Sementes da discórdia?

Na sexta-feira passada, a RTP2 exibiu o documentário Seed Hunter, dramatizando as aventuras de um cientista australiano em busca de variedades antigas de plantas como o grão-de-bico e o trigo. Variedades capazes de resistir às mudanças climatéricas que até já são deploradas pelos agricultores do remoto Tajiquistão. Pelo caminho da demanda do holy grain, outros curiosos sinais dos tempos são revelados, como a homogeneização de culturas causada pelas boas intenções de uma ONG alemã que há uns anos andou por ali a espalhar estirpes de trigo mais produtivas e sápidas. Mas incapazes de resistir aos novos desafios da seca e das temperaturas desembestadas.
Por fim, o Indiana Jones dos cereais lá encontra as sementes arcaicas – mantidas durante décadas por prudentes camponeses tajiques – que irão fazer as delícias dos desesperados fazendeiros australianos. Depois deste obrigatório happy ending, deveriam surgir as questões difíceis: se estas super-plantas tivessem saído dos laboratórios da Monsanto, quanto valeriam? E quanto será pago aos que as foram mantendo e aprimorando, enquanto o mundo moderno optava pela eficiência e pela fragilidade? Continuaremos a ter o “direito” de pilhar e reproduzir o património alheio, mesmo que em nome da ciência ou das nossas necessidades?

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Uma resposta a Sementes da discórdia?

  1. Caro Luís Rainha

    Caso não saiba mas em Portugal existe uma coisa chamada Estação Agronómica Nacional em pleno centro de Oeiras.´
    Vá a Oeiras, quando deixar de ver torres de Betão no Horizonte, está lá!

    Esta estação, entre outras coisas tem a incumbência de conservar variedades de plantas, sementes, castas vínicolas, independentemente de serem ou não usadas comercialmente.
    Existem veriedades que hoje em dia só se podem encontrar em Oeiras.

    Mas parece que este ministro da agricultura acha que isto para nada serve e na Estação Agronómica parece que vão ser transformada em floresta de betão (Unica espécie que a classe política está interessada em preservar)

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