A lucidez de Alain Badiou, outra vez: representações e “linguagismo”

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A propósito de algumas discussões nossas, internas, sobre como lidar com certos comentários ou comentadores e temas, manifestei discordâncias em face de certos critérios baseados em determinados valores (e, sobretudo, no modo de os aplicar), pretendendo eu uma abertura quase maximalista. Esta citação de Alain Badiou diz muito do que eu gostaria de expressar:

Cria-se a semelhança de uma não-equivalência para que a equivalência, ela mesma, seja um processo. Que devir inesgotável para todos os investimentos de mercado, com o fito de várias reivindicações e de pretensas singularidades culturais, para mulheres, homossexuais, handicapés árabes! E as infinitas combinações de traços predicativos, que fortuna! Os homossexuais negros, os Sérvios handicapés, os católicos pedófilos, os islamitas moderados, os padres casados, os jovens quadros ecologistas, os desempregados obedientes, os jovens envelhecidos! De cada vez surge mais uma autorizada imagem de novos produtos, de magazines especializados, de centros comerciais apropriados, de rádios “livres”, de redes publicitárias dirigidas, e enfim de decisivos “debates de sociedade” em horas de grande audiência. Deleuze dizia-o directamente: a desterritorialização capitalista necessita de uma permanente reterritorialização. O capital exige, para que o seu princípio de movimento torne homogéneo o seu espaço de exercício,  um surgimento permanente de identidades subjectivas e territorializadas, que, no fundo, nada reclamam para além de um direito de exposição idêntico aos outros, segundo uniformes prerrogativas de mercado. É a lógica capitalista do equivalente geral e a lógica cultural e identitária de comunidades e minorias formando um conjunto articulado. (Saint Paul: La Fondation de l’Universalisme, Paris, PUF, p. 11)

Demonstra deste modo Alain Badiou como o linguagismo (é o termo utilizado pelo filósofo)  pós-estruturalista, pretendendo a exposição radical das micro-representações, apenas serve a apetência dos mercados e do grande capital, aqui travestido de “correcto”.

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14 respostas a A lucidez de Alain Badiou, outra vez: representações e “linguagismo”

  1. LAM diz:

    Algo me diz que a conversa é comigo. Embora continue a achar que não foi por aí que a coisa se deu. Terá mais a ver com pessoas e a sua honestidade do que com linguagens. Alguém fez uma asneira, precipitou-se, acontece a todos. Não houve foi posteriormente a ombridade de reconhecer essa precipitação.
    Abraço ao Badiou 😉

  2. Luis Rainha diz:

    «O capital exige, para que o seu princípio de movimento torne homogéneo o seu espaço de exercício, um surgimento permanente de identidades subjectivas e territorializadas»… se as identidades são subjectivas ( o que já parece um pleonasmo dos grandes), como é que o espaço resultante poderá alguma vez ser homogéneo?
    E aquilo das «pretensas singularidades culturais» é mesmo a sério? «Pretensas»???

  3. Carlos Vidal diz:

    Trata-se do problema da falsa desterritorialização: a multiplicação sofística das identidades (subjectivas, porque reclamadas pelos próprios intervenientes crentes numa teoria das “diferenças”), compõe e recompõe a articulação totalitária do mercado, que se lubrifica com multiculturalidades e exotismos de uma forma paternalista e neocolonialista. No mercado da arte, nos anos 80 deu-se a descoberta da “arte soviética”, nos 90 foi a vez da grande circulação internacional da arte latino-americana, presentemente vemos o boom da arte chinesa (desde veneza, 1999, Bienal comissariada por Harald Szeemann). Isto é, o mercado exangue não se dá nunca por vencido – procura sempre novos produtos. Se exóticos, tanto melhor.

  4. Carlos Vidal diz:

    A micro-representação ou a pulverização dos territórios, quanto maior é mais recompõe de novo o todo-Uno.

