O atrevido, o horrível Invidus e um almoço que promete na semana que vem

Ninguém mais me convida a almoçar em sua casa vangloriando “portentos em taninos, em álcool, em fruta e em equilíbrios de acidez”; ninguém mais me azorragava os fins-de-semana com mensagens multimédia cantando odes aos vega-sicílias, aos romanée-conti e aos melhores filhos da botrytis cinerea como ele; e, no último, chegou mesmo a queixar-se por sms de uma ruinosa dieta de Ruinart, sábado às onze da noite. Eu, nesse lance, cansado do meu Camilo Alves, a ver o Sporting a perder em Guimarães (e sem ter chegado ainda a hora tardia em que a pátria leonina renasceu), nem lhe respondi. Dizia o atrevido: “hoje em grande, amanhã arrependido”. Invidus, o horrível Invidus, ouviu-o: e raiava o dia, e espalhava ele ainda “energia pela pista”, puxou-lhe por uma perna e fê-lo cair sobre ela, tirar a rótula do sítio e fornicar a perna toda. Quando pediu uma ambulância, o resto da malta riu-se e demorou uns minutos até perceber que ele tinha de facto torcido a perna, tirado a rótula do lugar e fornicado a perna inteira. Nas urgências de S.José, constantemente injectado para não fazer uma trombo-flebite, aguentou seis horas até levar uma anestesia geral para lhe porem a rótula no lugar. Agora está engessado do tornozelo à virilha, vai ser operado daqui a três semanas e tem para três meses de baixa (e comparada com isto, a minha batida de carro há um mês ou dois, que me custou só 400 euros, foi uma benção do Senhor). Mas, sorte minha, o homem não tem cura, e como tem em casa uma Via Láctea que representa um bacalhau superior, desafia Invidus e a porcaria das outras divindades negativas que andam por cá a estragar-nos a vida com uns taninos de se lhes tirar o chapéu. Ninguém agarra este gajo – e eu a favor.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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