Bem-vindos à Bela Vista

Esta noite houve tiroteio na Bela Vista. Jovens dali e de outros bairros da grande cidade dispararam nas ruas sujas e pobres do mais famoso bairro de Setúbal. Disparar. Destruir. Existir. Oiçam a música de Caetano, demasiado amaricada para aquelas ruas, vejam o filme de Kassovitch. Vão para o sofá e comam pipocas. Escutem os discursos policiais, as moralidades fáceis da comunicação social, as parvoices ditas pela Presidente da Câmara de Setúbal. É fantástico quando uma candidata alegadamente comunista peroa sobre os criminosos estarem a dar mau nome ao bairro. Deixem, sobretudo, de pensar que há algo de bom na Bela Vista. Tudo é mau, num bairro miserável onde as pessoas podem ser cercadas, revistadas e executadas, para afastar os nossos medos. Os habitantes da Bela Vista podem ser maioritariamente honestos e trabalhadores, a lei pode proibir que se matem criminosos com balas na cabeça, mas o que é que isso interessa? Essa gente não dá votos. A maioria deles nem pode votar. Os discursos Paulo Portas e da Presidente da Câmara de Setúbal, e o seu maravilhoso fatinho saia e casaco, têm todos o nosso apoio. Escondam os pobres. Controlem os negros. Os assaltantes assustam-nos. Graças a Deus que há a polícia para os espancar. Felizmente, podem ser cercados e impedidos de sairem do seu “sítio”. Um permanente Estado de Sítio nos “bairros problemáticos” da grande Lisboa é a única política possível.  A lei é impotente, para essa canalha, é normal que na maior parte das circunstâncias essa gente possa ser morta . Só haverá segurança, se depois de construirem as nossas casas, e as limparem, os seus filhos poderem ser mortos. Sejamos justos, não há futuro para essa gente. Agora voltem para o sofá e animem-se, o telejornal está a acabar e a novela vem já.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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21 respostas a Bem-vindos à Bela Vista

  1. Ana Paula diz:

    Excelente, Nuno. Obrigado! Farei link para este post no A Nossa Candeia, assim que outras palavras me ocorrerem para falar do assunto…

  2. Caro amigo,

    Sê, pois, bem-vindo à Bela-Vista. Sabes que a ira poética é compreensível em momentos destes, mas não sejas moralista que não é disso que precisamos para ultrapassar este problema. Acima de tudo, não é de moralismo que aquelas gentes da Bela-Vista precisam para ultrapassar o problema. (e ele há moralismos para todos os gostos, da esquerda ou da direita)

    Acima de tudo, não nos dês as boas-vindas a um bairro que não é teu. Não penses que por conheceres este ou aquele(a) que ali já morou que te tornas diferente dos que comem pipocas ou vestem o seu fatinho-saia. Não te tornas diferente só porque ouviste falar da Bela-Vista no discurso directo. Não vejo diferença entre a tua camisa e calça clara e o fato-saia de quem acerta ou não nas palavras. E aliás também te confesso, que isso pouco me importa porque há quem na Bela-Vista também vista fato e gravata porque o que nos distingue não é que o nos veste, mas sim onde vamos buscar o dinheiro para o pagar.

    Digo-te que da minha janela vejo todo o bairro amarelo, passo diariamente por ele para chegar a minha casa. Mesmo assim não conheço a Bela-Vista. Tenho muitos amigos que moram lá e mesmo assim não conheço a Bela-Vista. Sou sincero: fui duas vezes ao Bairro Azul e ainda hoje não me recompus da visão e da experiência. Portanto, não estou certamente em condições de prestar sermões, nem de ridicularizar aqueles que nunca viram nada além das pipocas. Não estarei em condições de dar boas-vindas de ninguém à Bela-Vista.

    Sei que os que lá moram o fazem diariamente sempre que lá vamos, sempre que por lá passamos. Sei que toda a gente é bem-vinda à Bela Vista. Infelizmente, há quem se esteja a parasitar do justo sentimento de revolta daquela gente, daqueles jovens, para atirar uns petardos à polícia, grafitar pelo caminho um “a’zinhos de anarquia” e cavalgar a onda anti-policial para a qual o próprio Governo tem contribuído com a orientação sitiante que tem dado às forças policiais neste caso.

