HELENA ALMEIDA, a obra fotográfica e os seus desenhos: um círculo fechado e perfeito

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Ouve-me. 1979

 

 

 

 

A exposição que Helena Almeida inaugurará no próximo dia 17 no MEIAC (Museo Extremeño de Arte Contemporâneo) de Badajoz, intitulada “Caderno de Campo”, será, por certo, sensivelmente igual à homónima já apresentada na Galeria Filomena Soares de Lisboa, em 2006, que deu origem a um belíssimo e imprescindível livro, onde a artista colige a sua produção desenhística de apoio (e de reflexão, como mostrarei) à sua obra fotográfica, que eu tenho como dos percursos mais consistentes da arte portuguesa das últimas décadas. Trata-se de uma obra que me é familiar e eu próprio prefaciei o catálogo da sua primeira retrospectiva fora de Portugal: no mesmo MEIAC e no CGAC (Centro Galego de Arte Contemporânea) de Santiago de Compostela, em 2000 (com o texto, “Helena Almeida: Pecado, Expiação, Redenção – uma mulher em tempos sombrios”).

De então para cá, a obra desenvolveu-se numa intensa radicalização de pressupostos (na postura do corpo fotografado, por exemplo, cada vez mais aproximado de uma posição intra-uterina e informe até se dissolver numa mancha negra perturbadora e quase desvitalizada, petrificada), e, além disso, revelou Helena Almeida a sua produção desenhística desde a década de 70, acompanhada de vídeos recentes, que são mais do que trabalhos de making of das suas fotos, enfatizando uma teatralidade corporal autónoma, que revela o carácter sisifiano omnipresente na autora: há sempre um corpo que labora, labora, labora, carrega mesas, cadeiras, poeiras, manchas, pinturas, cores para nada.

 

(Continua, detalhada e adequadamente ilustrado)

 

 

 

Este meu post pode ser encarado como um post-sriptum ao meu longo ensaio inserto no catálogo espanhol do CGAC e MEIAC, mas um post-scriptum em que terei em consideração os desenhos da autora para clarificar o lugar do corpo (auto-retratístico?) na sua fotografia. O conjunto da produção extensíssima de Helena Almeida permite agora que convoquemos quatro planos de leitura: a sua obra define-nos o conceito de (i) imagem; (ii) pintura; (iii) fotografia e (iv) escultura, num círculo perfeito e fechado (não no sentido de não lhe podermos acrescentar nada mais, mais nenhuma obra, mas num sentido em que a autora revela no seu trabalho todas as dimensões e componentes que uma obra de “arte visual” pode comportar).

Foi aliás esta circularidade e completude que me obrigou a pensar no meu citado ensaio em Sokurov e em Godard. Por esta razão. Há em Helena Almeida uma evidente “arqueologia” da pintura. Assim: em grande número de fotos e séries de fotos (nos anos 70: obras ou séries como a “Tela Habitada” (1976), “Desenho Habitado” (1975) e “Pintura Habitada” (1976)) a autora tende a aproximar-se mais dos elementos estruturais da linguagem plástica (ponto, linha, plano, gesto, cor, espaço, etc) do que daquilo que eles podem proporcionar enquanto “pintura acabada”.

 

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Desenho habitado. 1975-77 

 

 

 

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Desenho habitado.

 

 

 

 

 

 

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Tela habitada. 1976

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Pintura habitada. 1977

 

Quer dizer, a autora vai trabalhar com os elementos da linguagem autonomamente (pega em gestos e manchas ou linhas com que brinca na sua mão como se elas existissem no espaço fora do suporte/pintura/bidimensional – papel ou tela – engole cores, trespassa telas teatralmente) mais do que com qualquer outro tema. O tema da sua fotografia, muitas das vezes, ou é a própria fotografia ou é a pintura ou é o corpo do pintor/artista enquanto fazedor incansável, imparável.

Se, em “Desenho Habitado” eu vejo uma linha sair da folha de papel e ser segurada pela autora de múltiplas formas, se em “Para um enriquecimento anterior” eu vejo-a pintar no espaço e depois guardar e comer pedaços de cor azul, eu direi que Helena Almeida confere uma “imagem” à linha, à mancha e à cor.

 

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Para um reconhecimento interior. 1977

 

O que é inédito, porque a linha não costuma ter imagem, a linha “gera” ou é suporte da criação de imagens (desenhísticas, pictóricas). Mas aqui é ela própria “a imagem”: a linha e a cor (azul) aparecem somente enquanto linha e cor, tornados objectos (no espaço). O mesmo acontece à mancha, ao gesto que produz a mancha (e quando numa fotografia a autora “pega” nele também no espaço podemos dizer que ela o coisifica, “congela”), à cor e ao corpo. Trata-se de, mais do que uma arqueologia da pintura, proceder teatralmente a uma passagem para “dentro da pintura”, um trespassar o quadro para o outro lado como Alice, o que a autora figura e teatraliza em “Tela Habitada”, por exemplo.

