Eu fumo o que eu quiser

Escrevo enquanto enrolo a ganza que vou fumar assim que der por terminado o dia de trabalho. Conheço, fumo, aprecio, e só não planto porque a minha gata daria rápida e ligeiramente cabo dos meus esforços agrícolas, ou a cannabis é mesmo boa e ela sabe, ou simplesmente é uma planta porreira para bolsar uma bola de pelo de vez em quando. A minha gata, como eu, é adulta, toma as suas decisões em consciência, e sabe melhor do que o Estado o que é melhor para si.

mgm-cartaz

Depois do Porto, é já este sábado que a Marcha Global da Marijuana, da qual sou mandatário, sai à rua em Lisboa, Braga e Coimbra. A marcha realiza-se, desde 1999, no primeiro sábado de Maio, em mais de 200 cidades, e denuncia em primeiro lugar que o facto de a cannabis ser considerada uma substância ilegal tem consequências sociais e sanitárias bem mais gravosas do que se fosse um produto legal. A Marcha parte do Largo do Rato às 16h00, com destino ao miradouro de Stª Catarina (Adamastor), onde alguns mandatários e convidados vão fazer intervenções pela legalização.

Na verdade, a Marcha da Marijuana, concentrando-se na mais inofensiva das drogas ilegais (e mesmo se o não fosse, a decisão continua a ser minha de consumi-la), é uma denúncia mais vasta das políticas proibicionistas que à escala global têm não só entregue o negócio das drogas às máfias do narcotráfico; como misturado, com consequências terríveis, os mercados de drogas duras e leves; precarizado e marginalizado as condições de acesso dos consumidores às substâncias; sido pretexto para guerras e acções militares imperialistas; corrompido sistemas políticos inteiros; comprometido a economia e a independência de nações, veja-se a importância do cultivo da folha de coca na América Latina, ou a importância para a economia marroquina do charrinho que vou fumar daqui a pouco; atrasado ou impedido o desenvolvimento de políticas de redução de danos e riscos sérias e comprometido políticas de prevenção informadas; criminalizado um consumo consciente e socialmente inofensivo; enchido as prisões de consumidores de drogas leves; negado os benefícios da produção da cannabis, da sua utilização médica para algumas das doenças mais graves e até algumas das que não têm cura, do seu potencial como fonte de fibra ou de produção de pasta de papel e de substâncias convertíveis em energias renováveis; diabolizado uma planta em função de um ideal erradicador das drogas que além de tonto, utópico e, no que me toca, indesejado (quero mesmo fumar a ganzinha), tem o perigo evidente de achar que uma planta, ou as substâncias, são o “mal”, em vez de se concentrarem, para mais nesta sociedade de consumo e da ideologia do prazer imediato, no razonamento do uso que delas fazemos (coisa que aliás faria bem à taxa de alcoolismo).
Despenalização da posse, consumo e cultivo de cannabis e de todos os produtos derivados desta planta, bem como a criação de regulamentação para o fornecimento, comércio e compra legal por adultos e uma regulamentação para estabelecimentos públicos onde o consumo por adultos seja permitido, tudo isto eu subscrevo. E nem sequer apenas para a cannabis, que os problemas mais sérios estão nas drogas mais duras e nas novas drogas sintéticas, seguramente não no meu charrinho.

Petição à Assembleia da República solicitando a legalização da canábis para auto-cultivo (cultivo para consumo próprio) e a sua venda em estabelecimentos autorizados a maiores de idade.
Aqui

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27 respostas a Eu fumo o que eu quiser

  1. ArTeC diz:

    Sim, é verdade, estou aqui a publicitar a nossa peça intitulada: NU.

    6as e sábados às 22h no Bar Novo da Faculdade de Letras de Lisboa. Reservas: 221 799 0530.

    Porque gostamos de letras e de nos descobrirmos!

