Memórias do «Reviralho» (I)*

O texto que se segue, bem como a nota prévia, é da autoria do meu bom amigo Paulo Sérgio Ferreira e evoca o «Reviralho», movimento republicano que procurou combater a Ditadura Militar implantada em Portugal em 28 de Maio de 1926.


Emídio Guerreiro, em pé, em primeiro plano, envergando o uniforme de um dos regimentos de Guimarães, junto à “trincheira da morte”, que foi erguida na confluência das Ruas 31 de Janeiro, e Santa Catarina, junto à Livraria Latina, no Porto.
In http://pedraformosa.blogspot.com/2005/07/emdio-guerreiro-na-barricada-da_01.html

Nota prévia: A memória histórica do povo português esquece este importante acontecimento: por um lado, a historiografia do Estado Novo apagou-a por completo, passando a ideia de que a implantação do novo regime decorreu com tranquilidade e com pleno apoio dos militares e mesmo do povo, e por outro lado a que surge no pós 25 de Abril mostra-se profundamente marcada pela ideia de que só o Partido Comunista Português constituiu resistência activa à Ditadura Militar e ao Estado Novo que se lhe seguiu.

A REVOLTA DE 3 DE FEVEREIRO DE 1927: A PRIMEIRA GRANDE AMEAÇA DO REVIRALHO

I – A lenta agonia da 1ª República – de 1925 até ao 28 de Maio de 1926.

No processo dinâmico que antecede o evento ora em análise, imprescindível nos parece que, ainda que de forma perfunctória, se analise o último ano da 1ª República, para lhe adivinhar as fragilidades, as convulsões e instabilidade provocadas pela tensão dialéctica entre os vários grupos, tendências e personalidades marcantes que posteriormente nos surgem no apoio e na contestação à Ditadura Militar.
Entre a implantação da República e o golpe militar de 28 de Maio de 1926, o país conheceu:
a) 7 eleições legislativas gerais (1911, 1915, 1918, 1919, 1921, 1922 e 1925);
b) 8 eleições presidenciais (1911, duas em 1915, duas em 1918, 1919, 1923 e 1925), em que só António José de Almeida conseguiu cumprir o mandato completo;
c) 5 eleições municipais (1913, 1917, 1919, 1922 e 1925);
d) 45 ministérios.

Olhando-se, tão só, para o último ano de vida da primeira experiência republicana, vários são os golpes militares que, testando a sua solidez, lhe prenunciam a morte, e lhe vão cavando a sepultura, abrindo caminho para que os sectores mais conservadores da sociedade lhe desfiram o golpe de misericórdia:

A – em primeiro lugar, as do grupo sidonista monárquico de Sinel de Cordes (1), em 5 de Março e 18 de Abril de 1925.
No primeiro, três oficiais monárquicos (capitão Cal, tenente Mendes de Carvalho e alferes Martins Lima, todos afastados do exército por causa da revolta de Monsanto (2)) tentam apossar-se do quartel-general da guarnição militar de Lisboa.
Analisando de forma mais pormenorizada a última, até pelo simples facto de ter sido uma revolta de grande magnitude, envolvendo, pela primeira vez desde 1870, oficiais generais no activo, este movimento insurreccional é tido como o primeiro ensaio do golpe de 28 de Maio de 1926 e surgiu depois de boatos de uma tentativa de revolta monárquica publicados na imprensa a 5 de Março.
A revolta teve o apoio da Cruzada Nun’Álvares (3), era de carácter nacionalista e assumiu claras semelhanças com o golpe de Primo de Rivera em Espanha.
Envolveu pelo menos 61 oficiais, tendo, entre os líderes militares Sinel de Cordes, Gomes da Costa, Raul Augusto Esteves, Alfredo Augusto Freire de Andrade, e Filomeno da Câmara Melo Cabral (4) e, entre os conspiradores civis, Antero de Figueiredo, Carlos Malheiro Dias, José Adriano Pequito Rebelo e Martinho Nobre de Melo.
Os jornais O Século e o Diário de Notícias são suspensos. Sinel de Cordes chegou a sugerir a Teixeira Gomes, presidente da República, que nomeasse Filomeno chefe do governo. Para o jugular do golpe teve especial destaque o ministro da marinha (Pereira da Silva), dado que o ministro da guerra (Vieira da Rocha) defendia que se parlamentasse com os revoltosos.

