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SABER SER COMUNISTA

8 de Março de 2009 por Carlos Vidal

lenin_leser_pravda1
Lenine
Numa recente carta endereçada por Alain Badiou a Slavoj Zizek encontramos uma das melhores definições não apenas do que é ser comunista, como ainda do momento actual do comunismo perante o seu próprio «factor» como invariante histórica de emancipação; sendo que outra invariante a humanidade não dispõe:
“Nós encontramo-nos no limiar de um ponto de método essencial e no qual, creio-o bem, não há entre nós nenhum desacordo de princípio. Tratando-se de figuras históricas como Robespierre, Saint-Just, Babeuf, Blanqui, Bakounine, Marx, Engels, Lenine, Trotski, Rosa Luxemburgo, Estaline, Mao Tse-Tung, Chou Enlai, Enver Hoxha, Guevara, Castro e alguns outros (e penso nomeadamente em Jean Bertrand Aristide [Haiti]), é ponto capital, sobre todos eles, nada ceder perante as tentativas de criminalização reaccionárias ou perante as anedotas eriçadas com que o capital os pretende fechar e anular. Nós podemos e devemos discutir entre nós (um ‘nós’ que sinaliza aqueles para quem o capitalismo e as suas formas políticas são um horror, um ‘nós’ que nós somos para quem a emancipação igualitária é a única máxima de valor universal) o uso que fazemos, ou não fazemos, dessas figuras históricas. Essa discussão pode ser eventualmente viva e fortemente antagónica, mas ela dá-se ‘entre Nós’, e a nossa regra opõe-se absolutamente a toda a conspiração de latidos do adversário”.
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Enver Hoxha


- Ora bem, primeiro temos de discutir isto entre nós, e isso significa saber herdar conflitualmente todas estas figuras (a que tenho de acrescentar Spartacus, Thomas Müntzer – que liderou revoltas de camponeses no século XV e inspirou estudos de Engels -, Ho Chi Minh ou mesmo Frantz Fanon), pois não temos nada a discutir com quem nos acusa de “milhões de mortos”. Com esses, nada.
Brincar com os números é para crianças e não é um assunto, o assunto é a invariante de emancipação da história da humanidade desde Spartacus.
rosal12
Rosa Luxemburgo

Comentários

Comentário de Luis Rainha
Data: 8 de Março de 2009, 3:52

Lá se esqueceram outra vez do pobre Pol Pot.

Comentário de Carlos Vidal
Data: 8 de Março de 2009, 4:10

Ó Luís, acordado a esta hora e a pensares em Pol Pot??
Então?
Está o Ho Chi Minh, pelo meu punho (o Badiou não o citou, mas a Verso editou-lhe os textos), logo não pode estar o teu ídolo.
Foi o Vietnam do Minh que acabou com o teu Pol Pot.

Comentário de Tiago Mota Saraiva
Data: 8 de Março de 2009, 14:40

Carlos, esse “nós” é que tem sido um dos nossos problemas.

Comentário de LAM
Data: 8 de Março de 2009, 17:01

“primeiro temos de discutir isto entre nós”

lá vai mais um jantar jugulariano….
:)

Pingback de Leitura recomendada « O Insurgente
Data: 8 de Março de 2009, 18:22

[...] Arquivar em: Diversos — Rodrigo Adão da Fonseca @ 6:22 pm “Saber ser comunista”, por Carlos Vidal, no 5 Dias, onde se apresentam e comentam partes de uma carta endereçada por [...]

Comentário de Luis Serpa
Data: 8 de Março de 2009, 19:11

Caro Carlos Vidal,

Costumo achar os seus posts uma das formas da barbárie, pensando que exagero um pouco. Este (ou pelo menos a sua conclusão) faz-me ver que afinal não exagero. Acho que devia postar muitos mais como este e menos dos outros.

Comentário de Jose Simoes
Data: 8 de Março de 2009, 20:21

Mas quem escolhe o “nós”? Os citados estão todos mortos (1 ainda não o sabe). Isso deve ter algum significado.

José Simões

Comentário de Carlos Vidal
Data: 8 de Março de 2009, 20:28

Luís Serpa, eu estou a falar com o meu velho e conhecido colega de andanças há muito pelas bandas da arte contemporânea? (Não?)

Comentário de Luis Serpa
Data: 8 de Março de 2009, 20:33

Não, Carlos Vidal. Sou apenas um homónimo do galerista.

Comentário de Lidador
Data: 8 de Março de 2009, 21:18

A Rita Ferro tem um livro intitulado “Os cromos”.
Acabo de descobrir onde se inspirou para descrever o 1º deles.

