A aldeia mais portuguesa de Portugal

Vão a Monsanto: é a aldeia mais portuguesa de Portugal (posso confirmar: estive lá ontem). Monsanto resume Portugal, por várias razões: foi bela, tira de uma pobreza franciscana uma beleza digna do mais ostentatório barroco, e é uma chatice para lá chegar (não é isto Portugal, quando é visto de fora com simpatia?); por outro lado, se foi bela, já não é tanto, metade das casas está cair, três quartos à venda, e muito do que resta substituíu o xisto pelo cimento: não é isto também a pátria? Em Monsanto e à sua volta, “engenheiros” de várias estirpes e outros analfabetos funcionais, a mando dos poderes locais e a soldo de bem-intencionados programas europeus, competem numa obra de progresso que quase faz ter saudades do SNI. E façam eles o que fizerem, a desoladora desertificação do interior de Portugal pouco mais oferece como destino àquela aldeia do que servir de residência secundária a burgueses mais ou menos esclarecidos, de Lisboa e de mais longe ainda: até por isso, é uma aldeia portuguesa com certeza.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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