    Acabo de passar pela barricada policial montada na Bela-Vista. Não nos deixam passar. A nós, nem a ninguém. Os engravatados e as meninas da TV andam por lá à espera que haja mais qualquer coisa que justifique uma notícia de última hora, fazendo uns empolgantes directos do local que afinal…. pasme-se… está calmo.

    Que não nos restem dúvidas que existem comportamentos criminosos por parte de alguns, quer ali morem ou não, e que isso redunda no mau nome de um bairro, aliás, de uma cidade que é feita de gente trabalhadora abandonada há muito pelo Poder. Se não queres entender isso, então sabes ainda menos da Bela-Vista do que eu. Portanto, também te agradeço que não me abras as portas da minha própria cidade, nem me estendas o poético tapete dessa revolta distante.

    É que ali na Bela-Vista moram as gentes do trabalho, mas também as do desemprego. Ali na Bela-Vista faz falta a polícia como faz em qualquer outro sítio. Mas faz falta uma polícia que emane do Bairro e das pessoas, que ajude e contribua para um dia-a-dia mais saudável, que ajude diariamente o bairro e que crie pontes de confiança com os homens, mulheres e jovens, com os ciganos, timorenses e africanos que ali vivem. A estratégia de espetar “polícias de guerra”, de ostentar metrelhadoras e caçadeiras, shotguns e coletes à prova de bala é exactamente o oposto do que é preciso para criar segurança às populações da Bela-Vista.

    Mas o que não podemos mesmo ignorar é que não são os polícias, com ou sem metralha, que vão resolver o problema da Bela-Vista. Porque o problema dessa cidade não é de segurança ou falta dela, não é de vigilância securitária ou falta dela. É um problema social de profundas raizes. É um problema que resulta do acumulado processo de empobrecimento e “ghettização” das camadas empobrecidas, do desmprego e do desprezo dado às vidas de quem ali vive.

    Sei que, certamente, tudo isto saberás tão bem quanto eu. Sei que também sabes (embora não te conheça) que a Presidente da Câmara de Setúbal também sabe tudo isto.

    Sei que, certamente, saberás tão bem quanto eu que não é o povo da Bela-Vista que apedreja a polícia ou dispara petardos. Também sei, ou julgo saber, que saberás que esse não é o caminho para a ruptura necessária com a política que tem conduzido a Bela-Vista para o interior dos Bairros Amarelo e Azul, donde dificilmente sairá num futuro breve.

    Cumprimentos

  3. além disso, saberás perfeitamente que as palavras da Presidente da Câmara tinham exactamente esse objectivo: mostrar que o Bairro não é isto. Aliás, o Bairro não tem nada a ver com isto. Esta a imagem que querem criar do bairro-cidade, mas na verdade não é a sua. Quando Dores Meira diz que há alguns criminosos que estão a dar mau nome ao bairro quer exactamente dizer que o facto de existirem criminosos no bairro – como em qualquer outro – não faz do bairro um mau bairro, muito menos um bairro de criminosos.

    Mas basta passar pela BV para ver que ali estamos perante um importante problema social. Que precisa de soluções sociais e políticas, não militares nem securitárias.

  4. atom diz:

    Como a profissão de assaltante se tem revelado perigosa, proponho que o governo passe a fazer um seguro de vida no valor de 5000000€ a ser suportado pelos contribuintes, para cada um desses profissionais. Proponho também que se legisle para que seja interdito à polícia o porte de qualquer arma superior a um corta unhas. As armas de fogo devem ser permitidas por lei apenas a assaltantes e devem ser fornecidas pelo estado a expensas dos contribuintes. Aos assaltantes deve ser fornecido pelo MAI dois fardamentos completos de basofe , a fim de terem condições comparáveis com as dos polícias. Como a profissão de assaltante, é de desgaste rápido, devem ser providenciada pelo governo assistência médica especial.

