O que querem que compremos?

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Andreas Gursky. “99Cent”. 1999

“Não falta quem pense que a cimeira do G20 pode marcar o princípio do fim da grande recessão económica global que assola o mundo (…). É muito provável que a convergência nos princípios e as medidas adoptadas contribuam fortemente para restaurar o clima de confiança nos mercados financeiros e no comércio internacional que a crise aniquilou. (…) É talvez esse o grande avanço alcançado em Londres.”
(Vital Moreira, “Público”, ed. impressa, 7/4)

“A América que Obama trouxe a Londres, Estrasburgo, Praga ou Istambul já é a nova América que ele prometeu.”
(Teresa de Sousa, “Público”, ed. impressa, 8/4)

Concretamente, o que é que estes “liberais” e “neoliberais” ditos de “esquerda” ou “centro-esquerda” nos querem vender já, aqui e agora??

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14 respostas a O que querem que compremos?

  1. JMG diz:

    Teresa de Sousa e Vital Moreira taxados de “liberais” e “neoliberais”? Eu sei que isto é um blogue de comunistas, mas, já agora, na terminologia da casa, como se designa uma pessoa como eu, que acha que mais do que 1/3 do PIB alocado a despesa pública é exagero? Serei, sem saber, fascista? Por favor, acabem com a minha tortura, aliviando-me desta dúvida existencial.

  2. Algarviu diz:

    Porquê 1/3 ? É algum número cabalístico? Porque não 1/e ou pi elevado a menos um?

  3. Carlos Vidal diz:

    Caro JMG, suponho que a percentagem do PIB que Portugal aloca à despesa pública é de 47 ou 48%. Se o meu caro advoga algo como 30 a 35% creio que o poderei denominar liberal. Como não me recordo que percentagem do PIB era recomendada por Milton Friedman e o pessoal de Chicago não posso dizer com exactidão se o meu caro é liberal ou neoliberal, mas o que me interessa é que a fronteira entre uma coisa e outra é ténue, porque é o próprio capitalismo e o mercado livre tal como ele existe (com poucas reniniscências keynesianas) que transforma a passagem de liberal para neoliberal coisa ténue. Vital ou Teresa de Sousa são muito mais liberais que Keynes (se fosse possível contabilizar o que um e outro defendem com rigor). Portanto, estão à “direita” de Keynes, que nunca pretendeu destruir o capitalismo, que considerava o mais perfeito dos sistemas económicos no sentido da prosperidade. Vital e T Sousa são neste contexto liberais, com muito pouco a separá-los, no fundo, do neoliberalismo.
    Até porque, noutro plano, eu estou totalmente convencido que estes ataques ao neoliberalismo por parte dos “p.socialistas” de toda a Europa, é um estratagema para que possam usar a palavra “socialismo”, julgam eles que sem grandes problemas (também de consciência). Pois é uma das coisas que mais vontade de rir me dá é ver a raiva com que estes “p.socialistas” se lançam contra o neoliberalismo – mas esses tipos sabem o que fazem e dizem??

    Quanto ao resto, apenas se quiser, caro JMG, tente responder-me à pergunta curiosa de Algarviu, sff.

  4. FV diz:

    Mas que ideia é esta de medir o grau de liberalismo pela percentagem do PIB alocada à despesa pública?
    Confesso que também não percebi a escala liberal / neo-liberal, os neo-liberais são uma espécie de liberais extremistas, separados por um qualquer limite da percentagem do PIB alocada ao estado?

  5. Carlos Vidal diz:

    FV, a sua questão é interessante e não serei a melhor fonte para o esclarecer. Respondi a uma provocação (posso chamá-la como tal) de JMG, que diz defender um tecto limite para a despesa pública, que não ultrapasse 1/3 do PIB – depois disso, perguntou-me se eu, por isso, o considerava fascista. Claro que não, e se eu o considerasse alguma coisa seria «liberal» (veja o comentário acima).
    Quem foi buscar essa relação foi JMG. O que eu disse e repito é que a fronteira entre liberalismo e neoliberalismo, na voragem dos mercados, não é tão clara como os militantes do PS pretendem para poderem dizer-se «anti-neoliberais» radicais. Não são, claro, são muito mais liberais do que sociais.
    Quanto ao neoliberalismo contemporâneo, ele diz respeito a experiências económicas encetadas no Chile de Pinochet sob influência da Escola de Chicago, e mais tarde aplicadas por Thatcher e Reagan com resultados catastróficos: dívida pública record, privatizações em massa, quebra do poder dos sindicatos e redução de impostos. A destribuição de riqueza apenas se efectivou entre os ricos. Mas o neoliberalismo é uma forma do liberalismo e da crença no mercado livre. O PS grita muito, mas é esta a sua filosofia económica: aumento do fosso entre ricos e pobres (aumento record) e privatizações.

