Pensa Sócrates/Pensa Freeport

Na noite da SIC Notícias, Ferraz da Costa, disse que os jornalistas da RTP não deviam ter colocado questões sobre o caso Freeport, mas sim sobre as medidas do governo. Julgo que, neste ponto, o comentador político (ex-patrão dos patrões) toca na questão de fundo, mas ao contrário, tal como lhe compete. O desenrolar do Caso Freeport e as reacções de Sócrates fez com que paire continuamente a nuvem do Freeport sobre a sua cabeça. Já não há um debate parlamentar, uma acção de campanha ou um qualquer discurso político do primeiro ministro em que os ouvintes/leitores, não se livre do Caso. E Sócrates sabe disso.
A forma como cortou a palavra a Judite Sousa, quando esta se propôs abordar o tema, é bem reveladora. Sócrates, a par da campanha negra, procura demonstrar à-vontade e impor o discurso da normalidade dos procedimentos administrativos, da pouca relevância dos estudos de impacto ambiental com parecer negativo ou da amnésia dos actores do processo. Sócrates enuncia que os ambientalistas são pessoas contra o progresso e, sobretudo, pretende fazer crer que todos os partidos/políticos funcionam assim, relacionando estes procedimentos com o Estado, Mercado ou Economia.
Esta táctica do primeiro ministro, não centrando o seu argumento no esclarecimento da situação ou na prova da sua inocência e transparência, mas sim na normalidade de um processo que tem tudo de anormal, poderá não ser muito relevante para a definição da sua culpabilidade, mas revela uma táctica política preocupante.
Sócrates sabe que o Caso Freeport não lhe trará um voto e poder-lhe-á tirar muitos. Neste sentido, a principal preocupação de Sócrates é travar a saída de votos para a esquerda ou para a direita (à excepção do PP, aparentemente único pré-candidato a um acordo pós-eleitoral), afirmando que são estas as regras do sistema e que quem delas não gosta que se abstenha porque os outros fariam a mesma coisa.
Quanto maior for a abstenção, designadamente, de tradicionais votantes no PS desiludidos, mais possibilidades tem de chegar à maioria absoluta.
E aqui está o perigo desta táctica. Trinta e cinco anos após o 25 de Abril, temos titulares de órgãos de soberania que afirmam a normalidade: de pareceres técnicos impossivelmente velozes por decisão política, do pouco respeito por estudos de impacto ambiental assinados por técnicos de reconhecido valor, do facto de titulares de órgãos públicos terem conhecimento de tentativas de corrupção ou pagamentos indevidos sem que os reportem ao ministério público… No fundo, colocando em causa o Estado de direito e a democracia.
“Quem não gosta, não vote” – pensarão os seus estrategas políticos, esquecendo-se que é aos eleitores que Sócrates deve o seu salário há quase vinte anos.

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5 respostas a Pensa Sócrates/Pensa Freeport

  1. «e, sobretudo, pretende fazer crer que todos os partidos/políticos funcionam assim, relacionando estes procedimentos com o Estado, Mercado ou Economia.»

    Aliás, táctica perfeitamente legítima já baptizada de “defesa Isaltino”

    «Neste sentido, a principal preocupação de Sócrates é travar a saída de votos para a esquerda ou para a direita (à excepção do PP, aparentemente único pré-candidato a um acordo pós-eleitoral)»

    O PP tem essa aptência para dormir com a patrão.

    «No fundo, colocando em causa o Estado de direito e a democracia.»

    Não, que disparate! Isso é a criminalização do enriquecimento ilícito.

  2. rosarinho diz:

    Isto de ver cores nas Campanhas é muito complicado… A meu ver, anda tudo daltónico… Juro que a cor da Campanha que ando a ver é: Cor-de-Burro-Quando-Foge…

  3. Henrique diz:

    Pensa Sócrates/Pensa Freeport, é mesmo assim! De facto, até já fiz um blog sobre esta associação.

  4. Teodoro Silva diz:

    O que têm em comum Bill Clinton e José Sócrates? Ambos foram alvo de uma campanha. E a diferença entre eles? O primeiro confessou.

  5. burns diz:

    o clinton confessou e pareceme que a nodoa era bem mais pequena.
    mas isto sou eu a dizer

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