O julgamento do caso “Apito Dourado” conheceu um dos seus melhores momentos na quinta-feira passada, quando o Juiz-Conselheiro (jubilado) António Mortágua, ex-Presidente da Comissão Disciplinar da Liga e do Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol, depondo na qualidade de testemunha de Jorge Nuno Pinto da Costa, reconheceu que a compra de árbitros era uma prática corrente na primeira divisão do futebol português em 2003/2004, época a que se reporta o caso sub judice do alegado suborno de Augusto Duarte, juiz da partida Beira-Mar-F.C.Porto, pelo Presidente portista. Apesar de generalizada, tal prática não terá contudo ocorrido no jogo em questão, garante António Mortágua, que apresenta para defender esta posição um argumento técnico aparentemente imbatível: é que o dito suborno era de apenas 500 contos, e essa quantia, garante ele, não chegava na altura para pagar “nem o aquecimento” de um árbitro (sic). Em abono da sua tese sobre o elevado custo dos subornos então praticados, António Mortágua citou mesmo um caso de que teve conhecimento directo: “Recordo-me de um Feirense-Beira-Mar [...] Ouvi na rádio que o árbitro nomeado teve um incidente e não pôde apitar, quando se sabia que ele tinha recebido 1500 contos de cada um dos clubes envolvidos”.
Estas pitorescas declarações de António Mortágua suscitam muitas e variadas questões, umas de ordem metafísica e mesmo religiosa, outras mais baixamente terrenas e da ordem do político. Com efeito, quando se pensa que entre 2003 e 2009 pouco ou nada deve ter mudado para melhor no futebol português, é forçoso concluir que só a fé, a tal que move montanhas, pode levar todas as semanas algumas dezenas de milhares de pessoas (incluindo este vosso blogger) aos estádios de futebol na expectativa de assistirem a um espectáculo desportivo honesto. Por outro lado, e descendo à cidade dos homens, é preciso perguntar o que fazia o Sr. Dr. Juiz Mortágua nesse covil de bandidos e quando é que o Conselho Superior da Magistratura impõe de vez um cordão sanitário entre a magistratura e o futebol, que impeça outros Mortáguas que tais de se passearem na Liga e na Federação para desprestígio da justiça portuguesa.




O futebol português faz-me lembrar a casmurrice de um neoliberal a discutir economia: é clubite pura. E depois fazem estas figuras tristes:
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/03/inutilidade-do-debate-com-quem-nao-quer.html
Mais um belo post de um homem íntegro, mais ou menos vertical, preocupado com o bem comum e algumas vezes também em salvar o mundo, um homem comum que simplesmente gosta de futebol e gostaria de saber que quando vai aos estádios vai ver um espectáculo limpo, enfim um adepto do fair play, amargurado com a sabujice que há anos vê no futebol português.
Já agora, só uma dúvida: é do benfica ou, então, do sporting, não é? Ah, bem me parecia. Então um conselho: aprendam a jogar à bola e a ser sérios, porque os gloriosos tempos do pré-25 de Abril (em que a distribuição oficial de campeonatos era feita segundo a regra 3 para o benfica, 1 para o sporting) não voltam mais. Habituem-se…
Caro Atónito,
O seu comentário é uma forma de enfiar a carapuça – eu não pedia tanto, mas V. lá sabe. Ao que eu acho mais graça é à sua justificação para a roubalheira, que parece a de alguns líderes africanos: como o colonialismo foi horrível, nós somos iguais ou piores (uma espécie de vingança histórica, que faz de Pinto da Costa uma espécie de Mugabe do futebol português).
Cumprimentos, AF
Quer-me cá parecer que ainda vamos ouvir destas histórias noutros processos mais mediáticos. Que “as ajudas” eram normais, que não houve erros nesse jogo ou que os actos eram lícitos…
Será que a este Juiz-Conselheiro, quanto mais não seja após estas declarações, não lhe sucede nada?
O mais extraordinário são esses 1.500 contos alegadamente pagos por ambos os clubes: como é que se desempata? Anulam-se e que ganhe o melhor? Faz-me lembrar uma história que me contaram há uns anos, sobre corrupção de examinadores de condução. Uma aluna fazia o exame prático, devidamente acautelada por pagamento prévio do pai. Chumbou. Porquê? Cometeu limite máximo de faltas graves: pagamentos podem fazer fechar os olhos a uma falta menor, mas o que é demais é exagero, segundo esta ética distorcida. A história foi-me contada por um instrutor de condução, que me assegurou que era assim que as coisas funcionavam no milieu: pagamento é da praxe, espécie de ritual mágico propiciador dos deuses, mas sem garantia de resultados (nem devolução dos montantes avançados).
Essa do Pinto da Costa ser um Mugabe do futebol português soa a julgamento popularucho, talvez parecido com alguns que por certo acontecem no país do Mugabe. Felizmente em Portugal quero acreditar que haja tribunais, e que os juízes não sejam nem o senhor presidente do Benfica, nem os senhores directores dos jornais A Bola ou Record, nem o António Figueira.
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