLCE-VITA

Enquanto há quem, muito legitimamente, esteja preocupado com a “violência” em geral e, em particular, com a “violência verbal”, eu, por mim, que nunca me precupei nem com a violência nem com a violência verbal, estou por isso muito mais interessado em desfrutar das maravilhas que o novo centro comercial “Dolce Vita” me pode proporcionar (e que o spectrum também se encarregou de assinalar com outro filme: entretanto, este que proponho é inesquecível e inacreditável). Pois é, de longe que estou muito mais interessado no grande, enormíssimo e belo “Dolce Vita”, felizmente a muito poucos quilómetros do Bela-Vista (é pouco mais do que atravessar a ponte Doutor António de Oliveira Salazar – nomenclatura que aqui uso em homenagem ao Chico da Tasca).

Um filme memorável!

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6 respostas a BELA-VISTA-DOLCE-VITA

  1. Sofia diz:

    Que ligação tão bem estabelecida entre a “Bela-Vista” e o “Dolce Vita”.
    Será que ainda há quem não enxergue?

    Nunca pus um pé no Freeport, não faz parte dos meus planos dar um passo que seja para ir ao “Dolce”.

  2. Luis Moreira diz:

    Durante a semana dá para lá ir ver as montras estão lá meia dúzia de reformados….

  3. maria monteiro diz:

    http://www.youtube.com/watch?v=T8gCJ4K4tnE

    também é uma lição memorável que já vem de 1968

  4. Sofia diz:

    Maria Monteiro,
    Acabei de ver o filme deixado por si.
    Obrigada!
    Não era nada que eu já não soubesse, mas está tudo tão bem explicadinho. Difícil explicar melhor. (Senti compaixão pelas crianças discriminadas, humilhadas, se ao menos pudesse servir de lição… não sei… mas seria bom que as denúncias passassem bem as mensagens…)

  5. A Distanciada diz:

    Carta de Amor escrita à Distância:

    Meu Querido e Amado líder,

    Escrevo-te esta carta com grande reconhecimento pelo grande líder que tens sido, sempre, sempre atento (até faz ternura) aos mais desfavorecidos.
    Quanta generosidade! Quanto altruísmo, vejo em ti!
    Por isso mesmo, quero-te escrever estas palavras simples e harmoniosas, nascidas ao contemplar uma paisagem tão inspiradora e tão digna de se ver, nem mais menos do que esta nossa pacífica Quinta da Bela Vista.
    E porque esta rica paisagem me inspira um fluir de palavras, conducentes à visão de toda uma Dolce Vita, venho-te agradecer tão belas medidas.
    Acrescento que te acho muito lindo e dourado, principalmente vestido de Armani. Faz toda a diferença! És lindo de ver, uma bela vista!
    Envio, daqui, dos confins desta distância, onde habito, muitos carinhos, muitos elogios (mas imploro-te, por favor, não me dês nada de volta… De acordo? Nunca, nunca poderia aceitar).

    Eternamente agradecida ao meu Amado Líder e Superior, com os melhores cumprimentos,

    A que se distancia cada vez

    mais…
    mais…
    mais…

  6. maria monteiro diz:

    P.Constantino Alves – Lição de vida de alguém que ama o Bairro da Bela-Vista e as suas gentes

