Círculo de prosa: Uma certa ideia de Portugal

Cliente habitual da vecchia sartoria ecclesiastica Barbiconi, onde encomenda todos os seus tricórnios de plumas e capas de espadachim, chorou ainda há dias o destino da velha Ordem de São Miguel da Ala, espécie de carbonária ao contrário, inventada pelo Senhor D. Miguel, de saudosa memória, para caçar pedreiros-livres e outros malhados, e reduzida agora, por uma juíza do 4.º juízo cível de Lisboa, miseravelmente ignorante dos arcanos da nossa história, a uma reles denominação protegida, como um chouriço ou um presunto, pelas leis da propriedade industrial. Nas procissões do Senhor dos Passos, aonde vai, bem avinhado, todos os anos, aproveita para sacudir o pó ao uniforme e bradar, com outros que tais, contra estes tempos malditos, em que já não há respeito por nada. Mas às vezes tem sorte: quando eu fui ao Norte, no Natal, visitei Guimarães e a igreja de Nossa Senhora da Oliveira, e essa simples evocação levou-o às lágrimas, deixou-o feliz como uma criança: há uns anos, por causa de uma investidura qualquer, tinha desembarcado na cidade de D. Afonso Henriques com a sua capa e espada de cavaleiro, e para seu espanto descobriu que nesse dia (maravilhosa iniciativa do pelouro do turismo do município) decorria uma feira medieval – no cenário perfeito do centro de Guimarães, onde fica a igreja da Oliveira – e todos se vestiam como ele, e ele por uma vez sentiu-se em casa, compreendido e até amado pela população, porque lá no fundo ele acalenta, tímida porém vivaz, a ideia de que um dia o Velho Mundo há-de ressuscitar e Portugal há-de voltar a ser uma enorme superprodução, com trajes à antiga, cavalos em vez de carros e a malta toda a fazer de figurantes – e ele e os seus pares a mandar, claro, por direito natural.

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SEXTA | António Figueira
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5 respostas a Círculo de prosa: Uma certa ideia de Portugal

  1. José António Sousa da Costa diz:

    Vou criar uma associação chamada Grande Oriente Lusytano e depois começo a “iniciar” jovens carreiristas, a dar-lhes graus, a vesti-los com umas fatiotas, a passar-lhes uma espada pelo pêlo. Depois, o Grande Oriente Lusitano vai por-me em Tribunal e, espantem-se os defensores de um “certo Portugal”, o GOL – o que já existia antes de eu ter a mania de brincar aos maçons, vai perder…Lol Bom, com a influência que tem deve ganhar, mas este meu final fica inalterado para não destoar da outra “estória”…

  2. Carlos Fernandes diz:

    Este Sr. Pereira está em todas, de facto, e esta é que é de facto a triste ideia de Portugal de hoje e da sua classe política, que é o oprtunismo e o vira-casaca(ismo): ele está no fado, ele está na política ele está na maçonaria (vi há algum meses numa revista uma foto dele com uma espada maçónica e com um avental qulaquer daqueles que os pedreiros usam e não é para a cozinha) ele está ao mesmo tempo numa anti-maçonaria como essa ordem de São Miguel…
    Só nos saem é duques…

  3. SETE UM hihihihihihihihihihihi

  4. Também gostei da foto de Cavaco na pastelaria, algumas postas acima.

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