Voto revolucionário

Escrevi este artigo para o número de Abril da Revista Rubra. Apesar de não concordarem nada comigo, tiveram a simpatia de me pedir opinião. Coisa que actualmente é rara. A maioria dos sítios para onde eu escrevia descobriu que eu não tinha nada a dizer. Para fazer uma confissão, não me lembro de ter alguma coisa para dizer há muito tempo. Infelizmente, para ser sincero, é um problema que têm a maioria daqueles que escrevem a opinião. Talvez seja mais necessário voltar a tentar pensar do que debitar pensamento pronto-a-comer.
Adiante, o tema do artigo são as políticas de alianças e as eleições. Confesso que os partidos exclusivamente voltado para as eleições me parecem tendencialmente inuteis. São uma espécie de música de elevador, servem para entreter durante a fascinante viagem para o sítio do costume. Precisamos de uma política total que tenha a ambição de ser global e que tenha a capacidade de alterar a economia e a vida. Até agora, as disputas eleitorais tem sido o espectáculo de variedades que disfarça a ausência de escolhas da política económica. Mas como toda a gente voto e espero que se reforcem os menos maus. Cá vai o artigo.

O escritor Eduardo Galeano contava num dos seus livros ter visto esta frase escrita numa parede qualquer: “Se as eleições servissem para alguma coisa, estavam proibidas”. A democracia representativa tem, na maioria dos casos, esse efeito de liquidar todas as outras formas de democracia e de transformar as pessoas em espectadores da política, munidas de um cartão que lhes permite votar de quatro em quatro anos. Nos partidos anti-capitalistas, a participação no processo democrático eleitoral tem ainda um efeito corruptor acrescido – todos os ciclos políticos passam a estar subordinados aos momentos eleitorais, e a vida partidária é-lhes totalmente dedicada. Eleger mais deputados, ter mais dinheiro, ter mais funcionários para eleger mais deputados passam a ser um fim em si mesmo. Mas da mesma maneira que contestar o capitalismo não passa por criar um cantinho utópico que fuja às leis do capitalismo, contestar o afunilamento da democracia no parlamento, provavelmente, não passa por desaparecer do terreno político existente. O objectivo deve ser subordinar a política eleitoral a um instrumento de uma política total, que luta por conseguir a superação do capitalismo e a instauração de uma democracia, que torne as pessoas actores das suas próprias escolhas.
Há, felizmente, momentos em que a sucessão de ciclos eleitorais pode contribuir para uma ruptura, caso se consiga ultrapassar uma espécie de “fetichismo” dos resultados eleitorais. A crise geral do capitalismo e as contradições crescentes no quadro de um Partido Socialista visivelmente transformado numa espécie de apeadeiro de quadros para grandes empresas, um “PS/Mota-Engil” em que para além de servir os interesses da direita, se serve do aparelho de Estado para o enriquecimento dos seus principais quadros, fazem dos próximos tempos momentos em que se podem conseguir ganhos estratégicos.
A crise geral do capitalismo leva as pessoas a aperceberem-se do carácter destrutivo das políticas neoliberais, os próprios governos estão a ser obrigados a adoptar políticas de recorte keynesiano de intervenção pública no sistema financeiro e de combate à especulação financeira. O papel de uma esquerda anti-capitalista, a nível mundial, que há muito combate pela proibição dos “offshores” e pela nacionalização de sectores estratégicos da economia, é forçar estas alterações que modificam os equilíbrios políticos e económicos.
A nível nacional, é sabido que qualquer alternativa à política de direita passa pela convergência de forças de esquerda que englobem o PCP, o Bloco, sectores do PS e independentes. Só com a criação de um pólo político eleitoral dinâmico que integre estas forças é possível criar, no quadro eleitoral, uma escolha política que concorra para conquistar e alterar o poder. Neste quadro, é estratégico conseguir que sectores do PS rompam com a política de direita, autocrática, para proteger os interesses das grandes empresas e do governo Sócrates, e que aceitem somar forças a outras forças de esquerda. Esta alteração das placas tectónicas das forças políticas portuguesas não está inscrita nos astros, não segue nenhuma lei natural, mas é uma possibilidade que pode ser criada pela acção política. Infelizmente, todas as forças de esquerda, a começar pelo Bloco de Esquerda, têm-se mostrado mais interessadas nos pequenos ganhos nas sondagens e no ultrapassar o partido do lado – isto é visível no confronto PCP e BE -, do que em contribuir para esta alteração de fundo. Esta divisão fundamental do PS entre gente de esquerda que quer um poder que mude a vida e entre gente de direita que quer mudar de vida tem uma pequena possibilidade de acontecer nos próximos tempos. Só uma política não sectária, que lute activamente pela convergência das forças de esquerda e a construção de um programa de uma alternativa de esquerda, pode ter a ambição de reconfigurar o mapa político nacional e a ambição de ser uma alternativa aos governos de direita, protagonizados pelos partidos do bloco central dos interesses.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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14 respostas a Voto revolucionário

