Saber se Fernanda Câncio cumpre regras deontológicas ou tem condições pessoais para continuar a ser uma voz “livre e independente” no jornalismo português

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Terei de recorrer a Susan Sontag, que muitíssimo admiro (como se depreenderá).

E proponho que se sistematize todo o conjunto das suas muito importantes reflexões em torno do objecto fotográfico em quatro pontos: (i) a fotografia relembra-nos a (omni)presença da morte, e Sontag denominará essa condição com a memorável frase (de On Photography, 1977), “todas as fotografias são memento mori” (Roland Barthes, no seu belíssimo La Chambre Claire, de 1980, tem este começo inesquecível: olhando para uma foto de Jerôme Bonaparte de 1852, diz – “vejo os olhos que viram o Imperador”; a partir daqui Barthes é incandescente, luminoso, até à grande definição da fotografia como “emanação do referente”, pois há um “resto” daqueles olhos que ainda está agora diante de nós, e o outro tópico decisivo é, consequentemente, o de que a fotografia é “isto foi”, pois nunca eu posso negar que o fotografado não “esteve lá” para o ser); (ii) voltemos a Sontag, para além de memento mori a fotografia, objecto “inclassificável” em Barthes é, em Sontag, algo que ignora qualquer hierarquia de temas, algo que se debruça sobre tudo; (iii) a fotografia desplatoniza o mundo, pois baralha a nossa experiência habituada a distinguir entre cópias e originais, sombras e realidades, imagens e coisas; (iv) por último, Sontag, reportando-se à profusão quase ilegível de imagens-espectáculo, defenderá o que chama de “ecologia das imagens”.
A fotografia é memento mori pois tudo nela, por mais banal que seja, passa a ter pathos, afectação. Esta afectação realça-se no fotografado, pois o seu destino é o desaparecimento, uma fotografia é, ao mesmo tempo, pseudopresença e ausência. Vemos uma bela fotografia de um rosto belo, passado tempo sabemos que esse belo já não o é mais, que essa coisa desapareceu irreparavelmente – memento mori. Em segundo lugar (leia-se Conversations with Susan Sontag, University Press Mississipi, 1995) Sontag é muito clara: a fotografia, em princípio, interessa-se por tudo, como disse, logo não hierarquiza temas, hierarquiza poses, esteticiza o banal e o que é rico de implicações, nivela-os, confere a tudo uma determinada afectação estética, logo a fotografia, paradoxalmente, esteticiza o banal, o mundo por inteiro. Em terceiro lugar, a fotografia nega Platão, as imagens fotográficas não são sombras do real, porque têm uma existência por “direito próprio” (como diz Barthes, são emanações e não representações do referente). Por último, o tema mais delicado: a necessidade de uma ecologia das imagens, depois de Sontag reconhecer que elas esteticizam a tragédia e tudo ou todos os problemas que nos cercam. Este é um ponto que a própria negará no seu último livro dedicado à fotografia, Regarding the Pain of Others, onde contesta tal “ecologia”, pois acha que a tragédia não pode ser servida em partes nem filtrada; seja, não se pode racionalizar o terror, que existe, de facto.

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11 respostas a Saber se Fernanda Câncio cumpre regras deontológicas ou tem condições pessoais para continuar a ser uma voz “livre e independente” no jornalismo português

  1. Obviamente diz:

    Obviamente não cumpre e claramente não tem.

  2. Joca diz:

    No meio disso tudo, onde para a f.?

  3. Carlos Vidal diz:

    Onde pára a f. ?
    A f. é a fotógrafa, acho eu. (Evidentemente.)

  4. Carlos Vidal diz:

    Ou então, permitam-me uma outra explicação:

    A f. está a ser vítima de uma campanha negra, de uma cabala.
    Só pode ser isso.
    Nada mais.

  5. rosarinho diz:

    “A f. está a ser vítima de uma campanha negra, de uma cabala”, da qual faz parte integrante?
    Concordo.

