Orquestra Sinfónica Juvenil Simón Bolívar da Venezuela: um encontro perfeito com o espírito de Abril

Volto a ouvir, sempre ansiosamente, a 5ª de Mahler pela Orq. Sinfónica Juvenil Simón Bolívar da Venezuela no meu leitor de CD. Milagre, quase milagre, o início, a famosa Trauermarsch, uma dolorosa e belíssima marcha fúnebre que esteticamente nos cava fundo e embate num fulgurante 2º andamento que só a energia de Gustavo Dudamel, esse mesmo, um mito tornado realidade, sabe deste modo traduzir. Aquando os “bolivarianos” actuaram em Londres, em 2007, um crítico disse que, com o nível desta orquestra (e não nos referimos só a orq. juvenis), só há mais quatro ou cinco no mundo (arrisco as outras, e peço desculpa se me engano muito: Berlim, Viena, Londres e a do Mariinky de S. Petersburgo). O maestro José António de Abreu no seu depoimento no vídeo que aqui junto fala dessa observação e identifica o autor. A observação é correcta. No site da orquestra venezuelana, o director da Filarmónica de Berlim (que Dudamel já dirigiu), Simon Rattle, diz o que me parece óbvio: “Não há nada mais importante no mundo da música do que o que se está a passar na Venezuela” (ler também no Ýpsilon/Público, hoje). Aliás, num àparte, quem dera a Berlim ter Dudamel como director (ele é superior a Rattle, mas enfim). Mas este tema tem duas facetas: o nível estonteante da orquestra e a dimensão social do projecto que a fez nascer (e não pode ser por acaso que este projecto atinge o seu auge no período Chavez). Foi nos anos 70 que o maestro José António Abreu criou o “sistema” de orquestras venezuelano, aplicado às zonas muito pobres de Caracas, de forma a promover integração social a  jovens excluídos. Os resultados alargaram-se tanto que hoje há cerca de 150000 jovens abrangidos por esta exemplar intervenção social e política de que a Orquestra Simón Bolívar é a face mais visível. Tão visível que, como se sabe, têm actualmente um contrato com a Deutsche Gramophon. Escolhi um depoimento do Maestro José António Abreu, uma interpretação de uma obra popular “Danzon 2” do mexicano Arturo Márquez (absolutamente contagiante, lindíssimo) e um excerto da dificílima 10ª de Shostakovich. Sem mais comentários. Amanhã estaremos no Coliseu para ouvir Stravinsky, Revueltas e Castellanos. 25 de Abril de 2009, a data ideial. (Ouvir então, seguidamente, “Danzon” e Shostakovich : )


Arturo Márquez, “Danzon 2”


Shostakovich, 10ª Sinfonia. Allegro. Quem mais faz isto assim hoje?

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7 respostas a Orquestra Sinfónica Juvenil Simón Bolívar da Venezuela: um encontro perfeito com o espírito de Abril

  1. Ouvi toda a intervenção deste senhor J A A sobre esta Sinfónica, que não sei onde já tinha sabido da sua existência, mas dela não sabia os seus fundamentos.
    Um exemplo único no mundo,penso eu.
    Deixa-nos isto com a alegria de podermos afirmar que um outro mundo é possível.
    Cumprimentos daqui.

  2. Carlos Vidal diz:

    É essa a mensagem, caro Adão Contreiras.
    É uma mensagem política, tanto mais política quanto esta orquestra é certamente das melhores do mundo. A política, como a tenho descrito, é isto: a irrupção do impossível, a afirmação daquilo que não se esperava, festejar aquilo que sucede como inédito, sem precedentes. A irrupção do inédito e sem precedentes marca mais a democracia do que o voto.
    Este projecto parecia impossível, mas está aqui. Vivíssimo.
    É ouvir para crer!

  3. Luís Antunes diz:

    E os meus gostos literários : La Fontaine , Descartes , Victor Hugo , Freud, Camões , Pessoa , Montaigne , Molière , Proust, coisas do género . Tenho um fetichismo : gosto de cheiraR cuecas de senhora. BD : TINTIM , BLAKE & MORTIMER…. 25 DE aBRIL , sempre ! Viva o Salgueiro Maia , Viva o Bochechas , e viva o Jaime neves!

  4. Carlos Vidal diz:

    Acho bem, Antunes, acho bem, cuecas de senhora, eu também gosto delas bem coladas aos corpos das senhoras.
    Mas você, ó Antunes, tem que ter mais calma. Porque você fala de tudo ao mesmo tempo e assim não pode ser. Não pode mesmo ser.
    Misturar Descartes, Montaigne e Jaime Neves, assim não pode ser. Tenha calma.

  5. Luís Antunes diz:

    Quando se fala do antigamente , tenho DUAS obras de referência : PORTUGAL AMORDAÇADO e A BALADA DA PRAIA DOS CÃES ( o filme ) .

  6. Luís Antunes diz:

    Médio Oriente : gosto de Israel , não sendo judeu . Tenho admiração pelos judeus . Israel é o único país democrático do Médio Oriente. Os países árabes ,coitados , não dão lições a ninguém. Não tenho nada contra o princípio “dois Estados , dois povos ” . Tenho AS VARIAÇÕES GOLDBERG , Glenn Gould pianota ( 1955 ). Concordo com a iniciativa da Orquestra Bolivariana : levar cultura erudita às massas , isso é bom. Quando se fala de ministro da Cultura , há um nome incontornável : o francês Jack Lang .

  7. Luís Antunes diz:

    E aquele divino cruzamento de pernas de Sharon Stone . As divas do cinema clássico ! Quantas erecções e quantas masturbações elas inspiraram : Marilyn , Gina Lollobrigida , Sofia Loren , Claudia Cardinale , Kim Novack……

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