Comentário de popeye
Data: 8 de Março de 2009, 22:02

oh essa porfiosa paixao do homem, matar o proximo

é desse filao donde extrairam o carlos vidal que faz com que o business seja sempre as usual, uma espiral sem fim.

liberdade? ahahaah naif, naif

Comentário de popeye
Data: 8 de Março de 2009, 22:23

ler o carlos vidal lembra me um pouco os irmaos karamazov, mais em particular o grande inquisidor, carne da mesma carne,visceras das mesmas visceras

Comentário de Luis Serpa
Data: 8 de Março de 2009, 22:30

Não estou totalmente de acordo consigo, Popeye. Quando as pessoas manifestam um horror qualquer contra alguém da extrema-direita eu costumo perguntar-lhe “e se essa pessoa fosse comunista, importar-se-ia?”. É sempre agradável ver confirmada a ideia de que essa pergunta não é mera provocação, ou retórica. Sobretudo sem ter que ir aos clássicos.

Comentário de miguel dias
Data: 8 de Março de 2009, 22:40

O entre nós onde se discutirá é particularmente comovente. Posso participar como observador, Vidal?

Comentário de lili
Data: 8 de Março de 2009, 22:46

”Depois da Hungria e da Checoslováquia, só se pode ser comunista por ingenuidade ou por perversão”, disse-o António José Saraiva há cerca de 40 anos.

Se V. conseguir levar avante a utopia sem a manchar, como ela foi manchada por todos esses papas por quem está sempre a clamar…

Comentário de Carlos Vidal
Data: 8 de Março de 2009, 22:59

Com as minhas propensões místicas, caro Popeye, devo estar mais próximo de Aliosha, por aquilo que me lembro desse que é, provavelmente, o melhor romance da história da literatura.

Lidador, é sempre bem-vindo. Lamento, mas nunca li Rita Ferro (e não conto fazê-lo nos próximos tempos).
De qualquer modo, qual é o primeiro cromo? Spartacus? (Acho que é o primeiro por ordem cronológica de todos os citados – o primeiro citado por Alain B. é Robespierre.)

Os milhares e milhões de mortos. Morreram milhares na Comuna de Paris, é um facto. Continua, no entanto, a ser das leis da Comuna que ainda vivemos para que nem tudo seja de todo tremendo (na falta de melhor termo).
Leis respeitantes às férias e horário de trabalho, bem como à igualdade entre sexos, liberdades sindicais; leis como o acesso público ao ensino (e, consequentemente, à saúde); leis estruturantes da sociedade civil (casamento, iclusive), etc.

Tiago, a questão do “nós” também me parece decisiva (e é dela que também fala José Simões). Não vejo outra forma de definir esse “nós”: trata-se de uma associação livre entre todos aqueles que têm como projecto a superação do capitalismo tomando como base de análise o pensamento de Marx, na medida em que a fase presente da actividade humana e do ser humano ou humanidade genérica ainda permanece a da sociedade da alienação, da fetichização e da exploração e expropriação da força de trabalho e, dirá Guy Debord, de toda a vida confinada à espectacularização. Ou seja, não se trata apenas de uma expropriação do trabalho para a formação do capital, mas também de uma expropriação da linguagem. Associamo-nos livremente ainda para defender e analisar todas as tentativas de superação de todas as formas de exploração – esclavagista (Spartacus), feudalista (Thomas Müntzer), colonialista e imperialista (Fanon) e capitalista (Marx). Nesse sentido, dispomos da genealogia que Alain Badiou refere e à qual adicionei alguns nomes, lista providenciadora de estratégias e estrategos, nomes que sinalizam pressupostos que assumimos numa, repito, livre discussão não redutora (isto é, não criminalizadora). A essa livre associação, “nós” chamamos democracia. Nome que não confundimos com o parlamentarismo.
Porque, repito Badiou, o voto não é um acto político, o voto é um acto de Estado. Clarificando, a discussão entre “nós” processa-se de modo diferente daquela que se estabelece entre “nós” e os que não se fidelizam livremente a nenhum processo de emancipação.

Comentário de lili
Data: 8 de Março de 2009, 23:02

Mas enquanto uns tantos como V., por exemplo, que não tiveram que viver os horrores criminosos, que os tais ”papas” do marxismo perpretaram, lhes andam a cantar loas aos feitos, os outros, os que tiveram que sofrer esses horrores fazem petições como estas que a seguir transcrevo:
The victims of Albania’s late Stalinist dictator Enver Hoxha picked his 100th birthday on Thursday to ask parliament to stop delaying a resolution to condemn the crimes of communism.
The former political prisoners protested at government offices and parliament, holding placards saying “Condemn the Crimes of Communism”, “Hoxha, the Most Cruel Dictator in Europe” and “A European Albania without Communist Dogmas”.

