TRABALHO SEXUAL: NÃO FINJA QUE NÃO VÊ

net-manif-1c2bade-maio-2009-019Ontem foi bom e foi importante. Foi também uma estreia, e nem a passagem de Vital Moreira pelo desfile da CGTP o fez passar despercebido ao jornalista que escreveu o artigo de abertura do Público de hoje. Um grupo de trabalhadoras do sexo do Intendente foi por sua iniciativa própria ao 1º de Maio. Umas levaram as filhas, aquelas que a segurança social retira não necessariamente com mais do que o critério único da profissão da mãe. Outras levaram voz e garra. Sem grandes teses ou reivindicações sobre a profissão. Não é que não as vão já debatendo, e que não digam “queremos direitos”. Não, mas antes disso e antes de mais, colocar o dedo na ferida do estigma e da violência, quer aquela a que se sujeitam nas ruas, quer a do preconceito social que fez pesados os olhares do público à sua chegada à Alameda. O estigma. A forma como são tratadas pelo Estado e pelos comuns de nós. Quanto mais não seja quando olhamos para o lado todos os dias, aqueles que não somos seus clientes, e não vemos realidades duras, muito duras, que não podem continuar a ser ignoradas. “Prostituição: Não ao preconceito, Sim, à pessoa”, era o que queriam dizer, e que também são trabalhadoras.
A mim fez-me lembrar as primeiras presenças de homossexuais, enquanto tal, nos desfiles da CGTP no 1º de Maio. 1992, a primeira vez, com embaraço público da central, hoje com outros olhos para a questão. Mas não conseguiram fazer-nos sentir ‘aliens’ totais, e os olhares foram mudando.
Um pequeno grande passo, o destas mulheres. Que os seus passos ecoem. Que consigam um dia destes fundar a associação de que falam. Contem comigo.
Na Europa “civilizada”, para aprofundar ainda mais o policiamento anti-emigrantes, o tempo é de alterações legais restritivas, persecutórias e precarizantes das trabalhadoras do sexo que enfrentam piores condições de vida, curiosamente a pretexto da luta contra as redes de exploração de mulheres. No Portugal do sexo insistentemente tabú e mal vivido, da discriminação, uma aliança – alguns dirão contra-natura outros bizarra – entre um grupo lgbt (panteras rosa), uma instituição católica, (irmãs oblatas), PROJECTO IR (CEM – Centro Em Movimento) e um conjunto de trabalhadoras do sexo de uma das mais degradadas zonas de Lisboa, ajudou a trazer à rua a denúncia da hipocrisia sobre a existência da prostituição. Essa profissão quer voluntária, quer recurso extremo, quer de mulheres, quer de homens, quer de transexuais, em tantos e variados contextos e diferentes situações, mas com tanta experiência comum. Uma aliança natural, digo eu, quando leio declarações da responsável das oblatas ao Público que “se Jesus fosse vivo andaria a distribuir preservativos às prostitutas”. As minhas alianças são também as de quem intervém de forma humana e progressista na área das ‘sexual politics’. Sobretudo em Portugal. Eu não diria melhor.
Tiro o chapéu a estas mulheres auto-organizadas que ontem passaram desfilando frente ao seu local de trabalho e cumprimentaram colegas a partir da marcha, enquanto cantavam junto com as pessoas que se manifestaram no MAYDAY 2009 “hoje, 1º de maio, há precárias a trabalhar!”. Confio que no próximo ano sejam também, se não ainda muitas, certamente mais, porque esse é o efeito dos primeiros exemplos quando são corajosos.

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9 respostas a TRABALHO SEXUAL: NÃO FINJA QUE NÃO VÊ

  1. Ora aqui está um caso bicudo para a esquerda: defender o direito destas mulheres ou insurgir-se contra o uso do seu corpo como moeda de troca? Como em tudo, virar a cabeça é hipocrisia. Está na altura da esquerda olhar para elas!

  2. Paulo Nunes diz:

    Pois claro! Nos tempos que correm podemos ver a profissão das prostitutas nesta perspectiva. Mas também não esquecer que alimentam um determinado sector da burguesia capitalista e de classe média com dinheiro que paga para ter sexo quando deseja! Quando quer! Porque quando há fartura e sobra, chega para tudo. São os conhecidos senhores dos mercedes que vão circulando pela cidade. Os senhores de uma classe social que apanhava os putos da Casa Pia nos Jardins de São Bento. Os senhores de uma classe social que apanham as meninas bem no alto da Alameda junto do IST. Pois … temos que olhar para a sociedade no seu todo: profissionais do sexo. Liberdade sexual para todos. Mas numa sociedade capitalista em crise em que alguns compram (exploram ) corpos e almas e a outros falta o pão para a boca e o dinheiro já não chega para os bens essenciais. Que prioridades devemos ter ?