Consiste esta obra num conjunto de 16 pequenas fotografias narrativas (parecem contar uma história com princípio, meio e fim – aparência apenas) e justapostas para gerar uma só fotografia e em um só rectângulo sequencial que tudo parece querer mostrar; no princípio, a autora olha, posta-se hirta e hierática perto da “entrada” de uma tela, e, depois, apenas nela penetra desviando o olhar de qualquer ponto, fitando nada, olhar vago mas determinado. Primeiro toca a tela com a mão direita; escrupulosa, ou mecanicamente ? Não o sabemos – mas vemos que ela sabe no que toca e como tocar. O corpo da performer (a autora, embora não se trate nunca de um auto-retrato)é parte integrante e é também ele uma imagem descarnada, máquina sem vida. Porque tudo é exposto. Seguidamente, mão e boca rompem a tela, trespassam-na cabeça e olhar, por fim, mirando inocentemente o «lado de cá» sem ao certo sabermos o quê nem para quê – mas sabemos que a autora atravessou a tela.

Certamente que se trata de mostrar esse perturbante vazio corpóreo da (não)essência da imagem, ver aquilo com que se faz uma pintura, mas vê-lo do lado de dentro ou do lado de lá. Enquanto forma instantânea, ela a nada corresponde a não ser a si mesma. Do mesmo modo que as palavras nunca encaixarão nas representações daquilo que se vai vendo. A composição é contrastante, dramática e artificiosa, mas o corpo é rigído e hirto. Insensivelmente, a autora embate contra a pintura.

O artifício desta mise en scène nos diz que não existem nem visões puras, nem puros criadores, mas antes que o lugar do pintor está aquém e além da tela. É um lugar híbrido e misturado. O que se vê é também informado por aquilo que não se vê. E Helena Almeida tenta mostrar tudo com certeza: a tela, o lugar do pintor à frente e atrás da pintura, a tela rasgada, o que quer dizer que a sua mágica superfície branca e imaculada foi intervencionada, profanada, e a sua barreira rompida. E o que é que daí nasceu? Uma pintura, uma imagem, uma fotografia? Um pouco de tudo isso, mas um saber de raiz.

Helena atravessou a pintura para ver aquilo que é a sua raiz, e a raiz da pintura é a pintura antes da pintura: o vazio, o branco inominável. Só depois vêm as cores, os sinais, o teatro dos gestos, as manchas azuis e vermelhas (as cores que predominam nas suas fotos). Há aqui, diria Sokurov, uma sabedoria perigosa, porque metaforicamente se foi ao núcleo do mundo das imagens. Se falei em Sokurov foi porque me lembrei de uma sua frase: a maior punição divina que nos coube foi a dádiva da sabedoria (cito de memória). E ao passar para o outro lado da pintura, Helena fabricou ao mesmo tempo uma imagem e descobriu a raiz de todas as imagens: alcançou a sabedoria da imagem, a fonte, a matriz. É aqui, só pode ser aqui que nasce a representação. Resumindo, a obra de Helena Almeida é, para com a pintura, um exercício arqueológico. Nesse território, a interacção do sujeito fotografado com a posterior intervenção pictórica (manchas azuis e vermelhas, colagem de espelhos no corpo) culmina sempre na “vitória” da pintura, porque é ela que conduz a nossa leitura. O tema destas obras inicias é a pintura e o fazer da pintura. Trata-se sempre, para simplificarmos, de fazer existir uma pintura onde a tela como suporte é substituída pela fotografia e esta se faz suporte de uma caligrafia especial, única, para entendermos o que é uma pintura. Helena relaciona-se, como disse, com cores, manchas, gestos, linhas, traços no espaço: arruma-os e engole-os.

Helena diz-nos que passou a dominar a representação e os seus meios (os elementos estruturais da linguagem plástica). E surge-me agora uma frase libertadora de Godard: a representação reconforta-nos perante a sujeição que é a vida (cito de memória). Ora, o movimento é duplo – por um lado, saber tudo sobre a imagem, a “sabedoria” de que fala Sokurov, é uma espécie de castigo angustiante (porque vemos a pintura e o outro lado da pintura, o que nos pode inibir para sempre); por outro lado, sabemos também que este conhecimento pode ser libertador: através das imagens podemos escapar ou simular que escapamos ao mundo castrador.

