Obsessões

“O ciclismo é uma decisão pessoal de ser forreta, saudável e mais sacrossanto do que os demais. Em vez de pedinchar benefícios fiscais, haviam de pagar imposto por stressarem os automobilistas e armarem-se em bons enquanto stressam. Comprem um veículo eléctrico; aceitem a preguiça humana e calem-se de uma vez por todas”.

Miguel Esteves Cardoso, PÚBLICO, 27-02-2009

2215500430_e227ec1e6e_o1

Ontem foi publicada, nas “Cartas ao Director” do Público, uma resposta minha a este artigo. Eu tinha enviado duas versões, uma mais truncada, outra mais cáustica. A publicada foi a truncada. Eis a outra:

Miguel Esteves Cardoso, na sua coluna de 27/02/2009 neste jornal, revela-se “stressado” face a uma iniciativa, tomada por mim e subscrita por milhares de cidadãos, de eliminar uma incoerente exclusão dos velocípedes (motorizados ou não) do plano de benefícios fiscais para veículos não poluentes previsto na Lei de Orçamento de Estado para 2009.
Neste artigo dedica-se o cronista a um exercício de adivinhação e condenação dos motivos que levam alguém a optar por utilizar um velocípede como veículo.
Em particular, releva ostensivamente o tópico da saúde, quando aborda uma petição que não o refere uma única vez, denotando uma inegável obsessão com o tema. A palavra “coerência” é das que mais vezes surge no texto. Assim, nota-se não só que ao cronista  a coerência merece desprezo, como também que, ironicamente, é do seu lado que está presente esta obsessão com a saúde que imputa aos utilizadores de velocípedes.


Da sua parte, que há dias, numa entrevista radiofónica, se auto-elevava à  sobranceira posição de “sábio”, aliás reforçada neste artigo, em que se propõe impingir a todos uma forma locomoção que “não o strésse” enquanto automobilista,
constata-se uma total falta de comedimento, coerência, temperança ou mesmo noção de ridículo. É o que dá obrigar a escrever todos os dias alguém que já não tem ideias para tanto. Talvez fosse de remeter o cronista aos blogues, para bem dos leitores e dele próprio.

Pela minha parte, a utilização de bicicleta foi de facto, como diz Miguel Cardoso, uma decisão pessoal, mas a principal motivação foi chegar ao trabalho mais rápido do que se fosse de transportes públicos ou automóvel. Abstendo-me de adivinhar as razões pelas quais cada um escolhe a utilização de um meio de transporte em deterimento do outro, gostaria de ver uma convivência respeitadora na estrada e espaço público, e uma coerência nas leis (neste caso fiscais) que os regulam.
Por fim, garanto que, para mim e muitos outros, e para o espírito e letra da petição, o velocípede não é um transporte “alternativo”, mas tão-somente o veículo que utilizamos. Nas leis e na fiscalidade, a única coisa que desejamos, é que seja tratado com coerência.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

17 Responses to Obsessões

Os comentários estão fechados.