Poussin, pintura, morte e quietude

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Nicolas Poussin. “Paisagem de Quietude”. 1651

Boa lembrança a dos meus colegas Paulo Jorge Vieira e Luís Rainha, a de se falar de livros em leitura presente (hoje, Dia do Livro), de recomendações ou de um livro específico por uma razão específica ou insondável. Eu optaria por fazer uma recomendação: de imediato eu recomendaria um livro estranho sobretudo se pensarmos ter sido escrito por um historiador de arte: de T. J. Clark, The Sight of Death: An Experiment in Art Writing (Yale, 2006).

Porquê este livro? Porque é belíssimo, primeiro, e, depois, é uma confissão pungente da debilidade sentida pelo historiador diante do seu objecto “sublime”: temos a obra de arte e a insuficiência da escrita não para julgar ou exaltar a “sublimidade” da obra, mas tão-somente para a descrever.

Clark é um historiador marxista, foi companheiro de luta de Guy Debord na Internacional Situacionista e é professor na Univ. Califórnia (Berkeley). A sua obra é vastíssima e um conhecedor da arte francesa do século XIX enquanto arqueologia da modernidade (enfatizando autores como David, no período revolucionário posterior a 1789, Courbet posterior às revoluções europeias de 1848, de onde despontará a estética realista, e Manet como paradigma de uma modernidade pós-Comuna de Paris), um conhecedor ao nível de Clark, dizia eu, só Michael Fried (sobre quem já postei). Este The Sight of Death propõe-se responder: porque é que voltamos vezes sem conta e ao longo de um tempo ilimitado, sempre que possível, às mesmas obras? O que é que delas nos escapa sempre e o que é que nelas pretendemos encontrar? Vejamos como foi gerado este The Sight of Death.

 

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Nicolas Poussin. Paisagem com Homem Morto por uma Serpente. 1648.

 

Tim Clark recebeu uma bolsa de investigação do Getty Research Institute de Los Angeles para a primeira metade de 2000. Nada tinha de concreto em mente, o que me perece importante sublinhar pois permite-nos logo concluir que uma obra de arte pode ser “descoberta” e “lida” por meio da imprevisibilidade dos “encontros” que proporciona.

Um dos projectos de Clark passaria então por estudar a obra de Picasso entre as duas guerras mundiais. Mas, numa visita ao Getty Museum, Tim Clark revê a obra Paisagem de Quietude de Poussin (da colecção Getty) junto a outra tela do mesmo autor: Paisagem com Homem Morto por uma Serpente (da National Gallery, de Londres).

A oportunidade da junção e da relação estabelecida apenas por estas duas obras fez Clark pensar e realizar um livro sobre a forma como a pintura resiste a qualquer descrição e nos foge constantemente, revelando uma espécie de incompatibilidade entre visão e olhar, ou entre visão e pintura. Vejamos o que isto quer dizer. A visão que interessa a Clark é uma visão em mutação no tempo, uma visão pensante mudando em permanência: esta mistura entre tempo e visão gera o que Sartre chamaria, noutro contexto, olhar (porque a visão é qualquer coisa localizado, focado, instantâneo, presente, e o olhar é pensante, paira, arrasta-se na observação).

Clark optou experimentalmente por um registo diarístico para marcar a sua relação de seis meses com estas duas pinturas. Prolongada observação, sempre inédita em cada dia; questiona Clark: «o que impede a memorização» de sinais, configurações, etc, para que à obra tenhamos que voltar vezes sem conta? Quais os limites da nossa memória na relação que estabelecemos com uma pintura? Qual é o nosso limiar? Porque temos de ser limitados? 

Daí experimenta Clark o arrastamento da revelação da obra (e se se revelasse de uma vez ela seria «pasto» para a visão instantânea, para a visão com sentido imediato e isso não é possível), pois o historiador conclui que a obra necessita de constantes regressos, de uma contemplação repetida de dia para dia, de uma presença permanente do observador, omnipresença que conflui com a definição do olhar (muito distinto da visão). Consiste The Sight of Death numa concatenação de registos de primeiras impressões, Clark anota-as todas sem pensar muito ou estruturar (e junta reflexões e poemas), o seu é um registo da reacção imediata que lhe impõe a obra, pois, na obra e na impressão que ela suscita, o olhar informado é quase indistinto do olhar «não culto». Em resumo, Clark produziu um diário de uma observação de seis meses diante de dois quadros.

Seis meses! E que surpresa é este livro.

 

 

 

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