Caros, parem para pensar…

cravos
O Daniel Medina nasceu em Coimbra, em 1992 – ja a revolução era adulta -, mas ele ainda tem 16 anos. Hoje enviou-me este mail sobre o seu olhar em torno da data de amanhã: o 25 de Abril de 1974.
Não sei se acho o seu texto cínico ou inocente, ou ambas as coisas, mas a verdade é que me fez pensar no futuro. No futuro deste país, e no futuro de gente bela e empenhada como ele!

Caros, parem para pensar…

Hoje, em dia, será que temos liberdade de expressão, para exprimir os nossos direitos?
– Eu diria que não porque, “eu quero ‘casar’ e não posso”;
– Eu quero lutar pelos meus direitos, e só por abrir a boca põem-me em cima um processo judicial e deste modo fico com cadastro;
– “Eu quero ouvir críticas sociais sobre o mau governo que temos, e infelizmente os vídeos/reportagens acabam por ser censurados”.

As escolas estão a abordar correctamente o 25 de Abril e a liberdade?
– Eu diria que não, como aluno, custa-me, que um adulto me venha perguntar algo sobre a época (e eu não sei responder, porque alguém tem medo de me explicar isso);
– Eu quero criticar, como aluno, “isto está mal”, e dizem-me ‘cumpre mas, é os teus deveres e cala-te’…
– Os meus deveres como aluno são, não faltar às aulas, para ter de fazer um exame mesmo que elas estejam justificadas?
– Tratar com educação os técnicos operacionais e professores quando eles não transmitem o mesmo? Consultem o estatuto do aluno e reparem bem no que lá está escrito.
– Os meus direitos como aluno são, ter apoio social conforme o meu agregado e o ordenado dos meus pais, que passam maior parte do dia a trabalhar no duro, e não receber o abono?
– Porque, é que existe tanta burocracia (coitadas das escassas árvores), que são usadas para escrever meia dúzia de textos que depois não são cumpridos, e nem sequer servem para nada.

Os conselhos que dou, como cidadão são…
– Usem e abusem dos livros de reclamações; [sim, porque os serviços públicos estão no pior que existe];
– Abram a “boca”, e manifestem os vossos problemas sociais em público;
– Exijam, os vossos direitos; [ter um sistema de saúde acessível a todos, ter um preço acessível à carteira de cada um, e muitos outros…

O que vai ser da próxima geração? Se esta já vai de mal a pior?
– Professores… não tenham medo de falar sobre esta data {que dizem ser importante}…
– Pais… incentivem os vossos filhos a ver mais notícias para os sensibilizarem para os problemas de hoje.

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18 respostas a Caros, parem para pensar…

  1. rosarinho diz:

    Eu acho o texto inocente e genuíno. A inocência de quem tem ideais.
    Parabéns, Daniel Medina!
    E FORÇA para mudar este estado de coisas!

    Curiosamente, ontem, aqui pelas minhas bandas, andaram grupos de estudantes do secundário a questionar os idosos, pedindo-lhes uma definição de Democracia.
    Soube da resposta de um idoso: “O que é a Democracia? É aquilo que não existe em Portugal.”

  2. Sem palavras. Texto muito bom, e mais extraordinário ainda é a idade do rapaz. Pelos vistos a inteligência e o espírito crítico não escolhem idades.

    Saudações

  3. rosarinho diz:

    Só para acrescentar, o texto do Daniel Medina e a resposta do idoso conferem no mesmo sentimento de seres humanos verdadeiros, que buscam o que é genuíno. Não se conformam com mentiras.

  4. João diz:

    Tenho a mesma idade que o Daniel e assino por baixo deste mail….

  5. maria monteiro diz:

    Hino ao Homem
    Homem, se homem queres ser
    e não uma sombra triste,
    olha pra tudo o que existe
    com olhos de bem o ver.

    Não receis saber.
    Ao que não amas, resiste.
    Mesmo vencido, persiste
    e acabarás por vencer.

    Quere e poderás poder.
    Vai por onde decidiste.
    a liberdade consiste
    no que a razão te impuser.
    (Armando Rodrigues)

    Desculpem-me o desabafo mas…
    enquanto andarmos a brincar ao Solidarium: “uma espécie de Solarium para a Solidariedade”, teremos a Democracia que merecemos;
    enquanto andarmos iludidos com o marketing católico para as orientações de voto no psd/cds, teremos a Democracia que merecemos;
    enquanto não formos capazes de Dizer Basta, teremos a Democracia que merecemos.

