O problema da inversão do coisa da prova (II)

Ora bem. A discussão sobre este post tem estado muito interessante (e não estou a ironizar, tem estado mesmo, acho eu). Mas o post de Luís Rainha e um comentário ao meu primeiro texto da autoria de alguém que se assina Ricardo Santos Pinto provam a dificuldade desta discussão (que é a dificuldade de várias outras discussões).

Luis Rainha indignou-se contra o facto de “andar por aí tanta gente de olhos esbugalhados só de pensar na implementação de semelhante infâmia, agora para caçar corruptos e não apenas traficantes“. Luís Rainha sabe bem o que está no subtexto deste argumento: ser contra a inversão do ónus da prova no enriquecimento ilicito é fazer o jogo dos corruptos. Um argumento que está ao nível de outros do género, como por exemplo “ser contra a invasão do Iraque é ser amigo dos terroristas”.

Além do mais, contradiz-se. Pareceu-me que é contra alguém ter que provar que não é traficante (mas apenas consumidor) ao ser apanhado com “quantidades volumosas de droga“. Bem, se acha mal o princípio nesta situação, presumo que achará quando se aplica a “caçar corruptos“. Ou se o mal já está feito então que siga a Marinha?  Ou tem dias? Uma asneira não justifica outra asneira.

Depois há o comentário  de Ricardo Santos Pinto. Canalhita, claro (qualificativo com que, nem por sombras, distingo o post de Luís Rainha).  O meu texto foi  uma defesa envergonhada de José Sócrates. O qual só pode ser contra a inversão do ónus da prova  porque “caso contrário teria muito a explicar quanto aos sinais exteriores de riqueza que apresenta“.

O comentador entra depois no campo das insinuações afirmando, com a ausência de frontalidade que caracteriza a técnica da insinuação, que eu estou por conta da Fernanda Câncio (com quem tempos coabitei no Glória Fácil): “Vindo de quem vem, este post não me surpreende. Diz-me com quem andaste e dir-te-ei quem és. Só não percebo por quê tanto trabalho a publicar um «post» prévio [este] para, logo a seguir, atacar com este. Diz-me com quem andaste e dir-te-ei quem és.”

É claro que, quanto ao essencial da discussão (inversão do ónus da prova, sim ou não) nem uma palavrinha (que é outra componente da canalhice insinuante). Nada que me surpreenda, verdadeiramente. Aliás, digo mais: o que me surpreende é que, até agora, nos meus posts, não tenha havido mais disto. Haverá, certamente. Ricardos santos pintos é o que para aí não falta.

Sobre João Pedro Henriques

Jornalista
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