Arte e cultura: não é possível que o primeiro-ministro conheça qualquer uma destas palavras

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Não há nem é concebível que alguma vez tenha havido ou venha a haver um primeiro-ministro, ou um ministro, ou mesmo um secretário ou um qualquer governante tão alheado e avesso às palavras “arte” e “cultura” (palavras e conceitos diferentes) como José Sócrates.
Dizia eu que as palavras arte e cultura não designam a mesma coisa, mas de J. Sócrates podemos ter uma certeza inabalável: não tem, não teve nem terá nenhuma relação com qualquer um destes termos, conceitos, práticas ou realidades. Ninguém consegue imaginar J. Sócrates lendo livros regularmente, ninguém o imagina à procura de um espectáculo teatral, empenhando-se numa ida à ópera, a um concerto, uma exposição – a não ser por obrigação, talvez dever ou camaradagem. Não deve haver para J. Sócrates nada de mais maçador que isto e, sublinhe-se, nem de Santana Lopes se pode dizer tal coisa, Santana que, apesar de uns inexistentes concertos para violino (e outros disparates), soube fazer genuínas amizades e interessar-se por problemas e certas figuras do teatro português.
Vem esta introdução a propósito de uma carta de Manuel Maria Carrilho, noticiada no “Expresso” de ontém (ed. impressa),

endereçada à Fundação do PS “Res Pública”, presidida por António Vitorino (também ele um famosíssimo “homem de cultura”). Aí Carrilho, que na minha opinião foi um verdadeiro ministro da cultura, considera esta uma legislatura perdida e a ausência de política cultural deste governo um erro trágico e irresponsável.
Mas, sejamos realistas, parece-me haver aqui um equívoco: Carrilho não percebeu que o nome J. Sócrates e a palavra “cultura” comportam uma insanável contradição de termos. Não é possível associar a palavra “cultura” ou “gestão cultural” a J. Sócrates, não há mesmo duas entidades mais dissemelhantes!
Nestes quatro anos nada se fez em torno de um objectivo lógico e antigo: aproximar ou conduzir o orçamento da cultura ao patamar de 1% (!!!!) do Orçamento de Estado. E o que se fez foi desfazer e destruir, a começar pela escolha inenarrável da ministra Isabel Pires de Lima à qual se seguiu o invisível António Pinto Ribeiro. De Pires de Lima, sabemos de projectos absurdos que nunca teriam qualquer viabilidade, como o estabelecimento de um pólo do Hermitage em Lisboa (???). Sabemos da sua descortesia para com o centenário de Torga e a sua ausência na grande exposição dedicada a Saramago produzida por Espanha (!). Sabemos que destruiu a mais capaz programação do S. Carlos das últimas décadas, a de Paolo Pinamonti, substituído por um muito questionável director de Colónia, que julgo ainda estar a acumular os dois cargos nas duas cidades (Colónia e Lisboa), director responsável por alguns dos piores espectáculos dos últimos anos em S. Carlos (um indescritível Rigoletto, por exemplo). Destruiu Pires de Lima a programação do Nacional D. Maria II, onde colocou um problemático Carlos Fragateiro e despediu do Museu Nacional de Arte Antiga Dalila Rodrigues. Estes três últimos casos motivaram acesas polémicas e vigílias à porta das respectivas instituições. Tudo isso foi ignorado por J. Sócrates, como se de um problema de outro governo noutro país se tratasse. Por isso pode dizer Raquel Henriques da Silva (ex-directora do Instituto dos Museus), com espanto dela e nosso, que este primeiro-ministro nunca proferiu um único discurso sobre cultura. Ou Ricardo Pais (ex-director do Teatro Nacional de S. João, Porto) pode e deve caracterizar J. Sócrates como um primeiro-ministro anticultura!
E eu não amo por aí além a palavra cultura. Ou seja, repito o que uma vez disse Godard: a arte é a excepção, a cultura é a regra, e faz parte da regra querer anular a excepção.
Mas
uma coisa é teorizar o conflito arte e cultura, outra coisa é não saber absolutamente nada acerca do que uma e outra querem dizer!

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