    Padre, Trabalhador entre Trabalhadores
    Tudo aconteceu da seguinte forma:
    – Em 1976 entrei na Congregação Religiosa Filhos da Caridade cuja missão é o anúncio de Jesus Cristo no seio dos trabalhadores. Foi-me proposto que começasse por fazer uma experiência de trabalho manual. Comecei por não poder escolher a profissão, pois as minhas habilitações eram académicas, teóricas. Daí que a oportunidade que se me deparou foi ser servente num estaleiro de reparação naval no Barreiro. Trata-se do trabalho menos qualificado, duro e mal pago. Costumo dizer que foi o meu segundo baptismo. Na verdade naquela manhã, quando me apresentei aos portões da fábrica com um fato macaco que vesti pela primeira vez na vida, sem conhecer ninguém, com um enorme receio de não aguentar; estava ali em jogo a validade de uma opção, de uma inserção e encarnação no mundo operário. As coisas não foram fáceis. Eu não tinha tido nenhuma formação profissional, não sabia soldar, cortar ferro… apenas picar ferrugem e carregar barras de ferro. Além disso, parte dos companheiros de trabalho, a maioria jovens, já tinham vindo doutras empresas. Eu sentia-me o menor entre eles. Condições de higiene e segurança, nenhumas. Aquecíamos a comida que levávamos naquelas fogueiras que ardiam nos latões de alcatrão. Semanas depois, apesar das mãos grossas e calejadas, das dores que me percorriam o corpo todo, sentia uma enorme alegria pelo novo mundo que encontrava, tão diferente do mundo da Igreja, dos seminários, dos letrados e académicos. Tive de aprender a falar a linguagem dos companheiros, a divertir-me com eles, para me sentir entre eles, um deles. Ninguém sabia quem eu era nem as habilitações literárias que possuía. O meu curso de teologia não encaixava ali. Era preciso aprender, não só para conhecer, entender e amar aquela realidade, mas também adquirir formação profissional.
    Meses depois o Instituto de Emprego chamou-me para fazer um curso de frezador mecânico. Isso iria possibilitar-me um estatuto operário, uma competência. A etapa seguinte foi procurar trabalho numa fábrica. Após trabalhado meio ano na Amadora, o que me obrigava a quatro horas de transporte diários, apanhando sucessivamente um autocarro, o barco para Lisboa, de novo um autocarro e depois o comboio. Às oito horas já estava na fábrica. O regresso era duro pelo cansaço. À noite ia para um bairro dar alfabetização a homens e mulheres.
    Acabei por encontrar trabalho em Setúbal na metalomecânica Clérigo Ltda Cª o que se tornava menos cansativo.
    – “Como te chamas?” – perguntaram os companheiros. “Alves”, respondi eu. Pela primeira vez na vida usava o sobrenome para não ser identificado e permitir, assim, uma inserção progressiva debaixo dum relativo anonimato. E fiquei para todo o sempre a ser conhecido dessa forma pelos trabalhadores do distrito de Setúbal. A minha primeira preocupação foi a de me tornar amigo, ser aceite como companheiro. As condições de trabalho eram muito precárias, opressivas, humilhantes. Não falo só do salário, mas de prémios de assiduidade castrantes, falta do mínimo de higiene nas casas de banho, sem refeitório. E mais do que isso, o ambiente era de submissão e medo generalizado perante o patrão e seus empregados. Não havia qualquer actividade sindical.
    Era preciso avançar um pouco mas. E as minhas conversas começaram a ser sobre o meio de trabalho, a situação que vivíamos, os direitos que não tínhamos. Era preciso consciencializar e organizar. Eu sabia que percorridas estas etapas, e dimensão de militante cristão acabaria por ser aceite e compreendida. E quando mais tarde soubessem que eu era padre, então a surpresa seria maior, mas eu já não seria rejeitado.
    Um dia, logo de manhã, um trabalhador vem ter comigo e traz um baixo assinado com o nome dos 130 trabalhadores a indicaram-me para delegado sindical. Perante essa solicitação, entendi, que estava suficientemente livre para aceitar. Eles não podiam por causa das consequências que recairiam sobre as famílias. Tratava-se de questões de justiça e dignidade humana.
    Com o apoio dos outros padres com quem vivia em equipa, lancei-me ao desafio. E este foi grande. Foi preciso começar do nada, inspirar confiança, fomentar a participação, preparar para grandes dificuldades. Alguns meses depois o meu nome e a minha, de certo modo original acção sindical, começou a chegar à direcção do sindicato dos metalúrgicos. Uma empresa sempre silenciada começava a dar fortes sinais de acordar. Já não parecia a mesma. De salários a regalias sociais, de repressão à liberdade sindical foi um passo. O apoio dos companheiros de trabalho, a firmeza e a coragem era total.
    Certo dia, para surpresa minha, um trabalhador, militante dum partido de esquerda, vem falar comigo e diz-me: “Sabes como és conhecido lá fora?”. Como Constantino, atalhei de imediato. “Não, tu és um padre operário!” “E tu, que pensas disso?” “Por aquilo que te tenho visto fazer, acho que é uma coisa formidável e vale a pena!” E foi sem qualquer programação que aconteceu a descoberta da minha condição pelos companheiros. Foi uma enorme ternura e simpatia o que seguiu.
    E as surpresas continuaram. Tempos depois fui convidado para a direcção do sindicato dos Metalúrgicos do sul. Estávamos no início dos anos oitenta e do estourar da crise dos salários em atraso e dos primeiros despedimentos em massa. O sindicato, de considerável maioria comunista apresentava-se como um dilema: trabalhar com eles? Recusar uma oportunidade de me tornar mais solidário com os trabalhadores, de fazer algo por eles e entrar mais profundamente nas organizações operárias? Sim, o Evangelho tinha de saltar das paredes das Igrejas para a charneira do mundo.
    O que vivi durante sete anos como dirigente sindical foram duma entrega sacerdotal inesquecível. Conhecer, partilhar as angústias de milhares e milhares de trabalhadores com salários em atraso, clamar e exigir justiça, tentar formas de negociação, diálogo e inventar formas de pressão e luta. Era preciso que fosse feita justiça aos pobres. O drama dos salários em atraso do distrito de Setúbal saltou para as páginas dos jornais e revistas, portugueses e estrangeiros. Televisões de vários países do mundo espalhavam imagens de rostos e vidas de fome e sofrimento. Eu acompanhava-os, punha-os em contacto com a realidade no interior das fábricas, nas famílias e nas lutas de rua. De manhã à noite, em reuniões, plenários, contactos com o ministério do trabalho, governo civil, segurança social, imprensa, numa dádiva total em favor da justiça aos pobres. O poder de Lisboa incomodava-se, pois vozes a como do bispo de Setúbal, corroborava os gritos dos trabalhadores. “Há fome em Setúbal” era o eco da Igreja.
    Esta vivência e imersão na vida operária partilhava-a na minha Congregação Religiosa, com o bispo, outros padres e militantes cristãos. A oração e a celebração eram a energia e a fonte de esperança. Em 1980 D. Manuel Martins dissera na minha ordenação sacerdotal: “o mundo operário apresenta-te à Igreja para que ela te ordene padre e esta envia-te ao mundo operário para ali anunciares a boa nova da libertação”.
    Quando em 1988 deixei as minhas tarefas no sindicato, com muita pena dos trabalhadores (eu sempre recusara solicitações e pressões para fazer parte das Uniões, Federações e Direcção nacional da CGTP, para estar sempre perto da base…) um operário de uma empresa que atravessara momentos dificílimos, exclamou publicamente: “Quero agradecer ao padre Alves e é a primeira vez que o trato por padre porque aquilo que ele fez por nós não o fez como um dirigente sindical, pois o que fazia vinha-lhe do coração!” Que dizer? Deixar as lágrimas correr e dar graças a Deus.
    O Evangelho ia acontecendo em cada esforço e luta pela justiça, em cada solução encontrada, em cada rosto consolado. O testemunho ia passando pelo dom e pelo amor feito salário, direito defendido, luta realizada, denúncia feita, sofrimento acolhido, estímulo dado. Sinal de unidade, independentemente de opções políticas, ideológicas ou religiosas, por isso um testemunho sentido e apreciado. Falar do Evangelho, administrar baptismos? Tudo isso também aconteceu a operários, dirigentes sindicais e membros de comissões de trabalhadores. Mas foi preciso calcorrear o mesmo caminho e comer do mesmo pão esmagado e reivindicado.
    Tudo isto marcou a minha vida de padre entre os trabalhadores, me ajudou a estar com eles, sentir-me um deles, conhecer e interessar-me por tudo o que faz parte de suas vidas e com eles continuar a procurar caminhos da dignidade e justiça. Como Assistente Nacional da JOC durante oito anos ou nas minhas actuais funções no Hospital do Barreiro, as questões crónicas do desemprego, dos salários insuficientes, das reformas injustas, dos acidentes e doenças profissionais, da precaridade e insegurança, da exclusão e da pobreza, da globalização e da segurança social, dos recibos verdes e do tele-trabalho, do stress e do consumismo… da busca do sentido devida e da felicidade continuam a encher-me o coração e a ser o ponto de encontro com os trabalhadores a quem dedico minha vida. Não será esse o caminho da Igreja, o da encarnação, para ser portadora duma mensagem credível e eficaz de salvação entre os trabalhadores?
    P. Constantino Alves
    (Delegado da Com. Episc. Apostolado dos Leigos para a Pastoral Operária)