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Miguel Tiago,
    Eu não vivo na Bela Vista, mas já lá fui algumas vezes, se calhar mais do que alguns deputados por Setúbal. Vou menos, de qualquer forma, que os polícias que a invadem, mas isso não significa que esteja mais errado do que eles. Duvido que comentasses o meus post se eu não falasse das infelizes declarações da Presidente da Câmara. Quero-te dizer, sem necessidade de citar Brecht, que falar dos incidentes que o bairro vive hoje, sem falar das execuções de jovens, é falar de nada. Há poucos dias, foi morto um jovem assaltante. O facto de roubar não justifica que o assassinassem. Há mais de seis anos, acho que em 20 Junho de 2002, foi assassinado António Pereira, conhecido por Toni. Quem o matou foi absolvido pela justiça. Não estava a roubar. Estava a tentar acalmar os animos numa confusão e foi morto, por um polícia, com um tiro na cabeça à queima roupa. Afinal só tinha matado um jovem preto da Bela Vista. Um criminoso certamente. Se não era, no futuro seria, com esta gente todo o cuidado é pouco. Esta é uma zona de guerra, como grande parte dos suburbios da grande Lisboa. Os mortos têm poucos direitos, os vivos muito menos. Há pouco tempo, estive num bairro da Amadora onde mataram um rapaz de 14 anos. O desespero era igual. Tenho muitos anos de jornalismo, e muitas reportagens em bairros degradados, estou convencido, que pode não dar votos a presidentes de câmara oportunistas, mas alguém deve dizer que mesmo os criminosos têm direitos e que a miséria, a repressão e a falta de direitos levam só ao ódio.
    Eu não voto em Setúbal, se vivesse lá, teria votado no Carlos Sousa. Nesta senhora nem que o voto fosse obrigatório. Como vês a questão não é partidária. Não sei de onde retirasta qualquer moralismo do meu post. Não acho que a miséria tenha nenhuma nobreza. Não admiro criminosos. Apenas digo que as pessoas não precisam de tolerância e de outras palavras balofas, as pessoas precisam de direitos.

  6. moro no bairro ao lado da BV. comentaria o post de qualquer das formas. o que queria dizer é que devemos ter uma abordagem mais ponderada e política sobre esta questão e não apenas emocional.
    é óbvio que as questões que levantam são justas. no entanto, acho que não estás a ser justo para com o esforço da Dores. Também tenho a noção de que se conhecesses de facto o trabalho da autarquia, antes e depois de CS, não pensarias da mesma forma.
    de qualquer das formas, o meu comentário tinha apenas como objectivo evidenciar que a tua “ira poética” está tão distante da BV como a saia-casaco (ou lá que raio é) da Presidente. E quando falas das pipocas estás de alguma forma a discursar numa perspectiva moralista de esquerda. tipo: abram os olhos, preguiças e saiam do comodismo. Embora o tenhas feito pela ridicularização do comodismo, era esse o apelo.

    Eu julgo que as pessoas são interventivas por natureza, embora só possam julgar e analisar os dados de que dispõem. No mundo em que vivemos, nós sabemos bem quem controla os dados de que dispomos… por isso não culpemos os que comem pipocas nos sofás…

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caríssimo,
    Antes mais nada obrigado por comentares. Não pretendo dizer que faço, neste momento, alguma coisa para resolver a questão. já não sou militante, embora tenha muitos anos de activismo. Como militante, uma das experiências que tenho da Bela Vista foi ter feito uma sessão com o filme o Ódio, seguido de debate com sindicalistas da polícia e moradores do bairro. Mas o facto de não me ter lançado a correr para o bairro, não quer dizer que não tenha opinião. Uma opinião deve ser discutida pelo seu valor facial. Eu discordo da frase da Presidente da Câmara de Setúbal, não por ela ser do PCP, mas por que acho totalmente incorrecta, dias depois de um assassinato. Tenho simpatia pelo trabalho do presidente da junta Carlos Almeida, do PCP, que foi professor na Escola Secundária da Bela Vista, mas se ele assumisse um discurso policial, eu criticaria. Todos os dias, assisto o discurso mediático e dos polícias sobre o combate aos criminosos, mas não vejo os mesmos a ter uma posição intolerante sobre esta espécie de execuções extra-judiciais. As pessoas têm direito à vida, à justiça e a uma vida digna. São direitos que não têm os habitantes da Bela Vista.

