A lucidez de Alain Badiou, outra vez: representações e “linguagismo”

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A propósito de algumas discussões nossas, internas, sobre como lidar com certos comentários ou comentadores e temas, manifestei discordâncias em face de certos critérios baseados em determinados valores (e, sobretudo, no modo de os aplicar), pretendendo eu uma abertura quase maximalista. Esta citação de Alain Badiou diz muito do que eu gostaria de expressar:

Cria-se a semelhança de uma não-equivalência para que a equivalência, ela mesma, seja um processo. Que devir inesgotável para todos os investimentos de mercado, com o fito de várias reivindicações e de pretensas singularidades culturais, para mulheres, homossexuais, handicapés árabes! E as infinitas combinações de traços predicativos, que fortuna! Os homossexuais negros, os Sérvios handicapés, os católicos pedófilos, os islamitas moderados, os padres casados, os jovens quadros ecologistas, os desempregados obedientes, os jovens envelhecidos! De cada vez surge mais uma autorizada imagem de novos produtos, de magazines especializados, de centros comerciais apropriados, de rádios “livres”, de redes publicitárias dirigidas, e enfim de decisivos “debates de sociedade” em horas de grande audiência. Deleuze dizia-o directamente: a desterritorialização capitalista necessita de uma permanente reterritorialização. O capital exige, para que o seu princípio de movimento torne homogéneo o seu espaço de exercício,  um surgimento permanente de identidades subjectivas e territorializadas, que, no fundo, nada reclamam para além de um direito de exposição idêntico aos outros, segundo uniformes prerrogativas de mercado. É a lógica capitalista do equivalente geral e a lógica cultural e identitária de comunidades e minorias formando um conjunto articulado. (Saint Paul: La Fondation de l’Universalisme, Paris, PUF, p. 11)

Demonstra deste modo Alain Badiou como o linguagismo (é o termo utilizado pelo filósofo)  pós-estruturalista, pretendendo a exposição radical das micro-representações, apenas serve a apetência dos mercados e do grande capital, aqui travestido de “correcto”.

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