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    «A missão da Igreja ao serviço da sociedade, como diz a Encíclica Solicitude Social da Igreja é a defesa da dignidade da pessoa humana. Estaremos mesmo conscientes disto?» Pe.Constantino Alves
    Acabo de vir do desfile do 1º de Maio em Setúbal. Como sempre o mesmo ambiente: trabalhadores, bandeiras, palavras de ordem. Não são apenas “rituais” do passado. Nos rostos de uns e nas palavras de outros passa um sentimento: é o nosso dia! Hoje recordamos a memória dos mártires de Chicago que morreram sob a repressão da polícia quando reivindicavam horários de trabalho de 40 horas. Estávamos no século XIX em que a submissão e exploração dos trabalhadores é de verdadeira humilhação: 16 e mais horas de trabalho, ausência de regalias sociais, baixíssimos salários, condições de habitação insalubres e muita repressão.
    Celebrar o primeiro de Maio é regozijar-se com muitas conquistas e direitos, como, horário de trabalho regulamentado, direito a salário pago, segurança social, férias, saúde, negociação colectiva, liberdade sindical…
    Mas nos nossos dias a situação estrutural de injustiça, onde a economia não está ao serviço da pessoa humana e da sua dignidade, os interesses do capital se sobrepõem ao trabalho, trabalhadores vivem tempos difíceis: a brutalidade do desemprego, trabalho precário, perda de direitos, baixos salários, injusta repartição da riqueza, entre muitos outros aspectos.
    Gritava-se: Trabalho, dignidade e direitos.
    Afinal a doutrina social da Igreja desde a Encíclica Rerum Novarum até á Centesimus Annus de João Paulo II defende estes mesmos valores:
    “ O salário justo é o fruto legítimo do trabalho. A privação de trabalho devida ao desemprego é, quase sempre, para quem dele é vítima, um atentado
    a dignidade e uma amaça ao equilibro de vida. …Dele derivam numerosos riscos para a respectiva família) S.RS. 17
    (…) Os sindicatos são propriamente promotores da luta pela justiça social, pelos direitos dos homens do trabalho … O sindicato é, antes de tudo, um instrumento de solidariedade e de justiça…
    Vi uma meia dúzia de cristãos “praticantes” e lembrei-me de Jesus que dizia que a luz deve ser colocada onde brilhe e que devemos ser fermento. Ora o fermento não se coloca ao lado da massa, mas no meio dela.