They also carried pictures of 5,037 men and 450 women executed under Hoxha’s rule as they marched in downtown Tirana. Under Hoxha, who ruled Albania for 40 years from 1945, up to 34,135 people were jailed, including 1,000 who died and 308 who went mad.

At parliament’s gates, Besim Ndregjoni, secretary of the Association of Former Political Prisoners, asked Jozefina Topalli, the Parliament Speaker who comes from a persecuted family herself, why parliament did not condemn his crimes.

“It is two years now that (the Council of) Europe says you should condemn the crimes of communism, but you keep silent and have coffee with our jailers,” Ndregjoni said, referring to some leftist leaders who were once ministers under communism.

“Failure to condemn them is a shame for the nation. It is justice to do so, not vengeance,” Ndregjoni added.

The former prisoners, whose properties were expropriated by Hoxha’s wave of nationalisation, complained they have not been compensated or given their properties back despite voting for Prime Minister Sali Berisha’s ruling Democratic Party.

Although still largely rural, Albania has seen fast economic growth of six percent and a building boom in recent years.

Before the ex-prisoners’ protest, Hoxha’s widow Nexhmije, 86, visited his grave accompanied by diehard supporters. He died in 1983.

Hoxha’s remains were transferred to the public graveyard after Berisha, as president in 1992, ordered them removed from the Martyrs of the Nation cemetery. ( http://209.85.229.132/search?q=cache:pd2nYsK4ztAJ:www.javno.com/en/world/clanak.php%3Fid%3D193157+Enver+Hoxha+crimes&hl=pt-PT&ct=clnk&cd=3&gl=pt )

Comentário de Carlos Vidal
Data: 8 de Março de 2009, 23:13

lili,
grato pelo seu comentário.
Espero, esforcei-me para tal, que o meu comentário das 22:59 tenha respondido ao essencial das suas questões.

Comentário de miguel dias
Data: 8 de Março de 2009, 23:51

( se o Vidal permitir que se comente um comentário)
Cara lili, não seja criancinha:
Como diz, e muito bem, o CV, discutir números é coisa de criancinhas. Já dizia o grande Stalin, que a morte de um homem é uma tragédia. A morte de um milhão é uma estatística.

Comentário de lili
Data: 8 de Março de 2009, 23:59

Pois, ele nessa da tragédia, errou só com ele – a morte dele foi pouco trágica.

Comentário de Carlos Vidal
Data: 9 de Março de 2009, 0:01

miguel dias (informalizando o tratamento, e já que queres ser parte ou observador da reunião do “nós”), se te incomoda a frase do Estaline, sempre o podes trocar pelo Lenine, que esse sim sabia que há um momento histórico em que não podes hesitar em ser fiel a um acontecimento que desconheces o desfecho: a revolução ou é isso ou não é nada.

Comentário de Miguel Madeira
Data: 9 de Março de 2009, 0:08

“Está o Ho Chi Minh, pelo meu punho (o Badiou não o citou, mas a Verso editou-lhe os textos), logo não pode estar o [Pol Pot]”

Está lá o Estaline e o Trotsky… (além de dois revolucionários burgueses – porque não Jean Varlet ou Jacques Roux em vez de Robespierre e Saint-Just?)

Comentário de miguel dias
Data: 9 de Março de 2009, 0:39

Vidal, como africano nunca trato um mais velho por tu, e mesmo que me seja concedido o privilégio, o que me parece ser o caso, causa-me algum desconforto. Mas já que me abriste a porta eu entro.
O Stalin e as suas frases, nunca me incomodaram. Talvez os bukarines, os zinovieves, os kamaneves se sentissem ligeiramente perturbados, vá se lá saber porquê.
Há que no entanto sublinhar um nome que citas, Fanon, que muito influenciou o maior dos revolucionários de língua portuguesa, que lamentávelmente olvidaste. Refiro-me a Amílcar Cabral, que aplicando, reviu e ampliou o teu querido Mao, e tal como Lenine (mas superior, muito superior), teve o seu Staline personificado em Nino Vieira.

Comentário de miguel dias
Data: 9 de Março de 2009, 0:43

Já agora:
já há datas para a convenção?

Comentário de Luis Serpa
Data: 9 de Março de 2009, 2:15

“um momento histórico em que não podes hesitar em ser fiel a um acontecimento [de] que desconheces o desfecho: a revolução ou é isso ou não é nada.”: Lenine, ou Hitler? Ou, mais provavelmente, os dois?