  8. a.pacheco diz:

    Realmente a posição de Dores Meira do PCP a pedir mais policia, contrasta bem com as declarações de Jeronimo de Sousa secretário geral do PCP, a pôr a mão na ferida, e a dizer correctamente , que o que ali temos é um problema social, que não se resolve com mais policia, mas com medidas sociais , de apoio a uma população carenciada, desenraizada, excluida, e onde focos de tensão e de revolta podem rebentar a qualquer momento.

    Este é um problema comum á generalidade dos bairros sociais , autênticos guetos, onde impera a marginalidade, o desemprego, a total ausência de prespectivas e com a crise a agravar-se , fome, e a fome sempre foi má conselheira.

    Manuel Martins antigo Bispo de Setubal já o denunciou.

    No entanto o PCP não está isento de responsabilidades, pois a Câmara pouco fez, para combater a exclusão social das pessoas que vivem nos bairros sociais de Setubal, e as Câmaras têm um papel importante a desempenhar neste combate.

    O PCP está a cometer um grave erro , ao manter Dores Meira como candidata, a senhora tem um discurso, que é o oposto das posições , neste caso correctas, de Jeronimo de Sousa.

  9. estamos juntos nessas preocupações. acho que não deves ter receio de que os comunistas não as partilhem contigo.
    no entanto, terás certamente em conta que o assassinato a que te referes se passou numa acção no Alvor, perpetrada por agentes da GNR durante um assalto segundo dizem. Conta comigo e certamente com os comunistas para não defender e acusar esse tipo de intervenção policial sempre que ela se prove criminosa e para defender, independentemente disso, uma outra política de segurança interna.
    O que é de todo injustificável e nisso julgo não haver discordância é que na Bela Vista a polícia estar a tratar todos como potenciais criminosos, aplicando quase o estado de sítio e cilindrando direitos civis. Ainda assim, a polícia não é o meu alvo, mas sim o estado burguês que a comanda. A minha tarefa é pois contrariar as agressões às forças policiais e organizar a agressão à classe que usurpou o Estado.

  10. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Miguel Tiago,
    Estou de acordo com a maior parte daquilo que escreves. Com duas pequenas diferenças: a conquista de direitos sociais e a exigência de uma polícia que não mate, não tem de esperar pelo socialismo. É uma exigência para hoje. E, segundo, fica um pouco estranho quando me dizes que não devo recear os comunistas. Ora, sendo eu comunista pq razão me deveria recear a mim próprio? A menos que penses que só há comunistas no PCP , mas isso é já uma outra conversa.

  11. outra conversa indeed 😛

  12. não deves ter receio que os comunistas (refiro-me aos membros do PCP, sem querer entrar na outra conversa) não partilhem contigo a preocupação. não disse que n deves recear os comunistas. é diferente.
    obviamente que n temos de esperar pelo socialismo. n percebo bem de onde vem essa.

    o que a Dores disse, com razão, é que esta é uma questão de falta de polícia de proximidade. não é com aparato e dispositivo de intervenção que se resolvem problemas como os da segurança em Setúbal. Setúbal também tem tido uma vaga de criminalidade e vandalismo absolutamente fora do normal, o que faz com que a Câmara, e bem, exija mais polícia para a cidade, mas não é desta polícia de guerra que aqui vem de vez em quando com helicopteros e shotguns que faz nada. é preciso polícia para manter a segurança e prevenir e não polícia para disparar a matar.

