Censura e Freeport

[Nota prévia: vou escrever este post, sobre a cobertura jornalística do caso Freeport, sem referir o órgão de comunicação social A ou B ou C ou D. Queria evitar personalizações, que envenenam sempre todas as conversas. Mas, enfim, a conversa decorrerá como V.Exas, os leitores, entenderem. ‘Bora lá, então.]

Imaginem uma redacção e um editor e um jornalista. Os diálogos são simplificados. O editor simboliza o responsável último pela edição (ou não edição) de uma determinada matéria. O jornalista chegava ao pé do editor e dizia-lhe:
– Chefe, saquei o DVD do Freeport!
– Ah sim? E o que diz?
– O Smith diz que o Sócrates é corrupto, que os pagamentos foram feitos através do primo, mais uma série de merdas, é do caraças.

E, perante isto, o editor, respondia uma de duas coisas:
РAvan̤a!
Ou então:
РMete isso na gaveta, ṇo interessa nada.
E se a resposta fosse esta (ou uma que implicasse um resultado final de “arquivamento” do dito DVD numa qualquer gaveta) o jornalista certamente pensaria, com razão:
РFoda-se, isto ̩ censura!

Agora, outro cenário. O jornalista chega ao pé do editor:
– Chefe, há desenvolvimentos da história do DVD.
– Quais?
– O Smith, depois de ter dito aquilo tudo, veio dizer que afinal estava a mentir. E lá os gajos do Freeport concluíram que afinal não tinha havido subornos.

E aqui o editor teria uma de duas escolhas:
РOk, avan̤a!
Ou então:
Isso não interessa nada, é um frete ao Sócrates, esquece!
E aqui o jornalista diria (com razão):
Foda-se, isto é censura!

Qual das duas notícias é mais importante? Eu diria: as duas – embora, evidentemente, reconheça que o DVD é mais picante. São as duas importantes porque estão ligadas uma à outra. Uma é o desenvolvimento da outra (e não estou a fazer julgamentos sobre em qual das duas o Smith falou verdade).

Mas a verdade é esta: se se soubesse que um editor tinha engavetado a notícia do DVD, legitimamente se poderia clamar “CENSURA!”. Mas se soubesse que um editor tinha engavetado a notícia “contra-DVD”, duvido muito que o clamor atingisse igual volume. Pelo contrário: seria aplaudido por não fazer fretes ao PM.

A censura constrói-se – e isto é uma versão muito simplificada – com responsáveis editoriais que vetam a publicação de determinadas notícias. E, ao mesmo tempo, com jornalistas, também, que às tantas já nem sujeitam ao escrutínio editorial uma determinada notícia por saberem de antemão que ela não será publicada.

Censura é um jornalista não levar ao editor o DVD por saber de antemão que ele não será noticiado. Censura é, também, um jornalista não levar ao editor a notícia “contra-DVD” por saber, de antemão, que o editor lhe vetaria a publicação.

Estão todos de acordo comigo, não estão?

Sobre João Pedro Henriques

Jornalista
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