Círculos de cor

Luís Feito é um pintor espanhol cuja obra foi objecto de uma exposição retrospectiva em 2008 na Galeria Cordeiros, do Porto. Sobre a sua obra e a sua vida, o galerista editou então um rico catálogo, bilingue, quadricromático, papel bom, capa dura. Lendo-o, ficamos a conhecer os momentos decisivos da sua biografia: “1929 – Nasce em Madrid. 1951 – Ingressa na Escola de Belas-Artes de Madrid. Breve período figurativo. 1954 – Primeira exposição individual com obra de tendência não figurativa, em Madrid. A partir desta época, Feito expõe regularmente nas cidades mais importantes do mundo como: Madrid, Paris, Milão, Nova Iorque, Helsínquia, Tóquio, Roma, etc. 1955 – Instala-se em Paris. 1962 – Introduz o vermelho como contraponto. 1963 – Crescente simplificação formal e material, com motivos predominantemente circulares. 1970 – Impõe-se a plenitude da cor.” Depois sucedem-se mais alguns episódios (o artista ainda é vivo), mas o essencial parece estar jogado nesta altura. Em 1968 (cortesia sempre do catálogo da Cordeiros), sabemos que Feito escrevia assim sobre o seu trabalho: “Uma superfícia que quero, que lavro. Procuro nas suas raízes. Abro-a até encontrar o meu sulco. Ele cresce e encontro-o. Bato-lhe; rompo-a, destroço-a. Arranho-me. Doutras vezes, acaricio-a. Por vezes, surge a luz, a esperança; outras, nada. E continuo a errar. Caminhando por ela. Seca e queimada. E às vezes encontro água. Abre-se. Caio nos seus pretos. Sem fundo. Choco contra a sua pedra virgem. Pura. O espaço faz-se. Salta. Arranco-lhe o seu silêncio. Retorço o seu mistério. E nasce.” “Transcendência mística”, escreveu também a seu propósito um crítico, que prossegue: Feito é autor de um “informalismo que não é, portanto, uma mera negação de qualquer estruturação previamente definível”, mas em que existe uma “geometria latente”, uma “estruturação-outra”. Verdades como punhos, de que nós suspeitámos desde a primeira hora, mal conseguindo imaginar o ano, mês, dia, genial instante em que Feito, introduzido o vermelho como contraponto, e simplificado até ao círculo na sua expressão formal, “se impôs a plenitude da cor” (ou esta lhe foi imposta, o jogo de espelhos é infinito, aqui tudo quer dizer tudo, talvez porque nada queira dizer nada).

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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5 respostas a Círculos de cor

  1. Paulo Ribeiro diz:

    olá meu amigo, como tem passado? felicito-o pelo post. bom estilo! aliás, como sempre!

  2. Paulo Ribeiro diz:

    ai! a arte! meu deus…inda hoje fiz isto tudo: “Uma superfícia que quero, que lavro. Procuro nas suas raízes. Abro-a até encontrar o meu sulco. Ele cresce e encontro-o. Bato-lhe; rompo-a, destroço-a. Arranho-me. Doutras vezes, acaricio-a. (…)E às vezes encontro água.” (sic)

  3. lili diz:

    Há outras maneiras de se ser vedor.

  4. Diogo Vasconcelos diz:

    obrigado pelo post. mais um e mais um genial. obrigado mais uma vez.

  5. Paulo Ribeiro diz:

    diogo, obrigadinho. eheheh! hic! sabia que ias gostar pá! mas o crédito é do figueira! lili, não captei a cena, importa-se…

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