    Há vários tipos de Estado, o Estado comunista, o Estado Capitalista! E há o Estado a que chegámos!” – Salgueiro Maia

  6. Teresa diz:

    Os professores desse aluno devem ser mesmo maus. Nem o deixam falar. E a culpa é de quem?

  7. CAR diz:

    Bem trazido.
    Por outra parte, essas considerações de merda, se cinico, se inocente, se ambas, só podem sair de quem olha o Povo desde uma cadeira com um buraco no fundo, numa sala de 300 metros.

    Grande texto, esta é a juventude que os jovens necessitam!

    Abril sempre!

  8. Paulo Jorge Vieira diz:

    pois mas o meu pequeno comentário até surgiu da conversa tida com o Daniel! mas o que interessa mesmo é o texto, não o meu comentário…

  9. O problema de os professores não abordarem este tema sem medo, vem um pouco dos próprios colegas, não preciso de chegar muito longe para ir até essas conclusões. Uns ficam “passados da cabeça” porque o outr@ colega preparou as aulas, e tem uma boa avaliação. Depois existe aquele/a que acha-se tão bom que não existe ninguém melhor do que ele/a para o avaliar. Chega-mos assim a algum lado? Pergunto. A segunda conclusão que chego, é mesmo sobre os conteúdos que são dados nas aulas, além de estarem mal feitos, não incentivam os alunos de maneira alguma. Eu por exemplo na minha turma, quando abordamos um tema, seja ele qual for, falamos à vontade. É isso que é necessário. Mais comunicação, mais actividades didácticas.

  10. Patricia diz:

    Ao jovem que escreveu o texto dou os meus parabens pela combatividade.Aos mais velhos que como eu viveram metade da sua vida no tempo da ditadura aconselho que expliquem a este jovem a aos vossos filhos,que não é possível comparar o incomparável.A liberdade de hoje é muito diferente da das mães dos jovens com aquela idade que começavam a viver a tortura de ver chegar o dia dos seus filhos partirem para a guerra.

  11. rosarinho diz:

    Daniel,
    Eu já dei muito uso a muitos livros amarelos (desde o centro de saúde, ao hospital, à Câmara Municipal).
    Eu que odeio ler leis, já me forcei a ler legislações intragáveis para poder fazer valer os meus direitos. Não tenho dinheiro para contratar advogado. Dá muito desgaste, muita dor de cabeça (houve uma alturas em que estive quase a desistir, por ser tanto o desgaste… foram 4 anos de cartas… de deslocações à câmara… eu sei lá… mas GANHEI. Ameaçaram-me, mas ainda estou viva e de boa saúde…). Uma das vezes até escrevi no livro amarelo só para questionar, por que é que ninguém se tinha dignado dar uma resposta à reclamação que deixara naquele mesmo livro.
    Dá muito trabalho, muita dor de cabeça, desgaste e tempo da nossa vida… Às vezes parece que o desgaste é superior aos benefícios… Quem tem dinheiro entrega o assunto a advogados. Quem não tem, percebe como estamos “entregues aos bichos”…

  12. Luis T diz:

    Parar para pensar. Será solução?
    Demasiado parados andamos todos nós há muito tempo. O que precisamos é de Acção!
    Se a acção ficar apenas por palavras, mais vale estar parado.

  13. maria monteiro diz:

    eu sou do tempo em que a acção era feita por muitas palavras…
    DO QUE UM HOMEM É CAPAZ (José Mário Branco)

    Do que um homem é capaz
    As coisas que ele faz
    P’ra chegar aonde quer
    É capaz de dar a vida
    P’ra levar de vencida
    Uma razão de viver
    A vida é como uma estrada
    Que vai sendo traçada
    Sem nunca arrepiar caminho
    E quem pensa estar parado
    Vai no sentido errado
    A caminhar sozinho
    Vejo gente cuja vida
    Vai sendo consumida
    Por miragens de poder
    Agarrados a alguns ossos
    No meio dos destroços
    Do que nunca hão-de fazer
    Vão poluindo o percurso
    Co’ as sobras do discurso
    Que lhes serviu pr’ abrir caminho
    À custa das nossas utopias
    Usurpam regalias
    P’ra consumir sozinho
    Com políticas concretas
    Impõem essas metas
    Que nos entram casa dentro
    Como a Trilateral
    Co’ a treta liberal
    E as virtudes do centro
    No lugar da consciência
    A lei da concorrência
    Pisando tudo p’lo caminho
    P’ra castrar a juventude
    Mascaram de virtude
    O querer vencer sozinho
    Ficam cínicos, brutais
    Descendo cada vez mais
    P’ra subir cada vez menos
    Quanto mais o mal se expande
    Mais acham que ser grande
    É lixar os mais pequenos
    Quem escolhe ser assim
    Quando chegar ao fim
    Vai ver que errou o seu caminho
    Quando a vida é hipotecada
    No fim não sobra nada
    E acaba-se sozinho
    Mesmo sendo os poderosos
    Tão fracos e gulosos
    Que precisam do poder
    Mesmo havendo tanta gente
    P’ra quem é indif’rente
    Passar a vida a morrer
    Há princípios e valores
    Há sonhos e há amores
    Que sempre irão abrir caminho
    E quem viver abraçado
    À vida que há ao lado
    Não vai morrer sozinho
    E quem morrer abraçado
    À vida que há ao lado
    Não vai viver sozinho