    A câmara municipal e a junta de são sebastião – a que eu pertenço – têm feito um trabalho absolutamente extraordinário na BV. Só não vê quem não cá vem. No entanto, 16 anos de Mata Cáceres (PS) e quase 25 de absoluta segregação não se resolvem facilmente.

  13. a.pacheco diz:

    Que a Junta de S. Sebastião tente remar contra a maré não me custa a acreditar.

    Já duvido bastante daquilo que na realidade tem feito a Camara de Setubal, talvez que com Carlos Sousa houvesse essas preocupações, já com Dores Meira duvido.

    Aliás basta ler o que Pedro Namora escreveu sobre a senhora, para se ter muitas dúvidas sobre a sua competência para o cargo, e capacidade para lidar com questões de exclusão, como aquelas que existem no BV

  14. Pingback: Bela-Vista Social Club « Conspiração dos Iguais

  15. sobre a credibilidade de pedro namora, os seus actos falam por si e escuso a argumentar. quem hoje em dia vai vangloriando Carlos de Sousa e desvalorizando Dores Meira ou fá-lo porque se enquadra naquele conjunto de pessoas que acham que os comunistas bons são sempre aqueles-que-já-não-são-comunistas-e-que-quando-eram-não-prestavam ou fá-lo por puro desconhecimento. se for o primeiro caso, lamento não ter a cura para o preconceito. Se for o segundo, tem bom remédio: é só buscar a informação e descer às ruas de setúbal para ver o que andou e o que não andou desde as substituições na CMS.

    um abraço

  16. Miguel Tiago,
    Eu apoiaria o Carlos Sousa quando ele era PCP. Acho que és injusto para um excelente presidente em Palmela e que ganhou a câmara a uma ruinosa gerência do PS. Duvido que a Meira tivesse ganho a câmara. Depois, é natural que com uma câmara absolutamente destruida, demorasse tempo a fazer-se o trabalho. Gostava que me esclarecesses quem colocou o Namora na câmara de Setubal? Não foi o PCP?
    Finalmente, parece que aquilo que acusas que, alguns de nós, só gostarmos de presidentes que já não são do PCP, se verifica mais contigo. Que avalias negativamente um trabalho de um presidente de câmara, por ele, muito tempo depois, já não ser do PCP. Eu tento não fazer isso. Gosto da gestão de presidentes de câmara que são do PCP, como o do Barreiro, Palmela e Serpa, e de alguns que já não são do PCP, como o de Sines. Mas isso é outra conversa.

  17. a.pacheco diz:

    Se têm criticas ao Pedro Namora, deveriam tê-las feito durante estes anos todos.

    Aliás quem deu emprego ao Namora na Câmara de Loures, o PCP

    Quem deu emprego na Camara de Odivelas a Pedro Namora, os vereadores do PCP

    Quem deu emprego a Pedro Namora em Setubal o PCP.

    Se o homem era tão bom profissionalmente que derante quase 20 anos, lhe foram sempre arranjando emprego, é agora que ele deixou de ser um bom profissional?

    Ou pelo contrario ele nunca foi nada de especial, mas como era bastante sectário e defendia sempre a linha oficial do PCP, acusando todos os que tivessem alguma posição critica, então o partido grato a esta gente que é incapaz de pensar pela sua cabeça, deu-lhe sempre a mão?

    É a isto que devem responder , o resto , é simplesmente uma cortina de fumo…..vai-se desfazendo…..

  18. Não conheço o Bela-Vista. Moro no Grande Porto. Conheço, embora mal, alguns dos bairros “problemáticos” desta área. Os problemas que existem neste bairro são político-partidários? São problemas entre militantes de partidos ou facções destes? Não creio. Num bairro com milhares de pessoas nem todas são criminosas. A esmagadora maioria não será. Mas pelo meio da gente boa e da gente mais ou menos, como em todo o lado, há gente má. Ou não? E essa gente má, se cometer actos criminosos, não deve ser detida pela polícia? Desde quando incendiar carros não é um acto criminoso? Desde quando disparar para pessoas, sejam polícias ou não, não é um acto criminoso? Os autores destes actos são todos de fora do bairro?

