Segurança Selectiva

Este meu amigo tem vinte e poucos anos, é cidadão sueco, de origem iraniana, vive entre nós. Para ele até agora, Lisboa era um local pacífico. A orientação sexual do meu amigo não vem à baila, mas o facto de há uma semana atrás, noite de quinta-feira, ele ir para casa vindo de uma festa, e ir de olhos pintados, isso sim. Pior, levava umas flores na mochila. Para qualquer instinto mais… automático, “um paquistanês ‘quéfrô’ e além disso paneleiro”?

Foi esse o provável instinto do grupo de polícias que encontrou praticamente à porta de sua casa. Eram 4h de quinta para sexta, está a chegar a casa, desce a Rua das Escolas Gerais vindo da Graça, e passa por cerca de 10 agentes com coletes à prova de bala e ‘shotguns’, coisa grossa portanto… paravam um automóvel que aparentemente haviam perseguido e interpelavam os ocupantes.

A cena estava já montada, e o meu amigo passava. Foi interpelado por uns dos agentes, a querer averiguar dos seus pertences. Um agente manda-os para o chão, outro começa a gritar com ele.

O meu amigo não entendeu o que lhe diziam, fala muito pouco português, mas perguntou ao agente porque o tratava daquela forma, para ser atingido com um soco no rosto.

Desorientado e magoado, apela à calma. Um agente puxa-lhe pela mochila, e descobre… flores. Então cai o Carmo e a trindade de galhofa, não sabemos o que diziam mas imaginamos, florzinhas e olhos pintados, olha o paquistanês!

O gozo homofóbico e racista depois da agressão. Mandam-no embora – desaparece daqui-, e quando começa a andar um outro agente tenta derrubá-lo passando-lhe uma rasteira, perante o riso do conjunto do bando. Pergunto-me se a violência policial conta para as estatísticas do crime violento…

Lábio rebentado, dirigiu-se a casa, ligou ao 112, disseram que mandavam uma viatura, mas não apareceu. Na manhã seguinte, foi à esquadra de polícia, no Rossio, a dos turistas, onde registou uma queixa. Sem tradutor, para quê um tradutor, não fala português? E não sem ser de novo gozado – alguma fizeste… – quando diz que os agressores eram polícias. Ou eram bandidos?

Acho que sim. Temos um sério problema de segurança em Portugal.

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4 respostas a Segurança Selectiva

  1. Carlos Vidal diz:

    Antes de mais, as boas vindas, e com um post extremamente pertinente. Uma útil inversão do linguajar corrente. Porque nunca se fala da violência policial quando se fala em violência.

  2. E não é que seja rara em Portugal. O que me incomoda sobretudo é que seja banal, os acontecimentos que descrevo não surpreendem. Nada de novo, acontece a outros.

  3. Camelo no buraco da agulha? diz:

    Na Inglaterra também?
    Parece que lá é tudo muito superior…

  4. Segurança diz:

    São momentos destes que acabam por borrar a pintura, embora como em todas actividades alguns elementos não representam o todo, mas é sem dúvida triste verificar que o facto de não sermos todos iguais nem termos todos a mesma maneira de pensar pode levar alguns a manifestarem a sua pouca capacidade de abertura à vida através da violência sobre terceiros.

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