Uma mão cheia de nada

Quando seria de pensar que o silêncio de Fernanda Câncio era uma (excelente) estratégia de resposta à maré cheia de dislates e exageros que por aí anda, ela trata de o desmentir. Com um profuso e confuso post em que começa por abordar chocarreiramente o conceito de “interesse” ( como se a sua aplicação ao caso vertente não fosse clara) e só após linhas e linhas de conversa fiada chega ao cerne do problema. Depois, desata a invocar exemplos completamente desfocados: a «entrevista que o jornalista luís osório fez ao pai»; o facto de António Costa não se inibir de fazer análise política tendo o irmão que tem; a continuação das entrevistas de Judite de Sousa, apesar do seu matrimónio com um político de segunda linha.
É bom de ver que se oculta aqui o que causa engulhos a muitos críticos: a omissão, por parte de Fernanda Câncio, do vínculo que é público e notório nos casos citados. Mais: para que tais símiles fossem certeiros, eles teriam de dizer respeito a ocasiões em que aqueles escribas “denunciaram” teses conspirativas para ajudar a limpar a imagem de pais, irmãos ou cônjuges, com a sonsice extra de nem mencionar nomes.
Se ela quer um paralelo perfeito, eu ofereço-o: o artigo que Emídio Rangel escreveu há semanas, insultando e maldizendo os membros da ERC, logo depois desta ter chumbado as duas propostas do concurso do 5.º canal. Claro que a coluna vem assinada por um jornalista, não por uma parte interessada no concurso. Neste caso e no outro, bastaria deixar claro ao leitor que aquelas “opiniões” são emitidas por quem não tem qualquer aspiração a observador mais ou menos isento, por escribas pessoalmente envolvidos nos assuntos glosados. Morriam as polémicas no ovo.
Mas nada disto tem grande interesse nem proveito. Por mim, a cronista pode escrever sobre o que lhe aprouver; no limite, a única vítima terá sido a sua própria credibilidade. Só não se entende esta estratégia de voltar agora a agitar o copo de água onde a tempestade já amainara. Mas cada um também é livre de se autopromover como lhe parece melhor.

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17 respostas a Uma mão cheia de nada

  1. Joel Berardo diz:

    Muito bem.

  2. lili diz:

    Agora dou-lhe razão.

  3. Com todo o respeito, Luis Rainha, permito-me discordar da substância do texto, não por se tratar da Fernanda, bem entendido.
    Os exemplos apresentados – Judite, Rangel,etc – não colhem se compaginados com o caso de FC, porque no meu modesto entender o que ela tem feito é, por um lado, defender a Honra quando atacada e até insultada por ser ao mesmo tempo jornalista e companheira do PM e, também, insurgir-se contra a vergonhosa campanha de liquidação pingo-a-pingo de José Sócrates feita por alguns media, exclusivamente sustentados em fontes nunca identificadas, a propósito do Freeport.
    Declaração de interesses: sendo público que a FC é companheira de JS, o interesse fica automaticamente declarado e os leitores dela sabem ao que vão e ajuízam pela sua cabeça, não são tolinhos, ou tiram as suas conclusões, as quais são livres.
    No caso do Rangel, de quem sou amigo, concordo: deveria ter havido, no final da prosa sobre a ERC, pelo menos duas linhas dele sobre o seu, dele, interesse na causa.

  4. Luis Rainha diz:

    Com todo o respeito, tretas. Escrever «Se o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público denuncia a existência de pressões sobre os procuradores do caso Freeport que implicariam nem mais nem menos que a intervenção do Presidente, das duas uma: ou as pressões existem e nesse caso só se percebe que não tenham sido directamente comunicadas, como seria normal,à hierarquia da magistratura – o Procurador Geral – porque o Sindicato considera que este não está em condições de as investigar e dirimir (o que implica a desautorização e insinuação do comprometimento de Pinto Monteiro); ou trata-se de mais do mesmo, ou seja, uma acção tendente a adensar o clima de suspeição e alarme que rodeia o processo» é apenas tentar retirar credibilidade ao processo, não defender honras e quejandos. Quanto a isso das «fontes nunca identificadas», só se nos esquecermos de todas as anomalias que rodearam o licenciamento do Freeport; e estas nada têm de subjectivo.
    Você acha que é público que «a FC é companheira de JS»; eu não vejo nem como nem onde (nem sequer tenho a certeza de que isso é mesmo verdade). Inferir dessa nebulosa condição de primeira-dama-na-clandestinidade uma declaração automática de interesses é disparatado.