    Saudações Teatrais! =D

  2. Aconselho-te a ração «bolas de pelo» para a tua gata.

  3. Fortuna diz:

    Que parvoíce, marchassem antes contra o desemprego, algo que pelos vistos para os meninos instalados/inúteis do bloco de esquerda não deverá constituír grande preocupação…

    P.s. Já agora chamem a Câncio, essa jornalista de causas a que o país muito deve

  4. Gracias, Sérgio, vou passar. Um abraço.

    (bela gata essa!)

  5. Sérgio diz:

    Fortuna, começa já a marchar contra o que tu quiseres mas em direcção aos Açores. Se sentires os pés molhados não pares que está a correr bem.

    De resto acho muito bem esta iniciativa. A hipocrisia tem de acabar.

  6. Gabo-lhe a capacidade de escrever enquanto enrola. Eu mal enrolar sei quando muito escrever. As duas ao mesmo tempo nem pensar.

  7. Tuga Muga diz:

    De acordo: fume broas quantas for capaz, beba, coma, salte, engula, disparate, verborreie, masturbe-se, corte as unhas do gato com alicates, manifeste-se, grite, escreva, embebede-se, … mas não venha para aqui e para as outros bandas por onde “prega” o missal da inocuidade leve e sorridente do charrinho livre e universal para as massas, fazer loas à droga como direito de consumo individual democrático e elemento de desenvolvimento para as economias do terceiro mundo! Se trabalhasse, conhecesse e investigasse o assunto na sua dimensão – grave – do impacto na saúde mental das criaturinhas “adultas” a partir dos 14 anos, não falaria decerto assim. Há muita leviandade e ligeireza nos seus argumentos! Mas faça assim: voluntarie-se para passar uns dias nas urgências ou instituição de saúde mental/psiquiátricas de forma a aprender alguns conceitos básicos sobre a relação das drogas “levezitas” e neurose-distúrbios obsessivos compulsivos-doença bipolar-psicose-esquizofrenia. Se tiver estômago e capacidade para deglutir essa realidade e se algum dos jovens que por lá aparecer lhe pedir um charrito, não hesite … pode pegar neste seu manifesto e enrolar a “merda” nele e fumarem os dois alegremente, enquanto explica aos pais ou amigos a inocuidade da cannabis e o poder das fibras vegetais na sustentabilidade do planeta! Experimente, mas, já agora, sem uma “moca” a iluminar o seu superior e iluminado discernimento! Saudações e, por favor, use “mortalhas” do comércio livre.

    • Mário diz:

      Apresenta-me um estudo em que realmente comprove essas esquizofrenias e psicoses e outros derivados. Como é que uma substância que ajuda no tratamento de doenças como a depressão e autismo, entre outras, causa esquizofrenia…

      Preconceito e má informação, associações desmentidas, estão na origem de tal comentário 😉

  8. Tuga, há quem possa morrer de alergia ao marisco e nem por isso se proíbe toda a genet de consumi-lo. Já agora, os problemas mais graves parecem ser relativos ao consumo até aos 15 anos.

  9. LAM diz:

    Tá assinada a petição e passei a alguns contactos. Apesar de não fumar brocas acho um completo disparate a não legalização.

    P.S. Tuga Muga, felicidades. Você vai ser o único tuga a ter uma estátua em vida. É que estou a ver que é menino para durar até aos 200 anos.

  10. Rui diz:

    O Sr: “levezitas” e neurose-distúrbios obsessivos compulsivos-doença bipolar-psicose-esquizofrenia

    dá ares de científico/patológico,

    há mais vida além do preconceito, discriminação e desinformação que reproduz

    vá-se informar!
    aconselho o Rei Vai Nú de Jack Herer, da editora Via-Óptima

    Já agora tem alguma clínica para tratar toxicodependentes?

  11. Camelo no buraco da agulha? diz:

    A caminho dos Açores 😉

  12. Camelo no buraco da agulha? diz:

    QUEM NÃO FUMAR É MULTADO

    «Na província de de Hubei, na China , os funcionários públicos são obrigados a fumar. Quem não o fizer é multado.