Comentário de Lidador
Data: 9 de Março de 2009, 11:06

“De qualquer modo, qual é o primeiro cromo? Spartacus?”

Devia ler.
O 1º cromo é o “Intelectual Estúpido”.

De qq maneira, eu também me disponho a discutir entre “nós”.
Digamos que faço de Estaline e você de Trostky.
Não é por nada, é que tenho aqui uma picareta…

Comentário de Lidador
Data: 9 de Março de 2009, 11:16

Já agora, Carlos Vidal, eu entendo a sua visão.
Você pensa que no advento da distopia, estará do lado dos que mandam e evidentemente, os que mandam estarão bem.

Pelo que escreve, o Carlos Vidal é uma vítima das más leituras. Empanturrou-se de lixo ideológico e já não tem espaço para mais leituras.
Um livrinho simples, onde pode encontrar tudo, escrito de forma clara e quase infantil, é o “Animal Farm”.

Está lá tudo.
Os “nós” que começaram imbuídos da grande fé na utopia de uma quinta melhor, sem exploração, etc.
Os ´”nós” que passaram a ser “nós” e “eles”. O terror lançado pelos “nós”, sobre os que agora já eram menos “nós”.
O culminar da distopia, em que os “nós” era apenas um.

Você pensa que é esse “nós”.

Faça um exercício intelectual à John Rawls.
Cubra-se de um véu de ignorância, pelo qual você não sabe se nessa sociedade que imagina, não sabe se é homem, se é mulher, se é rico, se é pobre, se é criminoso, se é santo, se é “nós” ou se é “eles”.
E imagine-se a aterrar nela sem ser dos “nós”.

Comentário de Lidador
Data: 9 de Março de 2009, 11:24

“Se V. conseguir levar avante a utopia sem a manchar, como ela foi manchada por todos esses papas”

Ah, o grande “se”.

Esta é a resposta padrão dos jovens doutrinados relativamente à fraca qualidade dos frutos do socialismo.
A ideia é boa, mas os homens não a souberam por em prática.
Ou seja os factos não servem como critério, mas sim as intenções, razão pela qual o seu colapso é imputável ao mundo e não ao conceito em si.
Alcançou assim o estatuto de crença religiosa. Tal como em qualquer religião, a bondade de Deus nunca está em causa, mesmo que o templo desabe sobre os fiéis.
Perante a terrível ditadura dos factos que o que se passou no país X, não foi o “verdadeiro socialismo”.
Claro que um nacional-socialista, pode também dizer que aquilo não foi o “verdadeiro nazismo” e um fascista não perderá a oportunidade para dizer Mussolini não realizou o “verdadeiro fascismo”.

Em suma, o marxismo é uma magnífica videira da qual, por culpa da maldade humana, só brotam cogumelos venenosos.
Mas a culpa não é nunca da videira!

Postas as coisas nestes termos, a culpa do falhanço não é pois da doutrina “em si”, mas sim do malvado homo sapiens, que não se adapta à doutrina da colmeia.

Desça à terra, Carlos Vidal. Imagine uma corrida de carros na qual 50 fantásticos automóveis marxistas, os melhores do mundo, entram na corrida, pilotados por diferentes pilotos, nem todos incompetentes, frustrados ou mal intencionados, em competição directa com desprezíveis carros capitalistas e outras carroças de modelos vários.
Lançada a corrida, 48 bólides socialistas atrasam-se, despistam-se e acabam por desistir ao fim de várias voltas. Restam 2 que já levam várias voltas de atraso e dificilmente acabarão a corrida.( podem ser a Coreia do Norte e o Zimbabwe, por exempo)

Qual a explicação lógica? O carro ou os pilotos?
O Carlos Vidal recusará que o carro é uma merda e dirá que os pilotos eram todos maus.
E acredita que o carro funcionará melhor se conduzido por um piloto diferente, um “piloto novo”, que tenha um corno debaixo do nariz, e um rabo com dois orifícios.

Entretanto, a escuderia capitalista, com o seu modelo “democrático liberal”, que se adapta ao piloto tal como ele é, e não como ele “deveria ser”, vai dando um bigode monumental ao bólide marxista.

Gente com bom senso, percebe que o modelo marxista nunca irá funcionar porque a malta é teimosa e recusa-se a ter um corno debaixo do nariz e dois buracos no rabo.
Mas o Carlos Vidal acredita…tem fé…é muito religioso…e berra contra os carros capitalistas, dizendo que têm riscos na pintura, que os assentos não são forrado a pele genuína, que atropelaram um gato, e que se vão estampar não tarda nada.
E cada vez que um deles abranda ou muda um pneu, o crente
rejubila, espeta as orelhas e profetiza que agora é que vai ser o fim da “escuderia capitalista”.
E anda nisto há quase 200 anos!