  5. João Pestana diz:

    Joao Pestana – Oeiras

    Muito bem. Cada um é para o que nasce e a senhora é um peixe fora de água quando não está a falar sobre casamentos entre pessoas do mesmo género e respectivas adopções …

    Agora, que vestiu aquele casaco preto do poder, tem de aguentá-las. É a vida!

  6. lili diz:

    É verdade, Guilherme, basta ler o comentário que a Fernanda Câncio me deixou no post dela: continua a alimentar a ideia de que não se refere à sua vida particular.

  7. Fala-se demais da Câncio. Nem ela tem interesse, nem interessa tanto assim o barulho à volta dela. Ela opina sobre tudo, não pode esperar que não se lhe caia em cima. Na minha opinião ela faz o jogo pró-sócrates. Fala demais, é intelectualmente medíocre e já estou cansado de a ler e ouvir. Já chega levar com a costela dela de peixeira na TVI e no twitter. A questão do conflito de interesses e os defensores dela e quem a ataca nem deviam dar importância a isso.
    A gaja só fala demasiado porque pode e porque a deixam.
    Falem mas é de coisas importantes.

    Que interessa com quem fode Sócrates?

  8. PS – E concordo, Luis Rainha.

  9. mariana diz:

    a mim parece-me que ela adora este caso-câncio: a chave é como se diz autopromoção e ego desmesurado o resto são tretas

  10. jacuzzi diz:

    my point exactly.

  11. Pedro diz:

    mariana, “autopromoçao”? Com o seu comentário já vai em 145 678 comentários e posts a comentar o caso cancio. Ou ela é um génio absoluto da modalidade da auto-promoção à distancia, ou voces sao todos uns tansos incriveis.

    E o Luis Rainha mantém as dúvidas de que a Cancio seja namorada do Socrates? Eu acho que mesmo ela, se tivesse dúvidas, ja se tinha entretanto convencido em absoluto. Deixe-se dsso, Luis.

  12. Luis: escrevi COM TODO O RESPEITO e reitero.
    A si, ou a quem se me dirija, e vicer-sa, com urbanidade, é e será sempre com todo o respeito, mais a mais comentando num blogue que não me pertence – e que não fosse.
    Caso contrário – quando a urbanidade, caso do seu texto de que discordo, é substituída pelo insulto ou equiparados, simplesmente fico de bico calado.
    Esse não é o meu campeonato, no qual, ainda por cima, andarei seguramente na Liga dos Últimos…( excelente programa da RTPN, diga-se)
    🙂

  13. Laura diz:

    Pois é, Mariana, as coisas simples são as mais difíceis de perceber quando se intelectualiza demais… E lá que os bloggers alinhados defendam a honra que reconhecem na senhora, nós até entendemos. Mas que alguns dos outros se unam à causa, em nome de não sei quantas coisas barrocas e completamente improváveis, dá vontade de rir (baixinho)… Santa inocência!
    Por fim, eu até estou no mesmo comprimento de onda do Luis Rainha.
    É um encontro de carências não afectivas.
    Um deles, auto-promove-se.
    O outro – o tal que nem afirma nem desmente – deixa passar a ideia, …às pinguinhas, como convém… de que tem um romance.
    A coisa não anda longe da engenharia das aparências que se pratica na adolescência…
    É cool, porque cada um recebe em espécie aquilo que precisa.
    (e que muito provavelmente não obteria de outra maneira)

  14. lili diz:

    Laura,
    Posto dessa maneira a coisa torna-se execrável.

  15. Laura diz:

    lili, lamento muito o momento anti – é (sté) tico que lhe causei.
    Depois das rendas de bilros que se teceram, um cotim básico pode parecer muito feio.

    Eu também gosto mais dos trabalhos de pilritos, oh se gosto! Mas é quando são genuínos, e não da loja dos 300.
    Porque estes são de má qualidade, não têm consistência (a mão de autor) e sobretudo porque nunca nunca nos interrogamos sobre a rede de interesses que os torna tão inexplicavelmente baratos.

    Na blogosfera, por acaso, também anda tudo muito barato.

  16. lili diz:

    Mas, Laura, eu não estava a discordar de si, eu, infelizmente, quase que concordo consigo.
    ”(…)cada um recebe em espécie aquilo que precisa.”, não é isto execrável, porque é verdadeiro?

