João Mesquita era tão bom jornalista que nenhum órgão de comunicação o queria. Não é que não tivesse trabalhado em muitos. Não é que não soubesse as ferramentas do ofício. Simplesmente, apesar da doçura, do sorriso e da fraternidade, não estava habituado a dobrar a cerviz. Caros directores de jornais, podem-lhe fazer todos os elogios do mundo, acredito que sejam sinceros, até podem vir dum fundo escondido de idealismo que ficou enterrado em todos os salamaleques e pequenos poderes. Mas, a verdade é que vocês não queriam o João Mesquita por perto. Ele era um empecilho, um objecto fora de tempo, uma recordação do passado de alguns e de uma altura em que ser jornalista também era ser livre. Livre de discutir as notícias, livre de pensar, livre de lutar por direitos, livre de ter medo de perder o emprego. O que seria do poder de alguns, se a gente fosse realmente livre e se as notícias nascessem dessa inteligência da liberdade.
Há poucos dias li esta frase de Herberto Hélder: “Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológicos, quando alguém morria perguntavam apenas: tinha paixão?” . Pode-se dizer que o João Mesquita tinha essa imensa fraternidade daqueles que estão apaixonados pela vida e que gostam dos seus amigos. Lembro-me de escutar a sua voz rouca a contar as histórias mais fantásticas, tinha a imensa capacidade de fazer humor com ele próprio. Não me esqueço da descrição, pelo próprio, do seu processo, abortado, de expulsão do PCP (R) por ter perdido os ficheiros da célula quando foi à casa de banho. O João Mesquita sabia rir da vida, das suas contrariedades e dos seus encantos. Isso merece um copo bebido sofregamente até ao fim.




brindo contigo pelo joão mesquita
bom. tenho pena de não me ter relacionado com ele. sendo assim, honra lhe seja feita.
Uma pérola, este seu post. Um abraço
lindo!
ao João o abraço forte da saudade que me deixa
Pingback: Arrastão: a saída de cena do joão mesquita
Ao ler as mensagens (homengens?) dos directores dos jornais de referência só me ocorre, lembrar-lhes que são uns pulhas, mil vezes hipócrates !
AAfonso
Não é tudo verdade e o João Mesquita merecia-a. Há muitos, era ele jovem e eu também mais novo, convidei-o (e ele aceitou) para vir trabalhar num jornal do Porto –o “Notícias da Tarde”. Gostei de o fazer e penso que ele também. Infelizmente, o jornal não vingou porque os políticos apropriaram-se da empresa e logo o encerraram…
Fica agor a minha homenagem, mais valiosa, creio, por não sermos
ideológicamente afins.
Não é tudo verdade e o João Mesquita merecia-a. Há muitos anos, era ele jovem e eu também mais novo, convidei-o (e ele aceitou) para vir trabalhar num jornal do Porto –o “Notícias da Tarde”. Gostei de o fazer e penso que ele também. Infelizmente, o jornal não vingou porque os políticos apropriaram-se da empresa e logo o encerraram…
Fica agora a minha homenagem, mais valiosa, creio, por não sermos
ideológicamente afins.
Caro António Freitas Cruz,
O reparo não era para si, mas para aqueles que sabendo que o João Mesquita estava desempregado desde 2003, depois de esgotado o subsídio de desemprego estava a viver do rendimento mínimo, fazem grandes elogios, com ele morto, mas não o empregaram em vida.
Junto-me a ti nesse brinde. E assino por baixo. “… era tão bom jornalista que nenhum orgão de comunicação o queria”. Sem tirar nem pôr.
É que é mesmo isso, Nuno.
Cruzei-me com ele uma dúzia de vezes. Suficiente para marcar. Como jornalista, sério, rigoroso, intelectualmente honesto, com memória, culto. Não deixava contaminar a objectividade. Apesar do posicionamento político, não fazia fretes. Também não deixava de dizer o que pensava. Como pessoa, difícil achar alguém mais decente, correcto e humano. Sempre solidário com todos, genuinamente afável e tolerante até com adversários políticos que não encarava como inimigos. Fraterno mesmo com quem mal conhecia, combativo, elegante. De uma urbanidade e trato que não existem. Pois não se percebe…E nestas alturas o que que é que se pode dizer à Clara ou à filha? Saudades e orgulho?
Sem falsos elogios, tal como o texto, trata-se do obituário mais verdadeiro que li sobre o João. Simples, directo! Se houve coisa que me irritou foi o facto de muitos terem aproveitado a morte do João para escrever mais umas quantas crónicas, ou dirigirem-se ao velório como se de um baile social se tratasse. Certo é que o João estava desempregado há muito tempo, mas as propostas de trabalho que teve não vieram de nenhum jornal!
CDeixo aqui um comentário semelhante ao que já deixei algures noutro blog! Cruzei-me com o João Mesquita em duas alturas distintas e dele sempre guardei uma recordação muito boa! Estava mesmo à espera que alguém colocasse a questão que acaba de colocar. Ainda bem que o faz!
Embora o meu relacionamento com ele tenha sido marcado no tempo, ainda assim, deu para me “enjoar” (eu gosto de eufemismos com sonoridades parecidas) com algumas coisas que li hoje, nomeadamente na dita imprensa escrita de referência.
Deixo aqui um comentário semelhante ao que já deixei algures noutro blog! Cruzei-me com o João Mesquita em duas alturas distintas e dele sempre guardei uma recordação muito boa! Estava mesmo à espera que alguém colocasse a questão que acaba de colocar. Ainda bem que o faz!
Embora o meu relacionamento com ele tenha sido marcado no tempo, ainda assim, deu para me “enjoar” (eu gosto de eufemismos com sonoridades parecidas) com algumas coisas que li hoje, nomeadamente na dita imprensa escrita de referência.
Nâo o conheci tão bem, como reparo o que referem em alguns post.Mas recordo, apesar de muito vagamente, textos que li nessa época, sobretudo no Independente, acho eu Podia-se escrever com intervenção, sem tantas “mordaças”, acções em tribunal que acabavam muitas vezes vazias de sentenças tão “violentas” como agora em que os juizes aplicam penas altas… e ficou-se esse nome num canto da memória. O sistema é mesmo este: a postura/ética pessoal paga-se na grande maioria das vezes , com um alto preço: o da solidão e o da luta na sobrevivência.
Depois de mortos todos “foram” a nata das natas… E quem diria que estamos no séc. XXI?? E numa “suposta” democracia, com uma ERC tão lapiz azul??
Maria
A verdade incomoda e a verdade incómoda, coisas muito desagradáveis que devem estar na ponta da caneta dos jornalistas mas aparecem tão pouco na comunicação social portuguesa. Um texto exemplar sobre o estado da nossa democracia e sociedade, para além da melhor homenagem ao João Mesquita… não tinha emprego neste sítio.