Comentário de Carlos Vidal
Data: 9 de Março de 2009, 11:45

Eu sei, Lidador, eu sei de onde você vem. O tema do “intelectual estúpido” é do seu grupo e blogue (têm outras publicações? Também não é necessário, para mim não é necessário) já há anos. Vocês não têm outro tema e no vosso blogue, de que não me lembro o nome (a sério) essse tema está se não me engano logo no ponto 1. Também creio conhecer as suas inspirações e filiações “internacionais”. É mais fácil querer arrasar os intelectuais estúpidos (que para si são os comunistas, se calhar, e para mim é a malta da “esquerda moderna”, todos temos os nossos alvos), é mais fácil isso do que Estaline voltar a mandar matar Trotski, porque uma política de emancipação actual não tem estratégias copiadas do passado. Não se pretende repetir nada, por isso guarde lá a picareta. Ela cair-lhe-á em cima inevitavelmente, agora ou nos próximos 50 anos, a coisa é imprevisível e não calendarizada.

Luís Serpa, de novo. É Lenine, claro, o símbolo da fidelidade ao desconhecido, ao desfecho imprevisível (atacamos e depois logo se vê). Hitler não cabe aqui, Hitler queria um Reich de mil anos. E isso não tem nada a ver com o que eu disse. Pense noutra provocação.

miguel dias, Fanon inspirou Amilcar Cabral, é verdade. Viveu, combateu e morreu como resistente. Não sei se Nino foi o seu Estaline.

Por último, Miguel Madeira, é verdade, não se pode falar da revolução sem falar em Varlet e Roux, os famosos Enragés. Mas, como falar da revolução sem os jacobinos Robespierre e Saint-Just, sem os jacobinos, dizia eu, aos quais Varlet também se ligou e muito depois da morte de Robespierre (1794), em 1799, julgo, ainda por lá, no clube jacobino, vamos encontrar Varlet.
Mas a sua pergunta deve ser respondida por Badiou que apenas excluiria da revolução, claro, os termidorianos.

Comentário de Carlos Vidal
Data: 9 de Março de 2009, 12:01

Ainda uma outra questão, caro Lidador. Vamos, fique contente em termos um inimigo comum (é verdade): a maltosa da chamada “esquerda moderna”, “jugulares” e “esquerda democrática” como lhe disse, e como o meu caro sabe. Mas isso não chega para sermos “aliados”.

Comentário de Lidador
Data: 9 de Março de 2009, 12:02

“os intelectuais estúpidos (que para si são os comunistas,”

Você é muito linear.
Há comunistas estúpidos, claro. Os sinceros.
E há os inteligentes. Os cínicos.

Mas fora de brincadeira.

Porque é que você acha que tendo as experiências comunistas falhado todas, e todas elas tendo descambado na miséria, na repressão e em sociedades onde o sapiens não vive como tal, a próxima “tentativa” será bem sucedida?

Acredita mesmo que aqueles que acreditaram e tentaram eram todos estúpidos ou mal intencionados?

Se os factos não o ancoram à realidade, então em que se distingue a sua crença de uma fé religiosa?

Não oferecem as religiões, paraísos melhores que a sua?

Comentário de Carlos Vidal
Data: 9 de Março de 2009, 12:17

De facto, os paraísos das religiões não são de todo estapafúrdios. Por isso é que eu não sou anticlerical primário (a comunidade imaginada e gizada por Cristo é extremamente revolucionária). E não sou anticlerical primário da mesma forma que o meu caro Lidador é anticomunista primário. Paciência. Mas, como viu, tenho espírito religioso, por isso …….
Agoa repare. Até podíamos ser pontualmente aliados. O meu caro vem de um pensamento extremo (à direita?) e eu venho de outro (à esquerda? Não sei). Para além de abominarmos a “esquerda moderna” (guarde a picareta para o PS/Sócrates, sff), podíamos ter um ou outro autor comum interessante. Carl Schmitt ?? Diz-lhe alguma coisa ??
Continue a provocar e a raciocinar. Conheço-o também como “lutador”.
Por mim, volto ao fim da tarde.

Comentário de Carlos Vidal
Data: 9 de Março de 2009, 12:24

E esqueci-me de uma coisa. Referi antes a centralidade do pensamento de Marx para uma qualquer política de emancipação e liberdade.
Quanto à Coreia do Norte e ao Zimbabwe (???????), não vejo a relação.
Provoque melhor para a próxima.
Como dizia o outro: try again, fail again, try again, fail better.