    A nova regulamentação determina o número de cigarros que devem ser consumidos e as marcas que devem ser compradas pelos funcionários públicos.» [Jornal de Notícias]

  13. Camelo no buraco da agulha? diz:

    Creio que ainda não se aplica a gatas (mesmo adultas).

    Já agora, como se distingue uma dessas?

  14. Fortuna diz:

    (” a marchar em direcçao aos Açores…) isto era para ter piada ou andas fumar haxixe de baixa qualidade? safa…

  15. tuga muga, não me considero irresponsável, mas claro que isso é subjectivo. De resto, sim, faço com prazer todas as actividades que me aconselha. Estudei e estudo aprofundadamente a questão das drogas, como pode provavelmente verificar se pesquisar pelo meu nome o arquivo do jornal de notícias, no qual trabalhei e assumi o tema. Digo-lhe mais: comecei o meu trabalho jornalístico passando um largo período no Casal Ventoso, não falo de cátedra, falo do terreno e já vi muita coisa na vida, incluíndo boa parte dos meus amigos de escola a darem cabo das vidas com a heroína. À porta de minha casa vejo com frequência putos de 7-8 anos a vender droga com aval da família… espero que entenda que não me está a dar novidade, nem a dar-me lições de sensibilidade para com os efeitos sociais das drogas. Mas entenda também que não alinho no discurso do “flagelo”. Os flagelos são coisas inevitáveis. A relação doentia que a nossa sociedade tem com as drogas, a começar pelo álcool, não é. Então porque não conseguimos ir mais longe na prevenção e na contenção desse custo social, após tantos anos de proibicionismo ou do salazarento “droga, loucura, morte”? Considero as políticas proibicionistas não apenas irresponsáveis mas criminosas, precisamente pelo imenso problema social, económico, de saúde pública, político, que envolve as drogas sobretudo nas sociedades industrializadas e nos países produtores, e que a cegueira da “guerra às drogas” agrava e muito.
    Sobre a “moca”, aconselho a leitura do Opiário de Fernando Pessoa, não consta que lhe tenha afectado particularmente a lucidez geral, mas parece que lhe abriu algumas portas mentais. As drogas sempre fizeram parte das sociedades humanas. É o seu uso e a complexificação da sua produção e consumo que se torna um problema, e é isso que tem de ser enfrentado, bem como o narco-tráfico. Mas, os maiores amigos do narco-tráfico são o imperialismo, nomeadamente o norte-americano, e o probicionismo pró-erradicação da ONU.
    Poupem os Açores, que não têm culpa e devem continuar bonitos.

  16. Bob diz:

    Sendo as drogas um dos principais factores que financiam as guerras no 3o mundo, como se pode ser anti-guerra e consumidor sem entrar em conflito ético?

    Bob

  17. Uma pequena borrachita especial incluída em todos os nossos telemóveis é motivo de conflito armado em África. Viver na sociedade de hoje é entrar em conflito ético. Não creio que a solução seja necessariamente prescindir das coisas. É sim, alterar-lhes a lógica.

    Ah, é verdade, caro Fortuna. Contra o desemprego estive a marchar no 1º de Maio. Mas só se pode falar disso? Então falemos, mas em todas as suas vertentes, e a nível global, já que a recessão capitalista é também global. Falemos do desemprego e das condições de vida dos indígenas produtores de folha de coca na Bolívia, por exemplo, e em como a guerra às drogas a ultra-precarizou.

  18. maria monteiro diz:

    aconselho o livro: Afinal, o que é a droga? de Marie-Christine D’Welles
    da Sopa de Letras

  19. joao silva diz:

    Fuma m…. drogados do c……

  20. Tuga Muga diz:

    Desculpe o atraso mas estive numa conferência. De facto, você e os restantes “padres” desta cruzada pela legalização da “droga levezita”(que eu respeito inteiramente como direito de cidadania e democracia) decididamente não estudam nem aprofundam muito o assunto – o que não me admira!. Portanto aqui vão algumas sínteses, para não vos puxar muito pela moleirinha. Leiam mesmo tudo SFF, até ao fim: “There are about 400 chemical compounds in an average cannabis plant. The four main compounds are called delta-9-tetrahydrocannabinol (delta-9-THC), cannabidiol, delta-8-tetrahydrocannabinol and cannabinol. Apart from cannabidiol (CBD), these compounds are psychoactive, the strongest one being delta-9-tetrahydrocannabinol. The stronger varieties of the plant contain little cannabidiol (CBD), whilst the delta-9-THC content is a lot higher.
    When cannabis is smoked, its compounds rapidly enter the bloodstream and are transported directly to the brain and other parts of the body. The feeling of being ‘stoned’ or ‘high’ is caused mainly by the delta-9-THC binding to cannabinoid receptors in the brain. A receptor is a site on a brain cell where certain substances can stick or “bind” for a while. If this happens, it has an effect on the cell and the nerve impulses it produces. Curiously, there are also cannabis-like substances produced naturally by the brain itself – these are called endocannabinoids.
    Most of these receptors are found in the parts of the brain that influence pleasure, memory, thought, concentration, sensory and time perception. Cannabis compounds can also affect the eyes, the ears, the skin and the stomach. There is growing evidence that people with serious mental illness, including depression and psychosis, are more likely to use cannabis or have used it for long periods of time in the past. Regular use of the drug has appeared to double the risk of developing a psychotic episode or long-term schizophrenia. However, does cannabis cause depression and schizophrenia or do people with these disorders use it as a medication?
    Over the past few years, research has strongly suggested that there is a clear link between early cannabis use and later mental health problems in those with a genetic vulnerability – and that there is a particular issue with the use of cannabis by adolescents.
    Depression – A study following 1600 Australian school-children, aged 14 to 15 for seven years, found that while children who use cannabis regularly have a significantly higher risk of depression, the opposite was not the case – children who already suffered from depression were not more likely than anyone else to use cannabis. However, adolescents who used cannabis daily were five times more likely to develop depression and anxiety in later life.
    Schizophrenia – Three major studies followed large numbers of people over several years, and showed that those people who use cannabis have a higher than average risk of developing schizophrenia. If you start smoking it before the age of 15, you are 4 times more likely to develop a psychotic disorder by the time you are 26. They found no evidence of self-medication. It seemed that, the more cannabis someone used, the more likely they were to develop symptoms.
    Why should teenagers be particularly vulnerable to the use of cannabis? No one knows for certain, but it may be something to do with brain development. The brain is still developing in the teenage years – up to the age of around 20, in fact. A massive process of ‘neural pruning’ is going on. This is rather like streamlining a tangled jumble of circuits so they can work more effectively. Any experience, or substance, that affects this process has the potential to produce long-term psychological effects.
    Is there such a thing as ‘cannabis psychosis’? Recent research in Denmark suggests that yes, there is. It is a short-lived psychotic disorder that seems to be brought on by cannabis use but which subsides fairly quickly once the individual has stopped using it. It’s quite unusual though – in the whole of Denmark they found only around 100 new cases per year. However, they also found that: * Three quarters had a different psychotic disorder diagnosed within the next year.* Nearly half still had a psychotic disorder 3 years later. So, it also seems probable that nearly half of those diagnosed as having cannabis psychosis are actually showing the first signs of a more long-lasting psychotic disorder, such as schizophrenia. It may be this group of people who are particularly vulnerable to the effects of cannabis, and so should probably avoid it in the future.
    Recent research in Europe, and in the UK, has suggested that people who have a family background of mental illness – and so probably have a genetic vulnerability anyway – are more likely to develop schizophrenia if they use cannabis as well.