  3. Ora essa diz:

    Pois se os filhos estão no poder, por que motivo não hão-de as putas manifestar-se?

  4. renegade diz:

    No meio de tanto estrume, textos destes salvam-nos.

  5. Paulo Topa diz:

    Parece-me que a posição de qualquer pessoa deveria ter em conta que é uma realidade inultrapassável nos tempos mais próximos (pelo menos). É necessário que tenham os seus direitos (como pessoas, como trabalhador@s) respeitados. Por outro lado, é necessário trabalhar para que as situações das pessoas que não pretendam essa vida possam ser alteradas e que não seja necessário venderem o que ninguém lhes pode tirar (só a morte) quando não o desejam.
    Que a CGTP (pelo menos) (e todas as pessoas, organizações e partidos) seja capaz de apoiar quem já foi capaz de ser manifestar e tod@s quantos gostariam de lá estar.

  6. maria monteiro diz:

    Quando foi dos tempos do ICNE cruzei-me várias vezes com as irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor

    Era sempre assim que elas se apresentavam: “Nós trabalhamos no Intendente, nos Anjos, na Alameda porque é por aí que andam as mulheres que nós ajudamos”.Sempre me ficou na memória o carinho, o respeito, a dignidade, a clareza,… com que falavam desses assuntos.

  7. Olá a tod@s,

    uma ronda de comentário rápida, e um agradecimento pelos vossos comentários.

    Existe de facto uma contradição à esquerda e particularmente entre correntes feministas distintas sobre o dilema de aceitar o princípio da venda do corpo, para mais no contexto de sociedades humanas profundamente sexistas, e face a parte do trabalho sexual, máfias de tráfico de pessoas, situações de escravatura sexual, etc.
    Esse debate não implica porém, que se feche os olhos à realidade. O trabalho sexual, voluntário, condicionado ou forçado, existe e vai continuar a existir, tem uma procura massiva, e reconhecido ou não como profissão, importa confrontar a hipocrisia que o rodeia, a marginalidade – e portanto a violência, o preconceito, a desumanidade – que tantas vezes o rodeia, as consequência sociais mais gravosas dessa marginalização. E não me venham com conversa formatada sobre como numa sociedade ideal a prostituição desapareceria. Não tenho faróis da sexualidade que quero, mas creio serem mais complexos do que isto os seres humanos e o seu desejo multifacetado.
    A prostituição, em sentido lato, é aliás um preceito do capitalismo para a esmagadora maioria de nós, e muitas são as formas de vendermos os nossos recursos pessoais inerentes nas sociedades de hoje. Em certo sentido, tod@s o fazemos. O corpo, como a mente, é propriedade pessoal da pessoa que nele habita, e o trabalho sexual voluntário também existe, tal como o forçado ou aquele que é um recurso de sobrevivência.
    Por outro lado, o “trabalho sexual” não implica apenas prostituição e relações sexuais. A indústria do sexo emprega milhares de pessoas em linhas telefónicas, publicações e outras actividades.
    Paulo Nunes, sem desmentir o que dizes, creio que a procura de serviços sexuais é inteiramente transversal em termos de classe.
    Não querendo entrar, agora (ando a pensar num post sobre isso), no tema da higienização da linguagem – eu sou adepto do “português das 400 calhoadas por minuto” do Assis Pacheco – gostaria de evitar o termo “filho da puta”. Depois de ver uma irmã oblata começar a intervir num debate dizendo “nós, as prostitutas…”, e sabendo como se comporta, abusivamente, a segurança social com as prostitutas que são mães, muitas vezes sem consideração real dos interesses da criança mas apenas com base no preconceito sobre a profissão da progenitora, penso que o termo “puta” é ofensivo. E não, os filhos das “putas” não estão no poder. Normalmente estão no fundo da escala social, e creio que isso nos deve fazer pensar e escolher novas palavras para qualificar os políticos que temos. Prefiro uma óptima que vi no 1º de Maio num carrinho de bébé, algo como: “putos ao poder, que os pais não se aguentam”.
    O essencial foi dito pelas próprias mulheres do Intendente que tomaram a iniciativa de “saírem do armário” num 1º de Maio: “hey, nós também somos pessoas”. Somos pessoas. E aqueles e aquelas que o entendermos, seremos tod@s trabalhadores/as sexuais, tal como uma freira católica pode colocar-se ao lado das mulheres que vê sofrer diariamente no Intendente, e dizer “nós, as prostitutas”.
    Já agora, estas mulheres não são vítimas. São daquela qualidade de pessoas especiais que metem o dedo na ferida e têm a coragem de pensar, falar, sair à rua e começar a mudar a (sua) vida.

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  9. juliana diz:

    isso é muito importante …

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