Comentário de almajecta
Data: 9 de Março de 2009, 12:30

pois é, o espírito do enver-hoxa encarnou no nosso grande Augusto S.S. ministro da propaganda PS e o do grande stalin anda desencarnado da esquerda democrática, ou não?
Uma nota: evitar tratar os homens do norte por bócê e os africanistas por tu, mesmo os não secúlos.

Comentário de Lidador
Data: 9 de Março de 2009, 13:56

“O meu caro vem de um pensamento extremo (à direita?) e eu venho de outro (à esquerda?”

Engana-se. O meu “extremismo” é pela democracia liberal. Aquela coisa de, tanto quanto possível, ser eu mesmo a decidiir o que é melhor para mim, não sei se está a perceber.

“Carl Schmitt ?? Diz-lhe alguma coisa ??”
Sim, na fase pós-nazi. Na definição do “inimigo público” como um organismo que em nome de um princípio absoluto ameaça a destruição do ecossistema onde vive. Um inimigo a quem não se aplica a regra cristã, do oferecimento da outra face. É nesta perspectiva que encaro o comunismo, o nazismo, o fascismo, o islamismo. Como “inimigos públicos” existenciais.

“Quanto à Coreia do Norte e ao Zimbabwe (???????), não vejo a relação.”

Ah, tem razão. Também não foram, por má fortuna, os exemplos do “verdadeiro marxismo”.
Para a próxima é que é….

Por mim, volto ao fim da tarde.

Comentário de lili
Data: 9 de Março de 2009, 14:06

Victor Serge said, ” I followed his argument
With the blank uneasiness wich one might feel
in the presence of a logical lunatic”
He said of Kosntatinov. Revolution
Is the affair of logical lunatics
The politics of emotion must appear
To be an intellectual structure.

- Wallace Stevens, ”Esthétique du Mal”, XIV, cit. in At The Same Time, By Susan Sontag

Comentário de popeye
Data: 9 de Março de 2009, 14:18

luis serpa, os classicos sao essenciais, como instrumento de pesquisa cientifica

alem do grande inquisidor o CV lobriga-se na figura de kurtz, no seu solipsismo intelectual, no seu descontentamento pelo mundo, e no mundo que lhe enterra o cadaver no lodo, um “extremista” – assim entre aspas

Comentário de Lidador
Data: 9 de Março de 2009, 15:08

Curiosa a imagem do kurtz.
De facto se o Carlos Vidal existisse como escreve, bem se podia considerar um derivado da personagem de Conrad, bem embrenhado no coração das trevas, a falar do horror.
Ou, melhor ainda, na versão vietnamita do Apocalipse Now, apelando ao “drop the bomb”, para arrasar o que se conhece e permitir o nascimento do “mundo novo”, que se acredita habitado por homens novos, homens anjos, sem defeitos, sem vícios, sem desejos, vivendo em harmonia, de túnica branca e tangendo harpas.

Mas na realidade o Carlos Vidal é um burguês. A “revolução” é um derivativo religioso. Há homens que foram deserdados de deus e necessitam desesperadamente de algo transcendente em que acreditar.

No fundo o CV tem uma mentalidade nobre. Sente necessidade de estar ao serviço de algo maior que ele.
É um D. Quijote….arremetendo nobremente pelo ideal cavaleiresco e que só existe enquanto tal.
O D Quijote real, que tem dores nas articulações e se peida debaixo dos lençóis, não existe neste plano imanginário em que o CV gostaria de ser.

Comentário de popeye
Data: 9 de Março de 2009, 15:56

exacto, exacto, no fundo é a velha escola anti-racionalista, é uma necessidade mais que humana emparedada numa cidade de sonhos

é o romantismo possivel pos-foucault, ou melhor, pos-cristianismo

Comentário de popeye
Data: 9 de Março de 2009, 16:11

o CV é da mesma estirpe que é feita os apostolos, esperar que se evapore é o mesmo que esperar que amanha o sol nao se ponha

Comentário de miguel dias
Data: 9 de Março de 2009, 16:26

Segunda nota: Alma bocê pode-me tratar por tu.

