O turista acidental, remake

Sturm und drang: passado o estupor inicial, provocado pelo efeito de novidade, até para os costumes políticos africanos, notoriamente dados à invenção, da figura do “interassassínio”, a imprensa portuguesa dividiu-se, na morte de Nino Vieira, entre os piedosos, tipo Rui Tavares (com frases como: Não abandonem a Guiné Bissau! ou O que faz a CPLP?*), e os sanguinolentos, para os quais a grande questão a elucidar era se as mãos do ex-Presidente tinham sido cortadas à catanada com ele em vida ou já cadáver; escapou infelizmente a todos a grande notícia dentro da notícia, a presença em Bissau na hora do drama de Frederick “Jackal” Forsyth, qual turista acidental, que foi buscar lã para o seu próximo thriller e quase se thrilhou num país, confessa, de que não ficou “vastly enamoured“, pelo contrário: “rather upset because the double assassination had disrupted his travel plans“, ele conta tudo numa esplêndida entrevista à BBC que é, para além de um grande documento humano e literário, uma peça preciosa para a história das relações entre a Grã-Bretanha e a Lusofonia, e que foi publicada no mesmo dia em que também ficámos a saber que, durante a guerra, o radio-telegrafista do nosso valoroso bacalhoeiro Gil Eanes tinha sido afinal um miserável espião, a soldo da canzoada nazi. Entre nós e eles há um longo romance, sem fim à vista.

*Nada, claro; porque é que não deixam a CPLP em paz, entregue apenas ao seu ócio?

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

3 respostas a O turista acidental, remake

  1. Oh António, tu és um gajo cheio de talento — sabes que és — acho que consegues bem meter-te comigo sem adulterares as frases que eu escrevo. Se queres apenas parafrasear, não usas aspas. De qualquer forma, fico curioso para saber se a ideia é lavar as mãos como pilatos. Ou qual é a ideia, caso haja.

  2. António Figueira diz:

    Querido Rui,
    Acho que tens razão e peço-te desculpa: achei que o “tipo” resolvia a coisa (isto era uma frase “tipo Rui Tavares”, como há o queijo tipo Serra), mas acho que o teu ponto de vista é legítimo, que o texto dá azo a equívocos e vou tirar as aspas. Quanto à tua pergunta, tem duas respostas: a de que a nossa responsabilidade tem de facto limites (quanto mais não sejam os da nossa incompetência), e a de que este post não era uma coluna política (essas és tu que as escreves), mas uma simples crónica de costumes.
    Grande abraço, AF

  3. Grande AF
    És um querido. Pronto, enfim.

Os comentários estão fechados.