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I só o futuro dirá

7 de Maio de 2009 por Nuno Ramos de Almeida

Nem sempre é possível julgar um jornal pelo primeiro número. O Europeu foi a excepção, quando melhorou era tarde. Já O Independente teve, sem notícias, um começo desastroso e tornou-se, meses depois, com notícias, um jornal difícil de ignorar. Às vezes ser um excelente jornal não chega, tenho para mim, que O Independente mais equilibrado foi no tempo da Constança Cunha e Sá, com a mudança do formato, e, na realidade, foi o início do insucesso: o projecto tinha perdido a sua razão ideológica de existir e não conseguiu renovar-se o suficiente. Muitas vezes ser muito moderno é mais um problema do que uma vantagem: o Já, de que eu fui director-adjunto, nunca resultou, o seu formato híbrido, entre o jornal e a revista, nunca agradou à grande massa dos leitores. Não teve a capacidade de cobrir de uma forma diferente toda a realidade noticiosa.

Ao ler o primeiro número do I, ainda pouco há dizer sobre o futuro do jornal. Para já, acho o formato interessante, o grafismo moderno e agradável. No entanto, sinto falta da tipografia à Jorge Silva. Das titulagens para orientarem as prioridades do olhar e para mudarem os ritmos de leitura. O jornal é agradável mas não tem ainda a pica. Há poucas notícias. Não se limita a seguir a agenda, mas falta-lhe agenda e acho que, ainda, não constrói agenda. Temo que neste momento, seja preciso ler outro jornal e o I para ter as notícias importantes da imprensa. Eu teria apostado na investigação e teria dado ritmos e abordagens mais diversificadas na zona de Radar, mais à Liberation. Sobre a opinião, acho boas as apostas no Pedro Lomba e no João Rodrigues, dois excelentes polemistas. O resto da opinião, dos que conheço, parece-me sofrer do complexo do bloco central: opiniões penteadinhas. O candente artigo sobre a ideologia é um símbolo desta tendência. Era relativamente fácil encontrar bons cronistas diferentes e extremados: Gabriel Silva, João Gonçalves, Carlos Botelho, Ivan Nunes, António Figueira, Luís Rainha, Vitor Dias, Pedro Sales, para me cingir à área política, seriam escolhas mais excitantes do que alguns dos escohidos.  Resumindo, neste momento, o I ainda parece um suplemento de um grande jornal, o que já não é mau.

Nota: um comentador queixou-se, com razão, que isto é um país em que só se lembram de homens para comentar. Pensando no assunto, acrescento que a Ana Cristina Leonardo, a Cristina Ferreira de Almeida e a Laura Abreu Cravo seriam excelentes escolhas para qualquer jornal.

Comentários

Comentário de ana
Data: 7 de Maio de 2009, 23:23

devo dizer-te que ainda hoje sinto falta do JÁ… deve ter sido dos poucos que comprei assiduamente

Comentário de pg
Data: 8 de Maio de 2009, 1:29

Neste país só há cronistas e comentadores do sexo masculino! Já não há pachorra!

Comentário de João
Data: 8 de Maio de 2009, 6:42

Acho que comprei todos os números do JA.
Depois ainda comprei todos os números da VIDA MUNDIAL, mas ja nao era a mesma coisa….

O JA estava, no meu ponto de vista, demasiado bem feito para o país que temos. Ou talvez a tua análise, de alguém que o viu interiormente, faça mais sentido.

Ontem comprei o i e não me desagradou, mas também não meencheu as medidas….

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 8 de Maio de 2009, 8:05

Pg,
Tem razão. Cheguei a pensar nisso. Na altura pensei em alguns nomes impossíveis para o I, caso da Fernanda Câncio. E outros da blogosfera: Ana Cristina Leonardo, Laura Abreu Cravo e a Cristina Ferreira de Almeida. Mas, achei que não se enquadravam na categoria de comentadores políticos.

Comentário de matilde
Data: 8 de Maio de 2009, 9:09

é um “i”mbuste, nada a fazer.

Comentário de Jorge Oliveira
Data: 8 de Maio de 2009, 10:24

Excelente análise.

Comentário de ezequiel
Data: 8 de Maio de 2009, 13:22

Eu tenho a ligeira impressão de que o futuro vai surpreender-te, caro Nuno.

Só espero que n estejas na Europa quando tal coisa acontecer.

Comentário de Youri Paiva
Data: 8 de Maio de 2009, 14:45

O “i” espanta-me pela capa. “Todos querem menos imigrantes”, generalizando os “sindicatos” (quando na realidade só fala da UGT, esquecendo-se da maior intersindical do país). A ideia é chocar, criar alguma reacção nas pessoas… mas enfim, que coisa fraca e estúpida.

Comentário de Pedro Maçãs
Data: 8 de Maio de 2009, 16:03

“Nota: um comentador queixou-se, com razão, que isto é um país em que só se lembram de homens para comentar. Pensando no assunto, acrescento que a Ana Cristina Leonardo, a Cristina Ferreira de Almeida e a Laura Abreu Cravo seriam excelentes escolhas para qualquer jornal.”

“Pensando no assunto” ou estabelecendo uma cota?

Comentário de quinta do infantado
Data: 9 de Maio de 2009, 3:50

Portugal é um país sui-generis, não existe nenhum diario ou semanário, com uma linha de esquerda, mesmo de centro esquerda só com muito boa vontade se pode dizer que existe.

Porque será?

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 9 de Maio de 2009, 16:11

O capital ser todo de direita?

Comentário de Fábio Dionísio
Data: 9 de Maio de 2009, 16:23

quinta do infantado, não será por causa da “malta” das “empresas” ou “grupos económicos” que detem a comunicação social em geral e os jornais em particular? Em termos extritamente comerciais, evidentemente que há mercado e público – seria tentador fazer um jornal de grande tiragem “com uma linha de esquerda” porque venderia que nem cerejas: todavia os “bosses” lá de cima não são parvos, não vão pôr em risco o “status quo” em troca de mais umas massas (que podem sempre garantir com mais um jornal de recorte “moderado” ou progressista mas não muito, se fizer falta). Portanto, em termos de “jornais grandes” estamos conversados. Quanto a jornais “à esquerda” teremos que nos realizar na resistência. Com todos os seus defeitos, contradições e divergências sempre podemos contar com o “Le monde diplomatique”, “O Avante” e as pérolas preciosas (e amadoras) e pasquins dos mais variados “esquerdismos” que temos ali há mão na Calçada do Combro, na livraria “Letra Livre” (ela própria não menos preciosa que o material que vende).

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