Comentário de almajecta
Data: 9 de Março de 2009, 19:37

Acabo de ler um escrito de V. Exª, onde, a propósito de faltas de bom senso e de bom gosto, se fala com áspera censura da chamada escola de Kurtz, e entre dois nomes ilustres se cita o meu, quase desconhecido e sobretudo desambicioso.(…)
Não é traduzindo-se os velhos poetas sensualistas da Grécia e de Roma; requerendo fábulas insossas diluídas em milhares de versos sensabores; não é com idílios grotescos sem expressões nem originalidade, com alusões mitológicas que já faziam bocejar nossos avós; com frases e sentimentos postiços de académico e retórico; com visualidades infantis e puerilidades vãs; com prosas imitadas das algaravias místicas de frades estonteantes; com banalidades; com ninharias; não é, sobretudo lisonjeando o mau gosto e as péssimas ideias das maiorias, indo atrás delas, tomando por guia a ignorância e a vulgaridade, que se hão-de produzir as ideias, as ciências, as crenças, os sentimentos de que a humanidade contemporânea precisa para se reformar como uma fogueira a que a lenha vai faltando.(…)
A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. Exª precisa menos cinquenta anos de idade, ou então mais cinquenta de reflexão.
É por estes motivos todos que lamento do fundo de alma não me poder confessar, como desejava, de V. Exª.
Nem admirador nem respeitador

Comentário de Carlos Vidal
Data: 9 de Março de 2009, 20:11

Ó Grande Alma, temos de ser nós a elogiar a grande Kurtz para esta malta perceber o que está aqui em jogo.
Até o Lidador, inato combatente, parece não ter percebido o essencial deste texto, pois isto aponta exactamente para o contrário do que esse conhecido comentador e blogger supõe. O meu escrito, ou melhor, o escrito de Alain B., fala-nos de uma anti-sublimação na edificação da revolta e na instauração de uma sociedade emancipada. Em cima, o Mao, que venero, diz contrariamente ao Lidador e ao seu discípulo popeye, que mesmo numa sociedade sem classes (dirá popeye, um lugar de “anjos e apóstolos”), mesmo aí a luta contra qualquer coiosa (há sempre qualquer coisa) não pára!
Por isso, no meio deste materialismo abjecto e orgânico, só me resta precisamente elogiar o Quixote que se peida debaixo dos lençóis e se queixa das dores das costas e do reumático dos bravos.
“Derivativo religioso”? Sim, talvez, mas da religião enquanto combate – S. Paulo (a matriz de Lenine) e Cristo (o da espada).
Coisa de apóstolos? Lenine, Robespierre, a porrada nos franceses de Minh, não me parece nada disto coisa de apóstolos.

Claro que, Lidador e popeye, o elogio da violência (necessária) está aqui implícito e nada de angelismos por cá vejo. Depois da coisa rebentar, e já não deve faltar muito, veremos quem está melhor preparado – se o “nós” (!) se o Lidador e os seus. Mas, sublimação aqui não tem lugar. Lidador, você lê bem mas aqui não leu nada bem.

Comentário de almajecta
Data: 9 de Março de 2009, 20:20

ou isso.
e a madrecita?
«He desposado a Nadejda Kroupskaia, única mujer capaz de comprender a Marx y de jugar al ajedrez.»

Lenin

Comentário de lili
Data: 9 de Março de 2009, 20:38

O Carlos Vidal hoje deve estar mais alegre, chegou uma espécie de dinossauro do marxismo-leninismo que ele tanto advoga.

Comentário de almajecta
Data: 9 de Março de 2009, 20:40

A direção estatal do proletariado significa que:

a) a burguesia já foi derrubada.

b) o proletariado encontra-se no poder,

c) o proletariado não divide o poder com outras classes,

d) o proletariado constrói o socialismo, conduzindo as massas fundamentais do campesinato.

Já a direção do proletariado na revolução democrática burguesa com a ditadura do proletariado e do campesinato, significa que:

a) o capitalismo continua a ser o fundamental,

b) no poder, encontra-se a burguesia democrática revolucionária que representa a força predominante na composição do poder,

c) a burguesia democrática divide o poder com o proletariado,

d) o proletariado liberta o campesinato da influência dos partidos burgueses, dirige-o ideológica e politicamente, e prepara a luta para derrubar o capitalismo.

Como vedes, a diferença aí é radical.

Comentário de popeye
Data: 9 de Março de 2009, 21:22

engana-se apostolo, estamos todos um pouco como a viuva amantissima de kurtz

chorando-lhe a morte, so to speak

o resto deixo para os mestres de escola

Comentário de almajecta
Data: 9 de Março de 2009, 23:32

Rosa, quando já ninguém se recorda dos velhos pusilânimes da social-democracia e dos cínicos do estalinismo, nem dos grandes retóricos ardilosos do nacional-populismo, o pensamento de Rosa Luxemburgo continua a provocar polémicas teóricas e a apaixonar as novas gerações. O seu espírito insubmisso e rebelde assoma à cabeça – coberta por um elegante chapéu, naturalmente – em cada manifestação juvenil contra a mundialização , as guerras imperialistas e a dominação capitalista das grandes firmas multinacionais .