Em Helena Almeida esta narrativa da génese da imagem e da descoberta dos elementos com que ela é feita, é o ponto de encontro entre a pintura e a fotografia, mas também do vídeo. Então o ciclo de dependências é extremamente interessante: a fotografia documenta a pintura (a foto pode registar manchas de cor suspensas no espaço), o vídeo documenta a fotografia e, descobrimos agora, na base de tudo está………o desenho.

 

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 E aqui chegamos a um tema clássico por natureza, Helena pode ser a partir daqui uma artista respeitadora do classicismo. Porquê? Defini uma vez o artista clássico (sobretudo o escultor) como aquele que se relaciona com os seus materiais, e aí forma não pode ser predeterminada porque os materiais têm também “vontade” (obviamente o barro, o gesso, o metal, as tintas, a pedra resistem-nos).

Se a forma nasce do relacionamento com o material, a reflexão nasce de um relacionamento com o desenho. O desenho é aqui uma forma de pensamento, mas é mais do que isso, é algo que comanda o corpo e as posições do corpo da artista que lhe obedece (na medida do possível).

 

Estas obras iniciais indiciam o futuro encontro –  tema fulcral da obra de Helena Almeida nos últimos anos – da fotografia com o corpo. O que me parece inevitável, pois o pintor trabalha com o corpo, com os movimentos da mão e do corpo. Mas isso não é o suficiente para descrevermos a arte de Helena Almeida como arte de performance.

Precisamente porque o corpo não é de todo livre de (se) improvisar – temos que os desenhos muitas vezes o guiam e aos desenhos o corpo deve obedecer. Concluo que, se o corpo de Helena não é performativo, ele é escultórico. Por isso, eu disse que esta obra, no campo das artes visuais, constrói um círculo fechado e perfeito: imagem, pintura, fotografia e escultura.

Terminado este ciclo, parece que resta ao corpo recolher-se, e chegamos à série “Dentro de mim” (2000). Aí dir-se-ia que um corpo confundido entre a sua realidade física e a abstracção fortuita da sua imagem, nessa situação inédita, opta por interiorizar-se, esvaziar-se esvaziando o espaço da representação (uma sala vazia) — a autora carrega com cadeiras e descobre-se por entre mesas, simplifica-se em gestos de espera angustiados, confunde-se com o mobiliário e o próprio chão.

“Dentro de Mim” é a imagem de uma figura não pacificada, sabe que nada há “dentro de si” que alguma das características da imagem já não tenha penetrado e contaminado. Ou melhor, que é um absurdo o “dentro de si” poder existir no “exterior” puro da pintura e da representação. Da imagem partiu, em fuga ou jacente, para a ela regressar. A imagem é tudo e é mais forte do que o corpo.

 

 

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Dentro de mim. 2000

 

 

 

 

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Eu estou aqui. 2005

 

 

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8 respostas a HELENA ALMEIDA, a obra fotográfica e os seus desenhos: um círculo fechado e perfeito

  1. candida diz:

    e quem escreve assim não é gago de mão.
    Ou é? não me digas k tás a cantar?

  2. Carlos Vidal diz:

    Canto e falo ao mesmo tempo, espero.
    Esta música “Helena Almeida” é-me familiar desde há um tempo, e espero que tenha familiarizado muitos mais com este post, mas não sei, a blogosfera não é muito rica nem destas nem para estas coisas.

  3. Rita Rodrigues diz:

    Tenho o prazer de ter três estudos da série “A casa” (aqui no texto reproduzido), gentilmente oferecidos pela Helena Almeida há mais de 20 anos, quando tive a “ousadia” de escrever um texto sobre a sua obra num simples trabalho de licenciatura… Nesses anos ainda pouco se tinha escrito sobre o seu processo criativo e a sua obra, raras excepções como as de Rui Mário Gonçalves, a Colóquio Artes … A artista, simpaticamete, cedeu-me textos publicados em jornais e revistas estrangeiras … Hoje podemos adquirir uma bibliografia considerável sobre a sua obra e que é uma forma de divulgar uma grande e ímpar atista plástica portuguesa

    • Carlos Vidal diz:

      Grande e ímpar, certamente.
      Espero que o doutoramento em baixo referido (Anabela Pereira) esteja em bom ritmo.
      Terminado?

  4. Anabela Pereira diz:

    Encontro-me a realizar um trabalho de Doutoramento sobre a representação do corpo. Gostaria de entrevistar a Helena Almeida. Poderão indicar-me uma forma de contactar a artista. É muito importante que o consiga! Mas até agora não foi possível……
    Obrigada,
    Anabela Pereira

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