A importância de não se chamar um nome funesto

A minha amiga M. recebeu do pai uma dupla herança: um apelido que, aliado ao nome de baptismo, tem um cachet literário funesto, e dificuldades congénitas de acordar a horas. Temendo o destino da personagem homónima (responsável por uma tragédia queirosiana que acaba em incesto e outras ignomínias), e como “un beau nom de famille peut en cacher un autre”, livrou-se do patronímico malfadado, baralhou os nomes próprios, e evita, como medida profiláctica, relacionamentos com homens baptizados com certo prenome. Tão bem conseguida foi a reinvenção que só uns poucos íntimos a conhecem pelo nome rejeitado.
 
Os atrasos matinais, esses, persistem, apesar de ela os combater diariamente com igual determinação de heroína grega a tentar escapar ao destino traçado pelos deuses (façanha que não está, sabemo-lo desde Ésquilo, ao alcance dos mortais). Diz-se “geneticamente incapaz de chegar a horas”, explicação que não integra por enquanto o catálogo das justificações do Código do Trabalho e que, por isso ou simples mesquinhez, não costuma convencer a entidade patronal. Hoje, entrando mais uma vez cronicamente depois da hora, teve a desdita de se cruzar com o patrão, a quem expôs a má fortuna que lhe tocou na rifa genética.
“Disse-lhe que o facto de eu me atrasar me ultrapassava completamente e era uma doença”, contou-me no chat do Gmail.
“Uma doença?”, indaguei eu, que partilho com esta minha amiga esse desajuste com a vida adulta, além de iguais dificuldades para convencer o chefe da inevitabilidade dos meus atrasos.
“Sim, está classificada e tudo: chama-se ‘delayed sleep phase syndrome’, e basicamente consiste na incapacidade de te deitares e acordares a horas socialmente aceites, mas sem teres nenhum problema em dormir em concreto”.
Pareceu-me demasiado maravilhoso para ser verdade, e decidi googlar a coisa – que não só existe como está bem documentada: 
Delayed sleep-phase syndrome (DSPS) (…) is a circadian rhythm sleep disorder, a chronic disorder of the timing of sleep, peak period of alertness, core body temperature, hormonal and other daily rhythms relative to societal norms. People with DSPS tend to fall asleep some hours after midnight and have difficulty waking up in the morning. (…) Therefore, they find it very difficult to wake up in time for a typical school or work day. If, however, they are allowed to follow their own schedule, e.g. sleeping from 4 a.m. to noon, they sleep soundly, awaken spontaneously, and do not feel sleepy again until their next “night”.
 
Esta magnífica síndrome, para mais reputada de incurável, afecta entre 0,13 a 0,17% da população, incluindo a minha amiga – que, left to her own devices, acordaria fresca, revigorada e pronta para a jornada de trabalho todos os dias por volta do meio-dia. Perante a intransigência da entidade patronal, só lhe resta certificar a doença com a credibilidade científica de um atestado médico. Se o conseguir, terá escapado de uma fatalidade para se meter noutra: apesar de esta fantástica DSPS quadrar bem com os meus próprios ritmos circadianos, o que desde logo a torna simpática, tem um não-sei-quê, a minha amiga que me perdoe, de desculpas de mau pagador. M. poderá, tal como o Dâmaso Salcede d’”Os Maias”, servir-se da herança genética para alcançar a tão desejada inimputabilidade, mas apesar das trocas patronímicas, não se livra de continuar a viver numa tragicomédia do visionário Eça.

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8 respostas a A importância de não se chamar um nome funesto

  1. LAM diz:

    Morgada, obrigado. não imagina como a minha consciência ficou mais leve.

  2. Camelo no buraco da agulha? diz:

    Se incluirmos as pessoas que recorrem ao despertador (ao papá, á mamã, ao marido, à esposa, à avó, … ) os nºs aumentam.

    Será que um mísero despertador não vale mais (e custará bem menos) que um atestado médico?

    Ou a doença é mesmo outra? Será que podia ser compensada saindo do trabalho com o dobro, o triplo, … do atraso?

  3. bloom diz:

    “O que a tua amiga quer sei eu…” diria o gajo de Alfama.

  4. mariana diz:

    sinceramente, não me parece assim tão descabido. desde bebé que tenho um ritmo de sono anormal: com um ano de idade (contam-me os meus pais, claro) que mesmo que me deitassem as 8 ou 9, nunca adormecia antes da 1. durante toda a minha infância tive dificuldades em deitar-me cedo (nunca antes da meia noite), e mesmo que andasse a cair de sono no dia seguinte, ~muito dificilmente adormeceria antes dessa hora.
    claro que isso não é desculpa para faltar a compromissos, tanto que sempre tive aulas de manhã e nunca faltei (nem às teóricas inúteis na faculdade). mas naturalmente deito-me (ou adormeço) tarde e levanto-me tarde também. às vezes pode não ser desculpa, pode mesmo ser de nós. é bom saber que possa haver motivo para a minha incapacidade de me deitar a horas decentes.

  5. António Figueira diz:

    Li há poucos dias escrito “Monforte do Alentejo” – a terra de António Sardinha, para os saudosistas. Haverá algum outra Monforte, por hipótese nas Beiras? Agradece-se o esclarecimento.

  6. Morgada de V. diz:

    Bom proveito, LAM.

    Camelo, não desperte para não ser despertado.

    Bloom, chique a valer, o seu comentário!

    Mariana, além da minha amiga M. e de mim própria, conheço uma porrada de gente com DSPS – incluindo um ex-chefe que sofria do mesmo, o que assegurava a nossa compatibilidade. Mas reconheça que e divertidíssimo, para mais quando existe doença inversa: a “advanced sleep phase syndrome”, que afecta os desgraçados que se deitam com as galinhas e acordam a meio da noite (http://en.wikipedia.org/wiki/Advanced_sleep_phase_syndrome). E esses, coitados?

    António, experimente aqui:
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Monforte_da_Beira

  7. Camelo no buraco da agulha? diz:

    Morgada,

    Tenho pena de não ter pena.

    Despertar é bom. Gosto que me despertem.

    Convém até prevenir: http://www.65anosdecinema.pro.br/Tempo_de_despertar.htm

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