Jotex e a luta de classes

No dia 28 de Fevereiro, em Espinho, a poucos quilómetros de distância do local onde decorria o Congresso do PS, a administração da empresa têxtil Jotex, decidiu que queria fechar a produção. O contraste entre o Portugal fantasia do Congresso e o Portugal real na Jotex, não podia ser mais flagrante. A 27 de Fevereiro, a administração informou os trabalhadores que a produção iria ser suspensa até 16 de Março. Mas nada faria supôr, que no sábado seguinte, a administração fizesse deslocar ao local um conjunto de camiões para remover a maquinaria. Isto apesar da empresa estar em plena produção e possuir uma carteira de encomendas preenchida. Os trabalhadores rapidamente se mobilizaram e dirigiram ao local da empresa com o fim de impedir, onde vieram a encontrar um destacamento policial para garantir o carcomer da empresa, para os empresários poderem vender o capital fixo da maquinaria e re-investirem noutro sector, noutro pais, ou simplesmente saldarem dívidas por si acumuladas noutras actividades. Os 60 postos de trabalho e o contributo para a produção têxtil nacional que se dane. Passados mais de quinze dias, os trabalhadores da Jotex, na sua maioria mulheres, continuam firmes na intenção de não abandonarem as portas da empresa. Os trabalhadores querem garantir que as máquinas não serão vendidas antes de serem assegurados e pagos os seus direitos e realizada a assembleia de credores. Contrariamente ao que antes afirmara aos trabalhadores (que se tratava apenas de uma suspensão de produção), a administração apresentou um pedido de insolvência.

Situações como estas acumulam-se pelo país fora. Empresas que até têm condições de produção, mas cujas administrações preferem re-investir o seu capital noutros sectores ou regiões. Quem está na linha da frente na defesa de postos de trabalho e da produção industrial são os desprovidos dos meios de produção, os que dependem da sua força de trabalho, dos seus postos de trabalho, para sobreviver e alimentar as suas famílias. Não me venham dizer que a «luta de classes» é um conceito ultrapassado. Ele está até por demais evidente no momento de crise que actualmente atravessamos. Assim o demonstrou também a gigantesca manifestação de 6ª feira passada, convocada pela CGTP-IN, com mais de 220 mil trabalhores, do sector público e privado, que se deslocaram a Lisboa em defesa do direito Constitucional ao emprego com direitos. Duas notas sobre esta manifestação: 1) a crescente presença de trabalhadores do sector privado; 2) a presença de alguns trabalhadores com cara vedada, determinados a lutar, mas com receio das consequências laborais caso fossem identificados. É sinal que de que se generaliza a resistência às políticas do Governo/Sócrates, mas que os trabalhadores, em particular do sector privado, estão sujeitos a formas de intimidação, de limitação dos seus direitos constitucionais, fontes de medo e receios. Mas apesar disso, ali estavam, juntando a sua voz ao protesto generalizado.

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Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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