  17. Laura diz:

    lili:
    Claro que é execrável, mas já reparou que é ilibante, segundo as leis da república?

    Imagine que eu sou uma jornalista quase desconhecida, sem grande lastro pessoal, nem bagagem de monta para me impor sozinha, e a coisa está lenta, muito lenta mesmo. Estou farta de ser nome de rodapé ou autora de peças da folha do menu turístico. Vou cultivando o óbvio, porque o não óbvio é muito mais difícil, e assim especializo-me no registo jornalístico maioritário, o “malhador” e convenientemente alinhado (para ser aceite).
    Mas como não me reconheço nos tiques da tribo, toda feita de velhos marxistas de cartilha na mão, adopto à minha conta uma moda “aggiornata” para fazer o mesmo, toda contente por ser precursora (eheh) mas, sobretudo, por iludir assim as incapacidades estruturais e culturais que possuo, imperdoáveis no clube.
    A cada um as suas armas, afinal!
    Logo, …- deixa lá ver o que temos nós como recursos… ? Ah! Já sei, sangue, sangue na guelra! Não importa nada se aos 40 anos a coisa fica serôdia. Ou seja, mais ao nível do discurso incendiário dos jovens borbulhentos e de olhar romântico no Maio de 68. – Afinal quem me lê não é literato, tem cada vez menos sentido de exigência e menos espírito crítico… e a mim o que me interessa é chocar! Só que chocar com substância e com maneiras é coisa realmente difícil (outra vez o difícil!)… Esse estilo exige certos marcadores de ADN que não possuo; exige maturação e eu sou impaciente; exige consistência e não confio na minha… De modo que… há que ser realista! Resta-me a arma da ‘fast culture’, com muito tempero de Amélia Rosa da Figueira da Foz e sobretudo, para encouraçar, carradas de asneiredo ‘hard’ ( que põe tudo ao nível e espanta os sábios).

    – See? That’s my style!
    – Genial, han?
    E a mim ninguém me toca, senão eu parto já esta merda toda!

    Entretanto, eu sou livre e não tenho contas a dar a ninguém. Tomo uns copos à sorte, porque’ turma’ não me falta. De repente, aquele gajo apessoado da minha pandilha alargada, que agora anda todo nos ‘trinques’,
    – mas que em tempos idos também virava mesas em tudo o que era sítio… (ai o que gosto de uma pessoa determinada!) -, subiu a Intendente de não-sei-quê.
    Encontrei-o uma vez, e vi nele aquela luz de néon que aureola o poder. Aquela mente inflamada, corajosa, moderna, de quem afronta quem o acusa de não ter qualidades e arregaça as mangas para dar umas trochadas nos adversários.
    Coitado, ele é como eu e também tem as suas dificuldades, mas a modernidade exige-nos que sejamos práticos.
    Volta e meia, saio com ele.
    Já não é para o ‘bistrot’, claro, mas para grandes eventos. E é divertido, porque saem muitas fotos, os ‘mentideros’ não param e ele, curiosamente, não se chateia nada com isso.
    Quanto a mim,… eu também adoro aparecer! (não, não é costela burguesinha! É modernidade!).
    -No meu jornal, tratam-me cada vez melhor.
    -A televisão aqui do burgo, agora, deu-lhe finalmente para me convidar (já não sou uma assalariada semi-anónima!).
    -E como isto de dizer bem do meu amigo ainda atiça mais os ânimos (imaginem a minha sorte, porque se eu tomasse uns copos com o Santana Lopes em 2005…riscavam-me logo os textos do mapa!).
    cá vou eu carregando na tecla, na tecla, na tecla…. e é jackpot garantido!
    Finalmente, CLARO… há uma gente que me morde forte e feio. Mas ou são gente do passado (como diz o tal Prof. de Coimbra) ou são colegas corroídos pela inveja (só pode!) ou umas tipas ciumentas que adoravam estar no meu lugar…
    Mas eu venho logo à luta, uma gaja que se preze não se pode ficar!
    E há quem diga que devia calar-me! Mas a mim nunca ninguém na vida me ensinou como é que isso se faz, nem porque é que isso pode ser melhor do que ripostar, e muito menos como é que isso pode gerar ‘respeito’… Estão loucos! O respeitinho ganha-se a dizer-lhes uma bojardas na cara!
    E a propósito, agora também me aconselharam a mudar a atitude em estúdio. E a ficar menos Amélia Rosa e mais… “piu-piu”.
    Já ando a treinar…
    É tudo uma grande trabalheira!

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