O Rap dos empresários

A provar que o vil capital não esquece os excluídos da sociedade, a associação Empresários Pela Inclusão Social (EPIS) dedica-se ao “combate ao insucesso e ao abandono escolar”, promovendo projectos educativos para “ajudar jovens com factores de risco”. À entrada no site da associação, ouve-se um rap que revela mais sobre os objectivos da EPIS, em forma de mensagem para as novas gerações. O que é preciso, dizem os rappers, é “trabalhar e ganhar p’a pagar uma renda”, e para isso, instam: “Toca a estudar com muita motivação / Toca a estudar para termos capacitação / A EPIS tá com a população / Vamos ter o 12º ano na mão”.
 
Mas o rap, mesmo quando ao serviço do capitalismo, não deixa de ser música de intervenção, e por isso os “bros” denunciam: “Já que o Estado não apoia esta associação, cem empresários juntaram-se para tratar da situação” (*). Os justiceiros corrigem depois a ingratidão estatal nomeando um a um os beneméritos empreendedores da EPIS. Com empresas que não primam pela inteligência na escolha da marca, a rima colocava escolhos difíceis de bolinar, mas os rappers descalçam bem a sapatilha Nike: “Iberdrola” rima com “jogo com a bola”, “Central de Cervejas e Bebidas” com “muitas noites perdidas”, “José de Mello” com “empresa de se lhe tirar o chinelo”, e “Agros” com “todos gordos, todos magros”.
 
Há, por certo, alguns excessos de rima consoante, como no verso “a minha avó chamava-se Alda, mas não interessa” (que se acorda mais adiante com os vinhos Vinalda), mas quem nunca associou “Gel Peixe e Galucho” com “é sempre a disparar até gastar o cartucho” que atire a primeira pedra. E há passagens de crua e sentida poesia urbana, no que fica como um roteiro desassombrado pela selva de betão & billboards em que se transformaram as nossas cidades: “Ambicionas ter gás e queres comprar um telefone, vem connosco visitar a Butano e a Vodafone”, “Queres levantar nota, vai ao Millenium BCP, mete gasosa na Galp e já ninguém te vê”, ou o impagável “Não me esqueço da Mota Engil, SGPS S.A., com este vocabulário ainda vou pó Canadá” (atente-se na denúncia contundente do problema da emigração, a revolta face ao desemprego que força milhares a sair de Portugal).
 
Quem disse que as empresas não têm consciência social, hum? (Ok, menino Zezinho, a Naomi Klein, mas isso agora não interessa para nada).
 
 
(*) Leia-se este verso como hipérbole poética inspirada por um arroubo de raiva juvenil: o Estado pode não apoiar esta associação com todos os meios de que a sanha empresarial necessita para explorar o vasto território do insucesso escolar, mas a EPIS tem ainda assim o alto patrocínio do Presidente da República, presidente de Honra do Conselho Consultivo, e o Ministério da Educação como parceiro.

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2 respostas a O Rap dos empresários

  1. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Como são inspiradores os novos caminhos da novo canto de intervenção (remix): “A cantiga é uma arma, contra quem, empresário? Contra o proletariado”.

  2. . diz:

    Esqueceu-se de um pequeno pormenor

    DIRECÇÃO DA EPIS

    Presidente
    João Oliveira Rendeiro (BPP)

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