    A missão da Igreja ao serviço da sociedade, como diz a Encíclica Solicitude Social da Igreja é a defesa da dignidade da pessoa humana. Estaremos mesmo conscientes disto?
    Acho, que,não poucas vezes, queremos ter a ilusão de que podemos construir um mundo mais justo “fora deste mundo”e dos seus dinamismos. Será pastoralmente apropriado “desviar os leigos” para actividades religiosas, peregrinações, vigilias, retiros.. nos feriados do 25 de Abril e 1º de Maio? Não será isso sinal de que, por vezes, nós sacerdotes retiramos os leigos da sua missão específica que é imbuir o mundo da política, trabalho, associações, cultura, juventude com os valores do Evangelho? Não estaremos a pecar ao querer ocupá-los e sobrecarregá-los nas tarefas ad intra? Como repetia um bispo: “Uma Igreja que não serve o mundo, não serve para nada”

    P.Constantino Alves, Pároco de Nossa Srª. Conceição, Setúbal

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    Procissão leva mensagem de paz – Lê-se no DN de hoje
    Quando forem 21.00, a tradicional procissão de Nossa Senhora Rainha da Paz vai hoje percorrer algumas das ruas do bairro da Bela Vista e está previsto passar junto à esquadra da polícia. É um acontecimento que está a gerar grande expectativa entre os moradores, que prometem aderir em força ao cortejo, mas a igreja já assegurou que é uma “mera coincidência” a celebração religiosa ocorrer este ano no bairro de Setúbal e numa altura em que está sujeito a tumultos desde quinta-feira.
    Ainda assim, os mais de mil fiéis que são esperados vão aproveitar para rezar pelo regresso da paz, como admitiu o próprio padre Constantino Alves. O pároco, que há nove anos exerce na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, de onde vai sair a procissão, já garantiu que será relembrado o “grave problema de pressão social”, pretendendo os fiéis transmitirem uma “mensagem de esperança”.
    Face aos vários incidentes que têm lançado a insegurança e o pânico, o padre Constantino, que ontem visitou o local, chamou a atenção para focos de pobreza, desemprego e “ausência de projectos de vida” da maioria dos jovens que vivem no bairro, sustentando que os moradores se sentem “frustrados, abandonados e deprimidos.” Aliás, o pároco defende que na ordem dos tumultos está o “extravasar das frustrações”.

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