  1. maria monteiro diz:

    “Só uma política não sectária, que lute activamente pela convergência das forças de esquerda e a construção de um programa de uma alternativa de esquerda, pode ter a ambição de reconfigurar o mapa político nacional e a ambição de ser uma alternativa aos governos de direita, protagonizados pelos partidos do bloco central dos interesses.”

    um programa de uma alternativa de esquerda que invista na recuperação das instituições publicas (escolas, hospitais, centros de saúde,… apoios à infância, à 3ª idade, às colectividades, às colónias de férias, à habitação) garantindo às familias o essencial para viverem com qualidade de vida.
    Têm que fazer um “ensaio sobre a cegueira” e saberem mudar a visão dum Portugal maioritariamente católico
    Eu sou … cristão/católico/católico praticante/… e voto alternativa de esquerda

  2. miguel dias diz:

    Sou um gajo de direita, que portanto quer sobretudo mudar de vida. Basicamente um capitalista, ainda que sem capital. Mas, custa-me dizê-lo, confesso, o nuno escreve bem como ó caralho.

  3. O Nuno Rde Almeida não passa da ilusão do costume: que uma “aliança de esquerda” constitui, só por si, uma política alternativa

  4. diz:

    A probabilidade da grande frente de esquerda emergir hoje é igual à probabiilidade que sempre teve: perto de nula. Se surgisse, claro, duraria talvez uma semana.

    O Nuno está a escrever sobre ficção (não-científica). O que é pena é que ainda haja pessoas a perder tempo, paciência e neurónios a pensar nisto.

  5. Pingback: É isto a que chamam a convergência de Esquerda?

  6. Junu diz:

    Afinal, parece-me que sempre tem alguma coisa a dizer, (e bem) ao contrário daquilo que afirma no “prefácio” do artigo.

    Quero com isto dizer que não debita uma opinião “pronta a comer”, e como eu concordo consigo, às vezes assistimos a um verdadeiro “vomitório de opiniões”.

    No seu caso, saúdo a excepção, encontramos aqui uma reflexão, um pensar. E como faz falta pensar.

  7. Pingback: O que é a convergência de Esquerda?

  8. Patricia diz:

    Concordo consigo quanto á necessidade de uma frente de esquerda para alterar o rumo das politicas nacionais,contudo parece-me que essa mudança terá que passar primeiro pela mudança pelo menos a nivel da UE.É por isso que na minha opinião a campanha das eleições para o PE devia servir para discutir politicas seguidas até agora e que deram os resultados que estão á vista,a falta de comparencia da UE para discutir a forma de resolver esta situação,afinal o que queremos que mude nas decisões que se tomam em Bruxelas,porque tudo isso condiciona a politica nacional num pais com tão pouco peso politico e económico na UE a 27.

  9. Fernando Redondo,
    Claro que não e nem eu afirmei isso. Apenas afirmei que uma alternativa de esquerda tb passava por a criação de uma alternativa política, social e com expressão eleitoral.

    Zé,
    Poucas coisas estão inscritas nos astros. A nossa história também dependende da acção humana. Cada um preocupa-se com que lhe apetece, no fim logo se vê o resultado.

  10. Antónimo diz:

    Ramos de Almeida,

    E como puxar pela esquerda do PS para a necessária mudança?

    Está acantonada com medo de que lhe lixem a vidinha ou então não tem peso.

    Acho que estava mesmo na altura de lançar um órgão de comunicação social de esquerda, mas será que o capital o quer financiar como fez ao i ou ao público?

  11. Caro NRA,

    eu penso que é ao contrário: uma alternativa parlamentar e governamental de esquerda só surgirá se baseada numa numa nova ideia, alternativa, de desenvolvimento económico e social com credibilidade.

    O que surgir antes disso é apenas fogo de vista.

  12. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Fernando Redondo,
    Acho que é preciso muita coisa: novas utopias, novas ideologias, novos protagonistas. Mas tudo o que é novo nasce da Praxis a partir das velhas realidades. A construção de um programa e de uma alternativa tem, provavelmente, de fazer-se ao mesmo tempo em que se rearrumam velhos protagonistas que se vão transformando em algo de diferente. Da mesma maneira que o todo é diferente da soma das partes. Não creio que sejam possível separar os passos, como se fossem dois processos estanques. Como dizia Engels, a prova do pudim é o próprio pudim.

  13. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Antónimo,
    A questão do PS é mais complicada. Vejamos se no espaço de uma legislatura, no meio da crise internacional, há algum separar das águas. Para isso, pode contribuir uma política activa de convergência de vários sectores na construção de um programa de esquerda, mesmo que em formato copy left e outro tipo de iniciativas.

  14. Luís Antunes diz:

    Mudem mas é de cassete!

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