Che Guevara de novo

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O filme sobre o Che vai colocar novamente à discussão o seu papel histórico e a avaliação da sua personalidade. Nada mau aconteceria, não fora a preguiça mental e a desonestidade ideológica de algumas criaturas que se dão a este trabalho. Ninguém ignora que a história costuma ser obra dos vencedores e que a avaliação histórica é uma arte muito volúvel às correlações de forças. Um exemplo disso passou-se, em 2007, no El Pais, o diário espanhol brindou os seus leitores com um feroz editorial anti-Che, que foi contestado por dois terços dos jornalistas do próprio jornal. O mais interessante do texto era expressar claramente a evolução da opinião da direcção do El Pais, em comparação com outros editoriais sobre o assunto do próprio diário da PRISA. Atendendo a que Che Guevara estava morto há muito tempo, pode-se dizer, sem muitas dúvidas, que foi mais o El Pais que mudou do que o revolucionário argentino. Este fim de semana, ao ler o Semanário Económico deparei com um artigo típico de uma certa ” ética” jornalística. Toda o artigo sobre o filme vende a teoria que a obra escamoteia a verdadeira vida de Che Guevara, escondendo um monstro com rabo de fora. Para provar essa tese, o jornalista Victor Silvério conclui com um “facto” revelador: um companheiro de Guevara teria perguntado ao líder revolucionário como distinguir os amigos dos inimigos? Che teria afirmado: “Quando tiverem dúvidas matem-nos”. Uma pena que esta reveladora citação não mereça atribuição de autoria. Ficamos na dúvida se o próprio Victor Silvério a teria testemunhado. É interessante como esta e outro tipo de afirmações criativas são colocadas, no exemplo máximo deste jornalismo preguiçoso e ideológico: um célebre artigo da revista Veja titulado “Che, a farsa do herói”. Esta obra de arte, do género, reivindica parte da sua autoridade, devido a alegadamente basear, as suas conclusões, nos trabalhos de um dos maiores biografos de Che Guevara Jon Lee Anderson. Quem não ficou convencido da paternidade foi o próprio jornalista norte-americano que criticou asperamente a falta de honestidade da reportagem sobre Che feita pelo editor de internacional da Veja, Diogo Schelp. A polémica pode ser lida aqui. Para educação dos jornalistas candidatos à milionésima cópia da Veja, fica parte da tréplica de Jon Lee Anderson, na sua tradução brasileira.

“Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.

Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!

Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivalente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que ‘Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano’ passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quarenta e tantos anos.

Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.

Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’.

Cordialmente, Jon Lee Anderson. “.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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