
Otto Dix (1924)
BELA INFÂNCIA
A boca de uma rapariga que passara muito tempo no canavial
estava tão roída.
Quando lhe abriram o peito, o esófago estava todo esburacado
Finalmente, num caramanchão sob o diafragma
encontrou-se um ninho de ratinhos.
Um dos irmãozinhos estava morto.
Os outros tinham vivido do fígado e dos rins,
bebido o sangue frio e passado
aqui uma bela infância.
Mas depressa tiveram também uma bela morte:
Deitaram-nos todos à água.
Ah, como os pequenos focinhos chiavam!
GOTTFRIED BENN
(trad. V. G. Moura)




coisa de médico Carlos, expressioneirismo radical tambem está bem, o absoluto é que está apenas na voz e no próprio o que dá para duvidar. Queres abordar o tema que faz aumentar os comentários, é?
CV, fiz de uma frase do Almajecta o ote para o meu Post Para o dia da Poesia. Por acas gostava que tomasses conhecimento dele. Obrigada.
http://f-se.blogspot.com/2009/03/f-se-sombras-das-sequoias-so-crescem.html
Olha, não conhecia esse do Dix. …
Foda-se!
catarina, muito bem, foda-se, mas de certo modo, porquê?
Isto não tem nada a ver com Gottfried Benn: mas vamos imaginar a humanidade reduzida ao osso pelo capital. Mesmo depois disso, há-de haver sobreviventes que se alimentarão dos restos. Estes são normalmente os que costumam ganhar eleições, e são esses que temos de varrer para um rio sem regresso. Mas muito antes deste raciocínio “utilitário” sobre a realidade, já tinha este poema como um dos meus eleitos de Benn, o médico precisamente.
Ó Grande Alma, queres mesmo saber qual é o tema que faz disparar os comentários e sobre ele queres conversar? Bom, estamos no ponto em que nos deixou Marx, com o “Manifesto”. Ou seja, continua a pairar sobre nós o espectro do comunismo. Sem dúvida.
Por isso o tema que faz disparar os comentários é o comunismo, sobretudo se tratado com toda a seriedade e consequência.
Entretanto, e já que estamos a falar de poesia, parafraseando catarinahenriques, foda-se, foda-se para os últimos 4 anos de políticas culturais invisíveis.
É o que eu digo: mais 4 anos destes gajos e é exílio certo.
a atmosfera sob a qual vivemos pesa várias toneladas – mas será que todos a sentem?
Vamos então eleger os homens de vanguarda (a velha toupeira que sabe trabalhar a terra com rapidez, aquele valioso pioneiro) para resolver as contradições da modernidade.
Sai um manifesto com todos e o seu contrário.
Sim, sim, vamos aos homens de vanguarda e aos protovanguardistas, como o grande Arthur Cravan, o escritor e o boxeur. Depois, sim, poder para Marinetti, Ball, Schwitters, Popova e o grande proto-impressionista, como diria o nosso amigo, José Malhoa.
Andre Sardet pode ser classificado de vanguarda revolucionária, porque se supunha não haver sido tocado pelo beijo da morte da modernidade. É claro que uma tal procura se vê condenada à futilidade; ninguem no mundo contemporâneo é ou pode ser marginal. Para os radicais que compreenderam isso, ainda que levassem a sério o paradigma unidimensional (uma falta grave a da inauguração da exposição da colecção de electrodomésticos), a única válvula de escape foi a futilidade e o desespero.
Ora bem, Grande Alma, eu prefiro sempre o desespero.
Pois sim, a angst mais a tod do expressioneirismo do vibrato, são os nervos dos desejos e impulsos insaciáveis da perpétua criação mais a felicidade nacional e a sua antítese radical, niilismo, trituração e horror.
Sim sim, movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo.
e continua mais do mesmo a Realeza era um
fetiche respeitado pelo terror das forcas e a aris-
tocracia exhibia-se em uma prostituição galante.
Era um meio excellente para a indignidade cam-
pear infrene, nunca para se crearem concepções
artísticas ou se revelarem génios fecundos. Um
povo sem opinião, submisso a um regimen que
corta toda a manifestação do pensamento acerca
dos actos do governo descricionario, os espectá-
culos destinados a desviarem as attenções da
causa publica, as ideias consideradas como um
perigo social, tudo impellia para o cretinismo,
para a idiotia, a degradação. Esta
decadência nacional aggravava-se mais com os
desvairamentos de um rei epiléptico, faustoso
como Luiz xiv, devasso como Luiz xv, fanático
como Pilippe ii; tal era D. João V, que o seu
contemporâneo Frederico ii, o violador da Pra-
gmática Sancção, e portanto seu inimigo, retra-
tava em phrases sarcásticas: «Ses plasirs étaient
des fonctions sacerdotales ; ses hâtiments des
convents; et ses années des moines et ses mai-
tresses des religieuses». Isto dá o sentido das pa-
lavras do Padre Theodoro de Almeida, na Oração
inaugural da Academia das Sciencias de Lisboa
em 1779.
CV: ODEIO-TE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Não há letras maiores.
Pois devias ter lá ido Ler Para não falares no vazio! Terias factos Concretos, pelo menos… para ver como este sistema É de M-rd-!!!
ZANGADA!!!
Ummm… devoristas e braços no vidrão isso sim, nesta primavera do bolor do trigo roxo e do mal dos ardentes com os focinhos a chiar. A do caramanchão foi uma indirecta, não?