  6. Está lá Trailer y o Link para o Doc. a Integra http://f-se.blogspot.com/2009/04/f-se-obama-deception-as-vozes-da.html

    Dps não digas q ninguém te avisou.

  7. JMG diz:

    Meu caro Carlos Vidal:
    Estabelecer uma percentagem limite para a despesa pública sobre o PIB é evidentemente, no que toca à determinação de um número concreto, um exercício arbitrário. Também o é um limite para o défice orçamental ou para a dívida pública. Mas se se não pretende um modelo alternativo de sociedade mas antes uma gestão equilibrada do capitalismo em que este não entre em crises mais profundas e frequentes do que as inerentes ao modelo, então a determinação de metas e limites é necessária. É possível fazer sábios e complicados raciocínios para determinar que o limite deve ser um e não outro (p. ex. Carlos Santos tem uma convincente tese sobre a razão porque o défice orçamental está limitado a 3% – se soubesse fazer links para o texto linkava) mas creio que o que subjaz a estas escolhas são sempre opções políticas – quanto ao tipo de sociedade, quanto à forma de lidar com a pobreza, quanto à importância que se dá à igualdade económica entre as pessoas versus liberdade económica, etc. etc. Quanto à viciosa pergunta do Algarviu, e sua, era-me possível ir pescar um estudo americano (e outros haverá) em que se “demonstra” que a partir salvo erro de 26% a despesa pública tem um efeito negativo sobre a taxa de crescimento. Mas o Algarviu contestaria os pressupostos e todo o edifício ruiria. Nem as escolhas de política económica, aliás, são um assunto para economistas, não obstante o que os próprios costumam pensar esse respeito. A minha escolha arbitrária, assim, tem a marca ideológica de quem sabe o que quer. Mas concedo: 36% também não estaria muito mal.

  8. FV diz:

    Carlos Vidal,
    A minha primeira pergunta não era especialmente dirigida a si, mas a propósito da discussão gerada com o JMG.
    Quanto ao neo-liberalismo, tenho sempre muita dificuldade em perceber o que quer dizer quando alguém o utiliza, uma vez que não conheço nenhuma corrente filosófica/política que se auto-entitule como tal, normalmente é utilizada por não-liberais para catalogar adversários.
    Pela sua definição, neo-liberalismo é a crença de que quanto menos estado, maior será a produção de riqueza, liberdade, etc. É uma espécie de liberal optimista.
    Por outro lado, o liberalismo (sem prefixos) é uma filosofila política e moral autónoma com autores identificados, e não uma teoria ou crença económica balizada por percentagens do PIB, por muito que alguns liberais a ela estejam associados.
    Acho até irónico usar esta classificação para identificar se uma política é liberal ou socialista, dadas as afinidades históricas e ideológicas entre o anarquismo e o comunismo.

  9. Carlos Vidal diz:

    Caro FV,
    Posso deduzir do seu último parágrafo um esboço de aproximação entre anarquismo, comunismo e liberalismo, pois todos advogam, no fundo, uma retirado ou mesmo supressão do estado?

  10. FV diz:

    “Posso deduzir do seu último parágrafo um esboço de aproximação entre anarquismo, comunismo e liberalismo, pois todos advogam, no fundo, uma retirado ou mesmo supressão do estado?”

    Eu diria que esse curioso facto é uma prova de que o tamanho do estado não serve para classificar correctamente uma ideologia.
    A diferença fundamental entre estas ideologias é, na minha opinião, a prioridade de valores. Enquanto que o comunismo e o anarquismo (a maior parte dele pelo menos) valorizam de forma conjunta a liberdade e a igualdade, o liberalismo valoriza a igualdade apenas na medida em que servir para aumentar a liberdade.

  11. FV diz:

    “Posso deduzir do seu último parágrafo um esboço de aproximação entre anarquismo, comunismo e liberalismo, pois todos advogam, no fundo, uma retirado ou mesmo supressão do estado?”

    Esse curioso facto é a prova de que o tamanho do estado não é um bom critério para classificar estas ideologias.
    Na minha opinião, a grande diferença entre elas é a hierarquia de valores. Enquanto que o comunismo e o anarquismo valorizam a igualdade e a liberdade de forma conjunta, o liberalismo apenas valoriza o a igualdade (e de certa forma a justiça) na medida em que contribuir para um aumento de liberdade.

