I love Paris in the Springtime (I love Paris in the Fall)

Melhor que o milenarismo só mesmo o bi-milenarismo: 1984, 2001 Odisseia no Espaço, 2001 boîte no Estoril, 2001 cigarros da Tabaqueira com micro-filtros de carvão – e hoje já ninguém se lembra, já ninguém acha graça. Quando eu digo “século passado” referindo-me (obviamente) ao séc. XIX e alguém me corrige e me responde que o século passado foi o séc. XX, eu descarrego carradas de desprezo sobre essa personagem a-histórica e anti-cultural, incapaz de perceber que eu sou do século XX e do século XX ficarei, e que o próprio som “dois mil e tal” constitui uma tal descontinuidade estética no modo de assinalar a passagem dos anos que eu pergunto-me como é que não houve já revoltas de massas contra essa inovação aberrante: contariam com o meu apoio solidário e militante.

Paris: dizia Benjamin, capital do século XIX, digo eu, cidade do século XX. A Europa do século XXI é de fugir, a França moderna então é a pior de todas. Por puro espírito de contradição, eu oponho-me sempre ao French bashing – mas que vontade que eu sinto de alinhar!… Cautelosamente, criteriosamente, criticamente, daremos nessa cidade os passos necessários a acordar o melhor que nela há, e a calcar o que nela existe também de desprezível: fugiremos dos “grands travaux” e da esperteza saloia da França (país de cabeleireiros, dizia Herculano, e de videirinhos, dizia o Eça), e abraçaremos a boçalidade gaulesa, que reste t’il de nos amours, le pichet bon marché, a educação sentimental e outros clássicos imorredoiros.

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SEXTA | António Figueira
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