  5. Paulo Jorge Vieira diz:

    “a multiplicação sofística das identidades (subjectivas, porque reclamadas pelos próprios intervenientes crentes numa teoria das “diferenças”)”carlos explica-me isto: ha identidades não reclamadas pelos próprios intervenientes? há identidades não baseadas em diferença? ou simplesmente não há identidades?

  6. Luis Rainha diz:

    Isso é um entendimento completamente superficial da multiplicidade do mundo. Quem determina o que é “sofista” ou não? Não existe nenhuma “articulação totalitária do mercado” global e absoluta. E o tal “todo-Uno” onde é que existe ao certo?
    O mercado da Arte anda às voltas com o regionalismo há décadas, aliás como todos os mercados culturais. Implica isso a anuência a uma «lógica capitalista do equivalente geral»? Não vejo como.

  7. Luis Rainha diz:

    Como já por aqui escrevi algures: Kenneth Frampton proclamou que a arquitectura (e, por extensão razoável, toda a arte) só poderia ultrapassar este impasse através de um posicionamento de arrière-garde, recusando a um tempo a grande narrativa do progresso ilimitado e os impulsos irrealistas do pós-modernismo memorialista, com a sua invocação de um passado bucólico e vontade de regresso a um éden pré-industrial que nunca existiu. Assim, este autor foi arauto de um Regionalismo Crítico, com um programa simples mas ambicioso, embora tendencialmente reactivo: «mediate the impact of universal civilization with elements derived indirectly from the peculiarities of a particular place.» E lá irrompeu no mundo trans-moderno o domínio do regional como estratégia de sedimentação de identidades, ainda e sempre integrando de forma combinatória as dimensões individuais e de grupo. Uma reacção à «polarização» que Bauman diagnostica no mundo pós-moderno, entre a elite deslocalizada, que vive apenas no tempo, móvel, nómada e extraterritorial, e as massas desfavorecidas, amarradas à sua cidadania do espaço; criando aquilo a que Appadurai chamou «produção de localidade», urbes virtuais dispostas numa estrutura de vizinhanças e de reconhecimentos que ultrapassa as suas próprias fronteiras, formando ethnoscapes que acolhem e celebram a existência operacional dos projectos étnicos do Outro. Que a arte contemporânea tenha manifestado um aparentemente insaciável desejo centrípeto de estilhaçamento em scapes de vária índole – principiando na explosão de arte regional que se seguiu à exaustão do Minimalismo enquanto derradeiro grande projecto do Modernismo tardio e terminando na trilogia de focos elencada por Edward Lucie-Smith: «race, sexuality and gender difference» – não constitui surpresa de maior.

  8. Carlos Vidal diz:

    O princípio de definição de um movimento não se funda numa reivindicação da “diferença” de uma identidade, mas antes na reivindicação da igualdade das identidades, ou melhor, do tratamento igual a dar a todas as identidades. Trata-se de uma reivindicação do “direito à igualdade” que deve substituir o “direito à diferença”. Este é o princípio teórico inalienável, depois o salto para a realidade/sociedade é mais complexo, difícil e às vezes impossível (quer dizer, há identidades, mas o ser não se pode reduzir a “representante” dessa identidade).
    Pode tentar-se este projecto de emancipação de vários modos: por exemplo, não vejo como é que uma reclamação de uma identidade tenha de se reduzir (ou pertencer) automaticamente a um espaço de “diferenças”.
    A identidade pode ser reivindicada por um movimento. O objectivo desse movimento pode ser, como também diz Edward Said, a partilha do comum entre os movimentos; ou seja, o que têm em comum vários movimentos? Se se começar por esse “comum” pode ir-se além da fatalidade do movimento ser aquilo que apenas representa os “interesses” dos seus representados/associados. Trata-se de inverter a pulverização: não separar os movimentos de direitos civis do problema dos direitos de homossexuais ao casamento civil, não separar estes dos problemas dos índios de Chiapas. Por exemplo, creio que foi o Paulo Jorge que em relação a novas formas de organização económica da sociedade caracterizou algumas dessas teorizações como “blá blá”. Nada mais errado, o que interessa é a ligação (global) sem perder o fito do que se pretende (singularmente). Por isso é que no seu regresso a Marx, Zizek nos fala da centralidade da economia (num contexto de crítica do capitalismo). Sem este raciocínio o risco é o de alimentar o folclorismo exótico que o capitalismo necessita para se recompor. Os movimentos representam apenas interesses parcelizados e tudo fica na mesma, pois com a base económica presente o tecido do capital aspira à sua recomposição ainda que tenha satisfeito uma ou outra reivindicação (como por exemplo o casamento civil de homossexuais). Portanto, o objectivo de um movimento tem de ser duplo: igualdade e discurso virado para toda a sociedade, que tem de ser transformada globalmente.
    Por exemplo, o anticlericalismo ou o discurso anti-Vaticano do Jugular: não faz sentido nenhum, pois eles nada dizem do que pensam de uma transformação global da sociedade, quanto à sua base económica, por exemplo. Percebe-se que, os que sabem definir-se, dirão que são liberais e pela economia de mercado e pela concorrência, livre iniciativa, etc. Depois, reivindicam causas que chamam de “fracturantes”, sem a fundo pensarem a sociedade e a economia, em suma, o capitalismo. Sem um entendimento de uma emancipação global, não servem de nada emancipações parciais. A curto prazo parecem “triunfos”, mas, a longo prazo, tudo se queda igual.