  12. Camelo no buraco da agulha? diz:

    por Carlos Alberto Montaner

    O liberalismo é um modo de entender a natureza humana e uma proposta destinada a possibilitar que todos alcancem o mais alto nível de prosperidade de acordo com seu potencial (em razão de seus valores, atividades e conhecimentos), com o maior grau de liberdade possível, em uma sociedade que reduza ao mínimo os inevitáveis conflitos sociais. Ao mesmo tempo, o liberalismo se apóia em dois aspectos vitais que dão forma a seu perfil: a tolerância e a confiança na força da razão.

    Em que idéias se baseia o liberalismo?

    O liberalismo se baseia em quatro simples premissas básicas:

    – Os liberais acreditam que o Estado foi criado para servir ao indivíduo, e não o contrário. Os liberais consideram o exercício da liberdade individual como algo intrinsecamente bom, como uma condição insubstituível para alcançar níveis ótimos de progresso. Dentre outras, a liberdade de possuir bens (o direito à propriedade privada) parece-lhes fundamental, já que sem ela o indivíduo se encontra permanentemente à mercê do Estado.

    – Portanto, os liberais também acreditam na responsabilidade individual. Não pode haver liberdade sem responsabilidade. Os indivíduos são (ou deveriam ser) responsáveis por seus atos, tendo o dever de considerar as conseqüências de suas decisões e os direitos dos demais indivíduos.

    – Justamente para regular os direitos e deveres do indivíduo em relação a terceiros, os liberais acreditam no Estado de direito. Isto é, crêem em uma sociedade governada por leis neutras, que não favoreçam pessoas, partido ou grupo algum, e que evitem de modo enérgico os privilégios.

    – Os liberais também acreditam que a sociedade deve controlar rigorosamente as atividades dos governos e o funcionamento das instituições do Estado.

    http://www.ordemlivre.org/node/89

    Quem não é liberal?

    Anarquismo: não ao Estado.
    Comunismo: idem
    Socialismo: idem

    A incerteza dos rempos (Mário Soares):

    “(…) Desde o fim da guerra fria que se vem a acentuar uma crise do socialismo democrático ou da social-democracia. O fenómeno mimético de certo socialismo com o neoliberalismo foi trágico e poderá explicar algumas derrotas socialistas recentes. (…)”

    “A seguir, com o colapso do comunismo e o fim da guerra fria, o neoliberalismo avançou sem freios, dando lugar a uma forma nova e perversa do capitalismo, o capitalismo especulativo do nosso tempo, o “império” do dinheiro sem pátria, que, através das multinacionais, procura comandar o mundo, sem que para isso tenha qualquer legitimidade democrática.
    O socialismo democrático sempre se caracterizou por associar a liberdade política à economia de mercado, com regras, manifestando-se contrário à estatização das economias, mas nacionalizando os sectores considerados estratégicos da economia ou entregando-os a empresas com maioria de capital público e desistindo de um tipo de planificação económica rígida, em moda no final da guerra. O mercado é o grande dinamizador da economia, mas gera enormes desigualdades sociais que cumpre ao Estado corrigir em defesa dos mais fracos. Nisto consiste o modelo social europeu, a segurança para todos, na doença, no desemprego e na velhice. A concertação social e o pleno emprego.”

  13. Carlos Vidal diz:

    Pode-se sempre encetar ou desenvolver um debate sobre as fronteiras, teses e teorias em torno do comunismo, anarquismo, liberalismo, etc.
    Mas eu tentava neste post, com as duas citações recolhidas, chamar a atenção para uma passiva aceitação de uma “nova América” JÁ à nossa frente, de uma recuperação económica JÁ encetada, ou pelo menos no “bom” caminho, e em marcha depois da cimeira G 20. Ou seja, é esta aceitação imediata de slogans e de realidades que me causava / causa todas as dúvidas.
    Aliás, o título do post aponta para isso mesmo: o que querem que compremos? Aquilo que nos vende a cimeira do G 20?
    A sensação de que tudo está em marcha no sentido da resolução dos problemas mais graves da economia e sociedade à escala mundial?
    Mais produtos (como na magnífica foto do Gursky)?
    O que querem que compremos?
    Produtos?
    Contos de fadas?
    O que é?

  14. Camelo no buraco da agulha? diz:

    É uma espécie de reanimação (boca a boca e massagem, mais desfribilador) para voltar ao ritmo mínimo de sobrevivência.

    Se retomar… seguir-se-á um novo ciclo (mais um?).

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