  6. miguel dias diz:

    …” a fotografia é “isto foi”, pois nunca eu posso negar que o fotografado não “esteve lá” para o ser”. Mas posso certamente servi-lo em partes, filtrá-lo, torná-lo numa reminiscência esteticizada do que lá esteve quase ao ponto de lá mais não estar.
    Assunto de objectivas, lentes, filtros e eventualmente photoshop. Pormenores técnicos de somenos importância portanto.
    No entanto… “a tragédia não pode ser servida em partes nem filtrada”, por muito intensa que seja a relação entre fotográfo e fotografado. Independentemente desta, na fotografia a tragédia está lá. Até para um cego.

  7. Carlos Vidal diz:

    Muito bem, caríssimo miguel.
    É claro que aquilo que escrevi sobre a Sontag nada tem a ver com a Câncio, pois se queres ter tempo para estudar a Sontag convém não te demorares muito na “vida pessoal” da jornalista Câncio (é isto que, mais ou menos, nos conduz no trabalho, mas, claro, não apenas: pois um fait-divers por vezes também sabe bem, como não? E este é mesmo engraçadíssimo).

    Ora bem, não há relação mas há, até porque tu tocas nas palavras-chave: “cego” e “cegueira”. E a partir daqui tudo se torna evidente, claro. Só um cego não o perceberia.

    (Mas a Câncio está mesmo convencida de que é uma «voz livre e independente» – só não sei é se o DN ou a TVI 24 estão para os ajustes.)

  8. miguel dias diz:

    o que eu quis dizer (usando as tuas palavras via sontag) é que verdadeiramente me estou nas tintas para a relação entre fotografo e fotografado. O que me interessa náo é a fotografia da “tragédia”, mas a tragédia em si, que portanto nada tem a ver com aquela relação. O que não compreendo é que o fotografo acha que o meu (nosso) juízo é moldado pelo meu conhecimento da sua relação com o fotografado, porque a partir daqui o discurso diverge para o fotografo e abandona a fotografia. É o tu achas o que achas porque sabes que eu sou tal e tal com o fotografado, tipico das discussões de futebol: tu achas que não foi penalti porque és do benfica (ainda que nestas a argumentação é benvinda porque é para isso que o futebol serve).
    Por outro lado, a pretensão de liberdade e independência, contém nela própria o estigma da dependência, primeiro porque não há ninguém livre e independente nem que seja de si próprio (tu não o és eu não o sou- todos temos a nossa agenda seja ela qual for). Depois porque a necessidade de as invocar permanentemente revela precisamente o contrário, uma fragilidade muito grande, uma interrogação que germina permanentemente na consciència: eu preciso dizer que sou livre, precisamente porque náo estou convencido de o ser (não sei era sartre que dizia que nós não somos mais do que parecemos).
    Por último outorga ao proprio uma autoridade que elimina à partida qualquer contraditório: eu tenho razão porque sou livre e independente e tu só achas o que achas porque que pensas que eu não o sou. Deste modo o fait-divers que rodeia a tragédia, adquire maior importància que a própria tragédia.
    Alías, tu tens perfeita consciència do que acabo de dizer: não por acaso o primeiro comentário ao post da f. sobre a notícia da namorada no expresso era teu, precisamente para lhe dares 100% de razão, ou seja, para recolocares o trágico assunto na sua verdadeira dimensão.

  9. Helder Fernando diz:

    Estão a falar de que senhora Fernanda?

  10. Carlos Vidal diz:

    Caro Helder Fernando,
    Boa pergunta a sua. Propus-me falar da senhora Fernanda Câncio, namorada de José Sócrates, jornalista livre e independente, jornalista de “causas” do “Diário de Notícias”.
    Antes da redacção do texto (ou post) que pretendia elaborar, mudei de assunto para Susan Sontag, este sim um verdadeiro assunto, e não avisei o leitor. Fiquei-me depois pela Sontag e não mudei o título do post. Tinha de mudá-lo??

  11. Helder Fernando diz:

    Não tinha de mudar, Caro Carlos Vidal!
    A proposta de reflectirmos, por sua iniciativa, sobre Susan Sontag, indubitavelmente é muito mais útil e construtivo. E fico muito grato pela sua resposta (à minha leve ironia).

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