    Isto são textos simples … Há muito, muito mais a confirmar a realção entre cannabis e aumento da doença mental. É só faxer umas pesquisas e … voilá! Informação às toneladas …

    PS – Não sou dono de nenhuma clínica nem tenho qualquer negócio na área. Sim, sou profissional de saúde e, sim, sei do que falo! Mas sobretudo sou Pai e sei o que significa em concreto o impacto dessa inocuidade alienante. E também já fumei – há muito anos – todo o tipo de haxixes e erva que por aí circulavam, alguns dos quais provavelmente você nunca ouviu falar. E sei o que isso me fez a mim e aos outros que curtiam a coisa alegremente. Você é pai, Tio ou tem à sua responsabilidade jovens ou adolescentes? Está preparado para assumir os riscos? Se quiserem envio mais informação …

  21. Tuga Muga diz:

    As referências:
    – Further consideration of the classification of cannabis under the Misuse of Drugs Act 1971 (2005) Advisory Council on the Misuse of Drugs. Home Office: London.www.drugs.gov.uk
    – Cannabis use and mental health in young people: cohort study (2002) George C Patton et al. British Medical Journal, 325:1195-1198.
    – Cannabis and educational achievement (2003) Fergusson DM, Horwood LJ & Beautrais AL. Addiction 98(12):1681-92.
    -Cannabinoids and the human uterus during pregnancy (2004) Dennedy MC et al. American Journal of Obstetrics and Gynaecology. 190(1), 2–9.
    – Cannabis and flying http://www.jr2.ox.ac.uk/bandolier/bandopubs/cannfly/cannfly.html
    – Cannabis intoxication and fatal road crashes in France: population based case control study (2005) Laumon B et al. British Medical Journal, 331, 1371-1377.
    – Marijuana abstinence effects in marijuana smokers maintained in their home environment (2001) Budney AJ et al. Archives of General Psychiatry, 58, 917-924.
    – Marijuana use and car crash injury (2005) Blows S et al. Addiction, 100, 5, 605.
    – Self reported cannabis use as a risk factor for schizophrenia in Swedish conscripts of 1969: historical cohort study (2002) Zammit S, Allebeck P, Andreasson S, Lundberg I, Lewis G. British Medical Journal 2002; 325: 1199-1201.
    – Cannabis use and psychosis: A longitudinal population-based study (2002) Van Os J, Bak M, Hanssen M, Bijl RV, de Graaf R, Verdoux H. American Journal of Epidemiology; 156: 319-327.
    – Cannabis use in adolescence and risk for adult psychosis: longitudinal prospective study (2002) Arseneault L, Cannon M, Poulton R, Murray R, Caspi A, Moffit TE. British Medical Journal; 325: 1212-1213.
    – Cannabis use and mental health in young people: cohort study (2002) Patton GC, Coffey C, Carlin JB, Degenhardt L, Lynskey M, Hall W. British Medical Journal; 325: 1195-1198.
    – A longitudinal study of cannabis use and mental health from adolescence to early adulthood (2000) McGee R, Williams S, Poulton R, Moffitt T. Addiction; 95: 491-503
    – Mental health of teenagers who use cannabis (2002) Rey JM et al. British Journal of Psychiatry, 180, 216-221.
    – Prospective cohort study of cannabis use, predisposition for psychosis and psychotic symptoms in young people. Henquet C et al British Medical Journal, 330, 11-14.
    – Tests of causal linkages between cannabis use and psychotic symptoms (2005) Fergusson DM, Horwood LJ and Ridder EM Addiction, 100 (3).
    – Cannabis-induced psychosis and subsequent schizophrenia-spectrum disorders: follow-up study of 535 incident cases (2005) Arendt M et al British Journal of Psychiatry, 187: 510 – 515.

  22. Tuga muga, eu nunca disse, nem me verá escrever, que as substâncias são inócuas ou não constituem riscos. Continua a não me dar novidade. Claro que as drogas têm riscos, claro que estão associadas ao desenvolvimento de psicoses (ou melhor, ao desengatilhar de psicoses em algumas pessoas que têm prévia propensão). Precisamente por terem riscos, é que afirmo que o problema é a forma como usamos as substâncias. Beber um copo não faz necessariamente mal, mas o alcoolismo existe e é um problema de saúde sério e generalizado.
    Também posso afirmar-lhe, porém, que boa parte da informação “científica” sobre os danos da cannabis, nos dias de hoje, não é de fiar: tem havido uma produção massiva de desinformação sobre os seus danos e riscos que tal como não pode ser diletantemente descartada e apontada como falsa sem verificação, tem sido trazida ao conhecimento público sem a mesma confirmação. Ou seja, não é ciência, é propaganda, e cumpre uma função dentro da “guerra às drogas”.