  9. Paulo Jorge Vieira diz:

    respondeste me Carlos? não percebi se o fizeste!

    é velha a tensão no pensamento social entre igualdade e diferença. existem muitas possibilidade de intervenção e reflexão sobre o assunto. algumas mais diferencialistas ou identitárias, outras mais igualitária e universalistas. citaste o caso dos indios dos chiapas como uma identidade mas como compreenderás ha homens e mulheres naquela comunidade, homos e hetero e pessoas com deficiência. acredito até que haverá algumas desigualdades de rendimentos elevadas entre os índios dos chiapas.
    ora isto complica a coisa porque somos não um identidade, somos uma multitude de identidades e vivenciamos os nossos quotidianos nessas multiplas identidades!
    quando à velha dicotomia então entre diferença e igualdade gosto mesmo do que Boaventura de Sousa Santos escreveu num pequeno texto intitulado ‘para além da diferença e da igualdade”.
    este mesmo autor escreveu um frase que a mim, como homem, branco (de origem sefardita), desempregado e gay me serve muitas vezes de guia: “temos o direito a ser iguais sempre que a diferença nos inferioriza; temos o direito a ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza”.

    não recordo o momento em que disse “bla bla” referindo me às novas teorizações económicas mas para que saibas identifico me como marxista, mas como sabes “marxismos” são como as cerejas, há muitos!

  10. Paulo Jorge Vieira diz:

    pois voltei a ler, e não me respondeste às minhas dúvidas…

    a ironia é que o Badiou brinca com algo do que falo: as identidade multiplas – ainda que nao refira o conceito de identidade – brincando com elas… esquecendo claro a sua condição de homem, branco, de classe alta… afinal esquecendo um elemento fundamental no processo de escrita e no debate de ideias: o lugar da enunciação!

  11. miguel dias diz:

    Fala-se de Tommy Hillfiger portanto. O fashion-designer americano que se apropriava das modas espontaneas dos guetos americanos paras as transformar na roupa fasionable da juventude de classe médias alta WASP, e a quem Spike Lee chamava Tommy HiillNIGGER. Certo Vidal?

  12. Paulo Jorge Vieira diz:

    desculpa o texto do Boaventura que referia era “A Construção Multicultural da Igualdade e da Diferença” fou publicado em 1999 nas Oficinas do CES e pode ser lido em:
    http://www.ces.uc.pt/publicacoes/oficina/135/135.pdf

  13. almajecta diz:

    gender, genius and radical essentialist, porreiro linguagismo pá, a feminine essence?

  14. almajecta diz:

    E não esquecer a teoria dos conjuntos, fundamentalmente as relações de pertença, o habitual nó gordio.

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