  14. rosarinho diz:

    Daniel Medina,
    Há uma subversão que se alastra – espantosamente – nos tempos que correm – esmaga os mais frágeis, sobretudo, os que nem sequer têm estudos.
    Tenho reclamado muito, MAS para ser JUSTA, tenho de acrescentar que a culpa não é só deste governo, mas também de todos os outros que o antecederam e de uma enorme parte do Zé Povo, que corre alegremente atrás disto tudo, enfiando-se “alegremente no abismo”.
    Quantas vezes não reclamei em centros de saúde e hospitais para fazer valer os direitos de outros utentes? Não se me afigura nada de especial, parece-me normal, Indignar-me quando vejo outros seres humanos serem mal-tratados. Só quero dizer que muitas vezes – a CUMPLICIDADE – vem de quem menos se espera, de outros – tão ou mais mal-tratados do que nós – que fazem “sprint”, se fintam e – até fazem umas rasteiras – nesta pressa de correr “alegremente” a ver quem se atira mais depressa e com maior energia para dentro do “ABISMO”…

    É nisto que me sinto e reconheço cada vez mais uma “outsider”!!!
    Nem imagina o quanto prezo, algumas Amizades Preciosas, onde reconheço verdadeiros “outsiders”, tão ou mais do que eu…
    Valem ouro! Como nunca “coleccionei” dinheiro… e ser coleccionadora desse metal não faz parte das minhas ambições… É essa a minha verdadeira Fortuna!

  15. Patricia diz:

    Rosarinho,os politicos pudemos mudar o Zé Povo é que não.Mas nunca deixe de se indignar quando vir os outros seres humanos serem mal-tratados.

  16. rosarinho diz:

    Cara Patrícia,

    Os políticos poderemos mudar, mas eis o meu grande dilema:

    Da direita à esquerda, Da esquerda à direita, não me revejo em qualquer partido… Parece-me ver aqui e além, um ou outro que parecem não se deixar “camaleonizar” de acordo com os ventos…, o grande problema é quando alargo o ângulo de visão, tentando abranger não este ou aquele indivíduo, mas o conjunto do partido e é aí que começo a não gostar do filme de maior ou menor terror… que se me apresenta.

    Relativamente ao Zé Povo não poder mudar, não sei bem se concordo. Talvez seja necessário, sofrer mais injustiças – na pele – para que o povo se aperceba, que se “cada um” não deixar passar em branco as injustiças que acontecem ao “outro”, talvez “cada um” a seu tempo venha a colher frutos, quando chegar a sua vez de ser “injustiçado porque o hábito já está espalhado”… disseminado…

    O grande problema é quando “um indignado/a” se vê numa luta DESIGUAL perante o olhar passivo, compassivo e às vezes até muito entretido dos que estão em redor… Sem se aperceberem que mais ou menos dia o mesmo lhes pode bater à porta, tal é o hábito enraizado…

    Quanto a mim, acho que não tenho emenda, acho que só vou deixar de me Indignar – com certas e determinadas coisas – no dia em que entre em estado comatoso, ou parta para o “Jardim-dos-Pés-Juntos”…

  17. Patricia diz:

    Rosarinho quando me refiro a que o povo não podemos mudar quero dizer que é este que temos,é a este povo que pertencemos,é esta a sociedade em que vivemos.Não queria dizer que o povo que somos não pode mudar a sua opinião sobre os problemas que nos atingem a todos, e a forma como devem ser resolvidos.É que 35 anos em história é muito diferente de 35 anos no tempo das nossas vidas.

  18. mario dinis diz:

    Fala-se tanto da necessidade de deixar um planeta melhor para os nossos filhos, e esquece-se da urgência de deixarmos filhos melhores para o nosso planeta…

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