Ninguém que tenha sangue nas veias e um mínimo de independência de critério perante os discursos do poder pode ficar indiferente perante ela. Amada e admirada pelos jovens mais radicais e combativos em todos os lugares do mundo, Rosa continua a ser, no século XXI, sinónimo de rebelião e revolução, esses fantasmas atrevidos que “a nova ordem mundial” não pôde domesticar. Nem com tanques e invasões militares, nem com a ditadura dos orgãos de comunicação social. Actualmente, a sua memória desatina e desafia a triste mansidão que propagandeiam os medíocres com poder.

Comentário de Carlos Vidal
Data: 10 de Março de 2009, 0:08

Magnífico almajecta.

O Grande Alma, de quando em vez, enreda-nos em magníficas citações, por vezes dele próprio.

Tenho que destacar:

“(…) quando já ninguém se recorda dos velhos pusilânimes da social-democracia e dos cínicos do estalinismo, nem dos grandes retóricos ardilosos do nacional-populismo, o pensamento de Rosa Luxemburgo continua a provocar polémicas teóricas e a apaixonar as novas gerações.”

Comentário de lili
Data: 10 de Março de 2009, 0:18

Epitáfio de Rosa Luxemburgo

Aqui jaz
Rosa Luxemburgo,
judia da Polônia,
vanguarda dos operários alemães,
morta por ordem dos opressores.
Oprimidos,
enterrai vossas desavenças!

- Bertolt Brecht -

Comentário de Tiago Galvão
Data: 28 de Setembro de 2009, 3:59

assisti este debate dos comentários. sou uma pessoa que teoriza pouco sobre como milhões se devem auto-gerir. sou ignorante (embora extremamente curioso) sobre toda essa teoria mas prefiro não ser presunçoso, e esta é a minha única presunção – tinha de ter uma. deixo para outros, os partidos, partidários, ideólogos lançar o debate e expresso-me da forma medíocre que é o voto.
nunca perceberei o que leva as pessoas interessarem pela política. conheço-a bem, percebo-a bem. está no meu dia-a-dia. desde pequeno, quando lidamos com outros, percebemo-la. não percebo é toda a histeria depois quando é transposta para quando pensamos não no que nos cerca imediatamente mas no que cerca milhões. aí sim entramos no campo da especulação. é saudável. há que especular. mas o que vejo é que quem está lá em cima, quando está lá em cima, já só especula. inspecciona-nos por binóculos, sondagens, assessores e estatísticas, talhantes e bisturis.
sou orgulhosamente ignorante. sobre tudo os que querem chegar lá acima dizem querer para mim. não sou ignorante sobre o que fazem quando lá chegam. sinto-o na pele, sentimos na pele.
quando é que todos votamos em branco? quando é que admitimos todos que não sabemos? esta é a verdadeira utopia. acreditar que isto pode acontecer. mas é também ingenuidade? sinto que estou a dizer algo verdadeiramente ingénuo, muito frágil e facilmente contrariado, mas não vos parece bem melhor essa ideia do que perpetuar esta farsa? quando é que esta merda tem fim? eu não defendo nada que tenha acontecido. eu nem estou a defender nada que faça. eu votei em alguém, não em branco. eu defendo que todos o façamos, diariamente. desacreditando o discurso político, desacreditando os media, desacreditando o sistema, desacreditando os partidários, desacreditando, em conjunto agora sim, que isto é o melhor que conseguimos em conjunto. e por último, quando já fizermos tudo isto, que se vá votar em branco em massa.
depois logo vemos. em conjunto. se a farsa se desmontasse, não seria tudo mais claro? digam-me lá. estão já a pensar que ideologia beneficiaria com isto? nenhuma existente. medo de descobrir?
ou continuemos neste marasmo, mas, por favor, refutem-me, porque achar que isto é certo custa. por favor digam-me que não é tão óbvio. digam-mo sinceramente. eu quero acreditar naquele ali da televisão. eu quero acreditar em frases de sei lá quem. digam-me onde ir! digam-me que eu leio! digam-me em quem acreditar. digam-me em que acreditar senão nisto.

Comentário de Fernando Lacerda
Data: 8 de Dezembro de 2009, 12:48

Só uma coisa sabemos; e com certeza: tanto o capitalismo (dito selvagem) e o socialismo (dito científico), naufragaram inexoravelmente. O mais, é balela. Quem tem olhos de ver sabe que só sobrevive (e floresce), incontestavelmente, o socialismo.

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