Irritações


Confesso que me move a irritação, como diria Carlos Oliveira, amor de guardar ódios agrada ao meu coração. Mas mesmo que eu fosse uma madre Teresa de Calcutá, bojuda certamente, não conseguiria perdoar determinadas coisas. Irrita-me a versão do Bloco do anúncio da RDP. Eu sei que é frase velha, mas o proletariado não devia ter pátria. Pelo menos para os partidos de esquerda. Mas mais do que tudo, revoltam-me pequenos golpes, daqueles que perdoam tudo aos poderosos e que têm sempre uma palavra amável para o inqualificável, desde que o autor do acto sejam os “seus”: o “seu” partido, o “seu” governo, os “seus” amigos, os “seus” interesses. É o chamado sentido de jutiça de geometria variável. O caso dos alunos ciganos nos contentores é isto mesmo.
Não consigo perceber aqueles que justificam colocar os ciganos numa turma à parte e num contentor, dizendo que isso é justificável porque eles são alunos com dificuldades. Não percebem que mesmo que isso fosse verdade, a exclusão apenas reforçaria o problema? Um grupo de ciganos num contentor não é o mesmo que um grupo de alunos com dificuldades numa sala improvisada, num contentor. A discriminação é reforçada com este acto, em que faz equivaler a etnia ao atraso. A aprendizagem é também um acto em que se dá poder e confiança a aqueles que se ensina. Este tipo de práticas de juntar alunos em dificuldade, por acaso quase todos ciganos, num contentor, apenas reforça a discriminação. O mais interessante, é que muitas dessas alminhas perceberia estarmos perante uma discriminação inqualificável se se tratasse de uma turma de mulheres ou uma turma de homossexuais.
Para perceber que a questão também é um problema de reforçar os estereótipos recomento o visionamento deste velho vídeo, sobre uma experiência que decorreu, salvo erro, no dia 5 de Abril de 68.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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10 respostas a Irritações

  1. LR diz:

    Não concordo inteiramente mas aplaudo.

  2. Paulo Ribeiro diz:

    acaso não terá estudado num contentor uma única vez? para aí 70% dos portugueses com mais de 30 anos estudaram?

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Paulo Ribeiro,
    Leia o texto pela segunda vez. Acho que não o percebeu. O problema não é, sobretudo, os contentores. Para a próxima aconselho-lhe uma velha máxima: não é obrigado a comentar todos os posts , sobretudo quando não leu ou não tem nada a dizer. Discordar é bom. Comentar é simpático, mas convinha tentar dialogar com o texto que comenta. Se não , é só ruído.

  4. maria monteiro diz:

    Obrigada pela “irritação” 😉
    Luther King quando foi receber o nobel disse:
    “… Recuso-me a aceitar o ponto de vista de que a humanidade está tão tragicamente acorrentada à noite sem estrelas do racismo e da guerra que a radiosa alvorada da paz e da fraternidade nunca mais poderá romper.”
    “…Tenho a ousadia de acreditar que os povos de todo o mundo podem ter três refeições por dia para alimentar o corpo, educação e cultura para alimentar a mente e dignidade, igualdade e liberdade para alimentar o espírito. Acredito que os homens altruístas podem reconstruir aquilo que os egoístas destruíram. Contínuo a acreditar que um dia a humanidade se irá curvar diante dos altares de Deus e receber a coroa do triunfo sobre a guerra e o derramamento de sangue, e que a boa vontade animada pela não-violência redentora irá ditar a sua lei sobre a terra. Continuo a acreditar que nós triunfaremos. Esta fé pode dar-nos coragem para enfrentar as incertezas do futuro. Pode dar aos nossos pés cansados novas forças para prosseguirmos a caminhada para a Cidade da Liberdade.”

  5. Gosto particularmente dos miúdos da “raça” inferior terem piores resultados no exercício escolar…

  6. LAM diz:

    Em relação aos contentores com a miudagem incluída penso que já se falou por aqui.
    Não entendo a relação que estabelece com a versão do BE do anúncio da antena 1.
    Está-me a escapar qualquer coisa. Nuno, pode explicar isso para mais desatentos?

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    LAM,
    Não tem relação directa de assunto. É apenas um anúncio e uma versão de que não gosto. Acho que o verdadeiro problema do emprego em Portugal não é os eslovacos terem emprego.

  8. LAM diz:

    Suspeitava quer fosse isso. Não pelo que depreendo do contexto em que isso é referido no anúncio, mais pela polémica que tem gerado aqui num blogue vizinho. A questão da deslocalização das empresas, nomeadamente as multinacionais para países com mão de obra mais barata, rompendo muitas vezes acordos firmados com os governos, é assunto que tem sido inúmeras vezes tratado não só pelo BE, como por toda a esquerda desde o PCP às centrais sindicais, sendo até Carvalho da Silva da CGTP uma das pessoas que mais vezes aborda o assunto.
    (será esta polémica por ser referido expressamente um nome de um país?)

  9. Paulo Ribeiro diz:

    já li e aha…sabe que mais nuno ramos de almeida…tem razão! mas repare, eu não sou obrigado a nada nesta vidinha, nem sequer a lavar as minhas faltas neste blog, mas faço-o! faço-o com a humildade de quem nada deve e foi muito bem educado! cá vai: mea culpa! mea maxima culpa! noster fraeter ramex, vigil in genio, atirei-me a si com a minha espadorum, sem sequer ter passado os olhos como convinha pelo post. agora Grrr..! comentar por dá cá aquela… moi? ora ora…o meu amigo devia era estar, digamos… emudecido de satisfação, nãooo?!

  10. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Paulo Ribeiro,
    Eu prefiro ler uma opinião pensada, como a sua sobre o Che, mesmo quando não concordo com ela. Aliás, concordar é menos importante do que pensar. Irrita-me comentários só para desconversar. Não é que eu não os faça. Mas tem pouca graça.

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