“Lisboa quer ser uma ‘segunda’ Barcelona até 2020”


Esta notícia, da qual copiei o título, ilustra a forma como se tem feito o ordenamento do território em Portugal e ajuda a conhecer quem dirige as respectivas entidades competentes.
As chefias dos organismos públicos de carácter regional, com responsabilidades nas áreas do ambiente e ordenamento territorial são praticamente as mesmas há mais de vinte anos, sucessivamente nomeadas e confirmadas por governos do PS/PSD/CDS, e o seu saber de experiência feito é bem visível pela forma como se tem destruído o património natural e urbano – legado que levará muitos mais anos a refazer.
Ainda que o caso Freeport seja arquivado na mais profunda ausência de resultados da investigação, servirá pelo menos, para que se torne público e notório que estes organismos regionais (que deveriam ser de extrema importância) são dirigidos por zelosos cumpridores das ordens do poder central (seja PS, PSD ou CDS), dos despachos sónicos à previdente amnésia.

A notícia revela-nos o que os directores da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT), pretendem para a cidade de Lisboa até 202o, embora através de uma leitura mais apurada se perceba que este organismo público realizou o colóquio para vincar a necessidade do aeroporto e do TGV nos termos e moldes definidos pelo actual governo.
Quando estes cumpridores colóquios se põe com “visões” é que a coisa dá para o torto. Das tradicionais cabeças criativas anunciam-se raios de genialidade, inovação e ousadia… Lá no fundo, nada. Neste caso até parece, que as figuras internacionais convidadas, nem tiveram a tradicional bonomia para quem lhes pagou as viagens e alertaram para que as coisas não deviam ser bem assim.
De acordo com o DN para o Presidente da CCDR-LVT, Lisboa tem de se tornar uma “cidade cosmopolita” e nas conclusões ninguém teve dúvidas em afirmar que Lisboa devia seguir o exemplo de Barcelona.
Para a questão da “cidade cosmopolita” poderia aconselhar centenas de leituras da Idade Média aos dias de hoje, mas para personagens com o tempo tão valioso, talvez possa ser melhor medicação sugerir que abram as janelas dos seus carros quando circulam entre o Martim Moniz e a Almirante Reis, por exemplo.
No que diz respeito ao seu exemplo máximo, Barcelona, ao que se referirão?
Será que estão a falar de Cerdà? Dos projectos dos Jogos Olímpicos? Das zonas decorrentes do Fórum? De Barceloneta? Do que falarão?
De nada, claro.
Se há uma ideia, essa sim consensual, entre quem estuda os temas relacionados com a cidade, é que estamos num momento de enorme aceleração, que exige respostas de diferentes escalas e tempos. As novas redes de Castells, a crise e as suas diversas formas e reflexos, as novas faces do comércio, o património e as questões de sustentabilidade são temáticas em constante evolução e às quais não se pode responder através da repetição de modelos que há alguns anos obtiveram resultados.
O futuro de Barcelona está a ser pensado agora, não por repetição de um  qualquer modelo, mas colocando pessoas a estudar os problemas concretos, constituindo fóruns de discussão e participação, organizando-se colóquios e exposições que põe em causa o sistema e o que tem foi feito (ver, por exemplo, o interessante Barcelona Post-Oil).
Em Portugal não podemos continuar nesta triste senda de anúncios de ideias banais, supostamente “ousadas” ou centradas em “grandes obras” e na repetição do que se entende por bons exemplos. O repensar das cidades dará muito trabalho, exigirá que se oiçam as populações, que a estes dirigentes de organismos públicos lhe seja retirada a inimputabilidade conferida pela sua nomeação e falta de escrutínio público e, sobretudo, que se avalie muito negativamente o que fizeram ou deixaram fazer nos últimos vinte anos.

NOTA 1: A imagem que ilustra o texto foi retirada daqui

NOTA 2: Nas pesquisas realizadas para este texto, descobri um dos últimos colóquios que esta CCDR-LVT promoveu: “Resorts Turísticos: Oportunidades e Desafios”. Assim, percebe-se melhor as reais prioridades e preocupações deste organismo do Estado, cujo objecto é o desenvolvimento territorial de Lisboa e Vale do Tejo e, ao mesmo tempo, fez-me recordar a indignação que um dia ouvi a um dos seus  quadros dirigentes, pela oposição das populações à construção de um resort turístico num mouchão do Tejo

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5 respostas a “Lisboa quer ser uma ‘segunda’ Barcelona até 2020”

  1. Anónimo diz:

    A foto é bem escolhida, para ilustrar o que tem sido a gestão PS na região de Lisboa (não é preciso um olhar muito acurado). Mas… resort turístico? Esta semana foi anunciada a eventual pretensão da Disney de construir num dos mouchões uma “LusoDisney”. Logo sairam os autarcas PS a aplaudir, naturalmente.

  2. Amílcar diz:

    Já o urbanismo na Amadora ou Alamada é exemplar

  3. Tiago Mota Saraiva diz:

    Amílcar, como Alamada não sei. Mas como Amadora seguramente:
    http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=131046

    Repare que os actores do “ordenamento” são sempre os mesmos. Do Freeport à Amadora.

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