A pobreza é constitucional

Com instintos talvez perversos (sabe-se lá, ou talvez seja por aquilo que Eduardo Prado Coelho há um tempo chamava muito bem “o prazer da indignação”), confesso que voltei ao “Causa Nossa” de Vital Moreira – é uma infinita fonte de inspiração. E deparo com um texto que faz parte de uma série que o bloguer costuma intitular “Gostaria de ter escrito isto”. De que se trata desta vez? Vital M. cita um texto do Jornal de Negócios, onde um colunista critica o Prefácio de Cavaco Silva a uma recolha de discursos do próprio (Roteiros III).
Não estou minimamente próximo política ou pessoalmente de Cavaco, claro. Como nunca estive de Soares nem de Sampaio, nem nunca me passou pela cabeça adquirir qualquer dos seus livros de discursos – que são sempre feitos de frases “nobres”, absolutamente circunstanciais e de nula perenidade. Que diz Cavaco? Isto: “Não temos o direito de deixar aos nossos filhos, e aos filhos deles, um passivo que tenham dificuldades em suportar, condenando-os a um nível de vida inferior ao que os nossos pais proporcionaram”. Elementar e inquestionável – qualquer um de nós diria isto.
E o que é que Vital Moreira gostaria de ter escrito sobre a frase citada? Isto: “o País precisa de um Presidente vigilante (…). Mas isso é diferente de deixar no ar expressões/ideias que não têm sustentação no quadro constitucional”.
Enfim, lendo o JN, ficamos todos a saber que esta frase é constitucionalmente insustentável, porque é inspirada no semipresidencialismo francês (!!!??).Vamos ler de novo:
“Não temos o direito de deixar aos nossos filhos, e aos filhos deles, um passivo que tenham dificuldades em suportar, condenando-os a um nível de vida inferior ao que os nossos pais proporcionaram”.
O QUE LERAM É CONSTITUCIONALMENTE INSUSTENTÁVEL.
Espante-se leitor, mas é verdade.

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