    Já conheceríamos melhor os efeitos e os riscos da cannabis, se um médico não arriscasse ir preso por manuseá-la, estudá-la, receitá-la aos seus doentes, os terminais, por exemplo, como já vi fazer. Como até eu já fiz. Conto-lhe algo da minha vida pessoal, creio que por uma vez se adequa. A minha mãe faleceu em 2006 vítima de um cancro, um dos maus, doença prolongada e muito, muito dolorosa. Adivinhe qual a única coisa que a aliviava, quando nem a morfina o fazia… adivinhou? Com que direito lhe negaríamos a ela, já agora, o acesso a um placebo que os medicamentos existentes não produziam?
    Agora, cá entre nós, estou farto desses argumentos de autoridade de quem acha que por ser pai é mais crescidinho que os outros. Eu também tenho filhos. Mas mesmo que os não tivesse, tenho muita gente à minha responsabilidade, de várias idades, e volto a dizer-lhe que não sou um irresponsável, até já salvei algumas vidas no meu percurso. Também já as perdi, sei o que é perdê-las, ver gente a ficar para trás, e não poucas vezes com utilização excessiva de drogas.
    Sabe o que é definitivamente provoca psicoses? A sociedade de consumo e precariedade crescente. Essa é que até podíamos erradicar, e não caíamos no ridículo com o propósito.

  23. Tuga Muga diz:

    Caro Sérgio Vitorino: compreenda que eu respeito, sincera e profundamente, a sua liberdade de escolha e opção. É assim que eu tento viver diariamente com todos os meus semelhantes. Democracia é para mim um conceito basilar e sagrado. Só que as nossas ideias, idiossincrasias e acções têm uma implicação directa e concreta na vida dos outros. E estou de acordo com a utilização da cannabis em meio hospitalar/médico para qualquer tipo de doença que dela necessite. Estaria até de acordo em que adultos a pudessem utilizar livremente. Não vejo problemas nisso e tenho alguns amigos que o fazem! A questão é outra: eu, você, nós estamos dispostos a assumir o risco que lhe está subjacente – os estudos são inequívocos e a qualidade dos citados não têm dúvidas porque são escrutinados por toda uma comunidade científica – quando os adolescentes, jovens, adultos jovens e uma parte da população adulta com factores predisponentes tiverem acesso mais fácil à “droga pseudo-leve”.
    Eu fui dirigente associativo e animador juvenil durante muitos anos, com um contacto directo e quase diário com muitos e muitos jovens. Sei, muito bem, ao pormenor, qual é o impacto da entrada da “droga leve” na vida despoluída dos muitos jovens que conheci, orientei e trabalhei. E não tenha dúvidas: não, não foram as neuroses ou psicoses que apareceram de imediato! Foram todo um conjunto de manifestações e sinais de alienação e desligamento da realidade (pessoal e colectiva) que se começaram a entranhar na vida de cada um deles – associado sempre ao consumo desregrado de álcool também, que se traduziam na práctica por um crescendo de desinteresse, indisciplina, desmotivação, balda e desorganização. Ou seja: “tou-me cagando pra tudo”, porque já tenho a minha dose de prazer e não preciso de me esforçar para mais nada! E não vi isto acontecer apenas umas vezes … é um padrão típico e, para quem já passou pela experiência, tão, mas tão fácil de compreender. Posso até dizer-lhe que essa foi uma das razões para a quase paragem da Associação, uma vez que os dirigentes e monitores mais velhos “fartaram-se” das constantes e crescentes manifestações de “apatia, balda e conflito”, que envenenavam tudo. Isto mina tudo: vontade e saúde pessoal, família, escola, associações, vida social, participação cívica, participação política … Nem mesmo actividades em África que realizávamos, em parceria com outras congéneres, já os conseguiam motivar e fazer “mexer”. Como Vê, eu também não falo de cátedra. E, depois, também vi e sofri o suficiente, quando a minha filha mais velha se iniciou na adolescência na lides da Pseudo-droga leve. Eu sei o que isso lhe afectou do ponto de vista da sua saúde mental, saúde escolar, saúde social e desenvolvimento cultural/democrático/cidadania. Numa palavra: alienação, desmotivação, desinteresse, balda, agressividade. Hoje, está ainda a pagar de forma pesada essa factura. E sinto que muitos anos se vão passar até que consiga estabelecer um ponto de equilíbrio razoável. Portanto, é claro que quem é PAI sabe melhor que os outros. Eu SEI! Talvez outros não o saibam … Já agora, quando os seus filhos tiverem a idade em que os jovens normalmente se iniciam nas experiências das drogas (álcool, cannabis e etc …) você vai fazer o quê ?????? Está assim tão seguro de SI ????? Cumprimentos e não use essa desculpa esfarrapada do sistema, da sociedade de consumo e da precariedade como fonte de psicoses – toda a gente conhece bem as relações – para contrapor a esta questão, porque isso nem chega a ser argumento.
    Portanto, na minha opinião, se quer continuar a persistir na ilusão é lá consigo … mas tenha atenção que as nossa atitudes e opções implicam uma GRANDE RESPONSABILIDADE. Por favor, leia mais – muito mais – sobre o assunto e perceba que isto não são papões do imperialismo, ou qualquer outro ismo ao seu gosto para você se auto-justificar/degladiar, mas apenas EVIDÊNCIAS PRACTICAS, RACIONAIS, LÓGICAS e DESPIDAS DE IDEOLOGISMOS OU PRECONCEITOS contra a cannabis. Saudações e felicidades para si e para os seus.

