Matthias Goerne canta Schubert: emoção inultrapassável

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Ou as minhas vivências musicais são extremamente pobres ou tenho razão em afirmar que no Lied (canção) de Schubert nada se pode comparar às interpretações do barítono Matthias Goerne, nem mesmo o lendário Dietrich Fischer-Dieskau. Schubert, também Beethoven, claro, são apontados como os compositores fundadores do romantismo, ainda com laivos de classicismo, manifesto nas primeiras sinfonias de um e de outro. Quanto a Schubert, acho humildemente que a poética e estética romântica está já plenamente consolidada nas centenas de canções (Lieder, no plural) que escreveu ao longo da sua curta vida (1797-1828), pela beleza melódica sombria, pelas temáticas da errância, pela voz solitária em lamento pressentindo a morte. Matthias Goerne, que estudou com Schwarzkopf e Fischer-Dieskau, está presentemente a gravar uma série de albúns dedicados ao Lied de Schubert (o meu amigo Augusto M. Seabra já tinha destacado estes discos como os melhores de 2008; mas, por mim, acho-os mesmo o melhor Lied de Schubert que me foi dado conhecer e não apenas em 2008). Estão publicados o vol 1 e 2, a que se seguirão CDs dedicados aos três ciclos mais conhecidos de canções do compositor austríaco: Die schöne Müllerin/A Bela Moleira (1825), Winterreise/Viagen de Inverno (1827) e Schwanengesang/O Canto do Cisne (1828; deste ciclo já existe uma gravação com Alfred Brendel, e editado pela Decca). Muitas destas canções, a sua maioria, estão escritas em tonalidades menores, sombrias e angustiadas. A voz de Goerne é indescritível: fraseamento perfeito, meditando palavra a palavra, timbre adequadamente sombrio, mas sempre aveludado, nos agudos e nos graves. Nem nos melancólicos e lentos pianíssimos cortantes, nem nos fortíssimos se perde o timbre único de Goerne, está sempre perante nós um universo de angústia e melancolia dito palavra a palavra, sílaba a sílaba, textos de Goethe, Rückert, Schlegel e, por fim, Heinrich Heine. Como neste diálogo entre um jovem e a morte (Der Jüngling und der Tod) de Josef von Spaun:
O Jovem:
O Sol desapareceu
Ah, se eu apenas pudesse ir com ele
Acompanhar os seus últimos raios
Ah, escapar destes tormentos sem nome
E partir para lugares mais justos

Oh, vem Morte,
Liberta-me destas cadeias
Sorrio-te ó esqueleto
Transporta-me cuidadosamente para a terra com que sonho
Oh vem e toca-me
Oh vem

Morte:
Repouso doce e frio te espera nos meus braços
Tu chamas-me, e eu me apiedarei dos teus tormentos.”
Como diria Cesário, tudo aqui nos faz crescer um desejo absurdo de sofrer. Mas, melancolicamente, muito melancolicamente.

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