  19. joana freitas diz:

    Fica sempre bem ir buscar o La Haine para se falar dos bairros “problemáticos”.
    É giro e mostra que somos cultos. Mas o nome do autor é Mathieu Kassovitz e não Kassovitch.
    E o filme, como a comunicação social, não deixa de apontar um certo “determinismo” quase biológico dos que são encostados nos bairros sociais, uma certa predisposição criminológica.
    Não sou de nenhum bairro social nem pretendo fingir que conheço, que visito só para saber como é (quase como a veil que foi trabalhar para uma fábrica para saber como vivem as operárias). Sei que alguns dos que têm o X do bairro social (x marks the spot), já me passaram pelas mãos em processos judiciais. E para eles o que há é a pulseira electrónica. Reinserção social? Não, isso não interessa. Ainda que tenham 16 anos. Ainda que a família seja desestruturada. Ainda que ao lado vivam duas pessoas que trabalham e nunca tiveram “problemas com a lei”, mas sejam logo potenciais criminosos.
    eu cá vivo numa cidade pequena, numa avenida nova e bem parecida. Há uns meses morreu um senhor que esteve três meses para ser encontrado porque ninguém da família achou estranho que ele nada mais dissesse. Há uns meses, foram detidas duas pessoas por lenocínio (angariação de clientes para prostituição). Mas somos todos pessoas respeitáveis e nas nossas paredes não há buracos de balas, cercos policiais e televisões.

  20. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Joana Freitas,
    Obrigado pela correcção ortográfica. Confesso que o pressuposto que o filme está ai para mostrar cultura me parece imbecil. Ainda estou à espera do primeiro comentador que querendo expressar uma opinião, não comece por insultar o postador.
    Conheço o filme e o bairro. Até já exibi o filme no bairro, seguido de uma discussão entre moradores e sindicalistas da polícia. Estranhamente, os moradores identificaram-se com o filme, mas que sabem eles, se, como eu, não conseguem escrever correctamente o nome do realizador…
    Sobre o resto do seu comentário, nem todos os habitantes dos bairros sociais acabam criminosos, nem todos os criminosos vivem nos bairros sociais, mas que existe uma correlação entre a pobreza, os problemas nas famílias e o crime, garanto-lhe que sim e que é fácil de demonstrar.

  21. joana freitas diz:

    Caríssimo,
    se entendeu como um insulto, desengane-se. só achei que era um início demasiado óbvio. Tal como acho óbvio que os moradores se identifiquem com o filme, apesar desse mesmo filme, ao ser uma pedra no charco, cai nos mesmos erros que muitos de nós caímos. e talvez lhe tenha escapado ali uma pequena parte do comentário. que a pobreza, os problemas sociais e o crime estão ligados, estamos todos carecas de saber.
    e depois disso? debatemos nos bairros sociais? com membros da associação sindical de polícias (sim, porque os policias no nosso pais ainda não podem ser sindicalistas)? ou vamos um bocadinho mais além e exigimos outras coisas, nomeadamente a acção e intervenção do estado em coisas como o apoio judiciário, a reinserção social, o emprego, os salários, entre outras coisas.
    Repito, não quis insultar o postador. a correcção do nome foi irónica. apenas para evidenciar como é fácil chamar esse filme, ou chamar moralistas à comunicação social, o dizer que se conhece os bairros porque se lá foi debater o filme. em coimbra também o debatiam na biblioteca municipal para quem o quisesse ouvir. mas daí até ao próximo passo é que é mais difícil. é esse que falta.
    eu conheço muitos bairros sociais. onde as vítimas de violência doméstica, por exemplo, se identificam com alguns dos filmes ou alguns dos debates. e depois colocam a questão fundamental: eu denuncio. e depois? que garantias tenho eu que estou a salvo? os governos esqueceram-se desta parte. mas somos todos afoitos a dizer que é uma grande violação dos direitos humanos.
    falta, de facto, o passo seguinte, por mais “o ódio” (que aliás explica o ódio”) que existam ou lutas internáuticas que o denunciem.

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