  24. Caro, entendo melhor agora a sua posição, e continuo, acredite que com modéstia, a discordar. O que vou dizer aos meus filhos quando eles chegarem à idade de experimentar? Nada, tudo o que tenho a dizer-lhes vou tentar dizer-lhes antes. E não vou senão informá-los, e não é com uma campanha de medo, é informando. Eu não posso impedi-los de experimentar. Posso impedi-los de o fazerem sem um pouco de consciência do que estão a fazer. Eventualmente, até convencê-los a não experimentar.
    Mas não é o medo que previne, nem é possível prevenir com o medo e a repressão. O medo e a repressão, o que provocam é desinformação, marginalização das realidades, e portanto risco acrescido. Porque os jovens de que fala VÃO continuar a experimentar. Podem ir buscar ao tráfico substâncias com misturas inimagináveis, ou podem fazê-lo sem terem de se envolver num mundo de ilegalidade e crime, sabendo exactamente o que estão a consumir, se o consumirem, e o que provoca. O consumo vai continuar, podemos fechar os olhos ou lidar com ele. E já agora não negar outras coisa: que se há consumos destrutivos, também há consumos recreativos. Você diz que “mina tudo: vontade e saúde pessoal, família, escola, associações, vida social, participação cívica, participação política”, e eu digo-lhe que há muitos consumidores que têm uma vida familiar, escolar, social, cívica e de participação política regular”. Até lhe digo mais: os efeitos colaterais da proibição das drogas sobre os consumos de muitas pessoas, são parcialmente esponsáveis pelo tipo de uso destrutivo pelo qual muitas pessoas enveredam.

  25. Um jovem qualquer diz:

    Caro Tuga Muga,

    Só queria aqui realçar algumas falhas no seu raciocinio que invalidam obviamente as suas conclusões:

    Primeiro, incorrer ao argumento da autoridade para justificar uma qualquer posição demonstra falta de capacidade justificativa. Você é pai? Qual a relevância dessa informação para a nossa discussão?

    Segundo, da mesma maneira que você citou e arranjou mil e um artigos expondo os efeitos negativos do consumo prelongado e exagerado do Cannabis eu tambem consigo citar-lhe de boas fontes, estudos que defendem o consumo informado e responsável da mesma substância. Simplesmente ainda não há informação suficiente sobre este assunto. Portanto apenas posso concluir que a sua posição apenas demonstra um certo ceguismo face a este assunto.

    Terceiro, noto na sua argumentação uma falsa ilusão de um mundo livre de drogas. Digo-lhe que basta ir ao Bairro Alto a uma qualquer hora da noite que em menos de 10 minutos lhe será perguntado: “Haxixe? Coca?”. Quero com isto dizer que o proibicionismo É uma medida falhada. Vá ao Bairro e veja com os seus olhos. E estou-lhe a dizer esse local porque é o mais conhecido. Assim como esse conheço eu muitos outros. É uma luta interminável e sem consequências práticas. Não era você o Sr. contra o consumo? Será a proibição a melhor maneira? É que produzir Cannabis não é o mesmo que produzirem-se armas. Numa é necessária uma infrasestrutura, pessoal especializado etc… Na segunda, um mero vaso é suficiente. Pense bem.

    Note. Eu não sou a favor da total desregularização e despenalização do consumo de Cannabis. Antes pelo contrário. São necessários estudos sérios e uma resposta a este problema com prespectivas cientificas e não pseudo-cientificas e com vistas práticas.

    E não quero incorrer sequer na discussão ética do controlo do estado sobre a vida das pessoas. Detesto comparar o álcool à Cannabis, pois considero o álcool de longe, mais prejudicial à saúde que a Cannabis (por experiência própria de exagerado consumo de ambas). Mas ao observar tamanha revolta contra o consumo de Cannabis pergunto-me onde estão as pessoas a lutar contra o consumo do álcool? Noto uma estranha falta de coerencia.

    Cumprimentos e que seja a discussão democrática o primeiro passo para resolver este problema!

  26. João M. diz:

    Tenho 50 anos, fumo ganzas há mais de 30, e isso não me impede de ser um cidadão normalzainho da silva em todos os aspectos. Sem gabarolices, posso dizer que sou respeitado na minha área profissional (trabalho na área da informação) e sou mesmo considerado bastante competente.
    Julgo que aos charros se devem aplicar, no mínimo, regras semelhantes às que são comummente aceites para o consumo de álcool. Ninguém me critica se, num fim-de-semana ou numa noite, depois do trabalho, eu me emborrachar com os meus amigos; porque não posso então fumar um charro?
    Depois, a questão dos «perigos para a saúde» é, como todos sabemos, uma falsa questão. Claro que a erva não é inócua, mas, em rigor, haverá algo que o seja, nos dias de hoje? A carne tem gorduras que provocam colesterol que provoca acidentes vasculares e ataques cardíacos. E então? Proibe-se a carne?
    Por outro lado, tal como consumir álcool não leva forçosamente ao alcoolismo, tabém fumar charros não faz de nós necessariamente “junkies”. E não é por haver alcoólicos que os governo se lembram de proibir o álcool. De resto, da única vez que isso foi tentado, nos EUA há 80 anos, deu no que se sabe – e nunca como então se bebeu tanto e tão mal por aqueles lados…
    Além de que – sei-o por experiência – é muito menos viciante fumar ganzas do que cigarros. Durante toda a minha vida, sempre que decidi parar com os charros (por motivos económicos, ou simplesmente para “purgar” o organismo) consegui fazê-lo, tranquilamente, de um dia para outro. Já com os cigarros, a coisa tem-se revelado bem mais complicada. Não é por acaso que há médicos que afirmam ser o grau de dependência do tabaco semelhante ao da heroína.
    Por fim, ao sr. Tuga Muga, queria dizer que o consumo de erva e hash por crianças é, evidentemente, tão deplorável como o consumo de álcool e de tabaco. E, uma vez mais, não é por isso que estes são proibidos.

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