B – Depois a do grupo republicano conservador de Mendes Cabeçadas (5) e Jaime Baptista, em 19 de Julho.
É decretado o estado de sítio, mas Jaime Baptista, que estava detido no Forte de São Julião da Barra, consegue evadir-se e assalta o Forte do Bom Sucesso, enquanto Mendes Cabeçadas revoltava o cruzador Vasco da Gama. A muito custo a revolta é dominada por forças fiéis ao governo, comandadas por Agatão Lança, resultando um único ferido em combate (o capitão Armando Pinto Correia), sendo os implicados presos e julgados, mas rapidamente libertados e reintegrados, tal era a falta de autoridade das instituições da República.

C Рe, por fim em 2 de Fevereiro de 1926, foi a vez do grupo radical de Jos̩ Augusto da Silva Martins J̼nior.
A chamada revolução de Almada. O governo, chefiado por António Maria da Silva e o presidente da república (Bernardino Machado), estavam no Porto a comemorar o 31 de Janeiro. A revolta era chefiada pelo construtor civil Martins Júnior, reunindo outubristas (6), sidonistas, ex-democráticos, formigas pretas (7) e radicais. Depois de tomada a Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, e presos os oficiais, o regimento comandado pelos sargentos dirigiu-se para o Seixal tendo ocupado o forte de Almada, donde dispararam contra Lisboa.

1) General. Chefe do Estado-Maior do Exército de 1926 a 1928. Juntamente com o Marechal Carmona e com Alves Roçadas, um dos organizadores do golpe de Estado de 28 de Maio. Foi ministro das Finanças por três vezes (nomeado em 9 de Julho de 1926, em 19 de Dezembro de 1927 e em 7 de Abril de 1928. Negociou com a Sociedade das Nações, um empréstimo a Portugal, no valor de 12 milhões de libras esterlinas, para evitar a bancarrota. Deixou as Finanças públicas da Ditadura Militar num estado deplorável, situação com que teve de se defrontar o ministro que lhe sucedeu em 1928, Salazar.

2) De 22 a 24 de Janeiro de 1919 ocorreu uma revolta monárquica em Lisboa, de apoio à restauração da monarquia no Porto.

3) A Cruzada Nacional D. Nuno Álvares Pereira, mais conhecida por Cruzada Nun’Álvares, foi um movimento político português de extrema-direita, fundado com o objectivo de contribuir para uma solução ordeira de direita para os problemas de instabilidade crónica e de elevada conflituosidade social que afligiam a Primeira República Portuguesa. Das suas fileiras saíram alguns dos principais apoiantes das soluções fascizantes que dominaram a transição da Ditadura Nacional para o Estado Novo.

4) Filomeno da Câmara Melo Cabral, oficial da armada. Governador de Timor em 1910-1913 e 1914-1917. Militante de dirigente da Cruzada Nun’Álvares e deputado nacionalista em 1925. Ministro das finanças em 1926, no governo de Gomes da Costa. Ministro das finanças de 19 de Junho a 9 de Julho de 1927. Tenta, depois do 28 de Maio, um golpe contra Óscar Carmona, a chamada revolta dos fifis, onde conta com o apoio do então director da Biblioteca Nacional, Fidelino de Figueiredo, bem como de António Ferro.

5) Oficial de Marinha (Almirante) e maçon. Participa activamente na implantação da República.
Primeiro-ministro, por indicação de Bernardino Machado, torna-se quase plenipotenciário, ao acumular as pastas ministeriais mais relevantes. Por renúncia do Presidente da República, assume, em concomitância a chefia das Forças Armadas (31 de Maio de 1926). É afastado do poder, após uma reunião dos revoltosos no seu quartel-general em Sacavém, em 17 de Junho de 1926, e forçado a renunciar às funções de Presidente da República e de Primeiro-Ministro a favor de Gomes da Costa.
Feroz opositor da autocracia de Carmona e Salazar, conspira em, pelo menos, duas tentativas insurreccionistas em 1946 e 1947.

6) Uma brevíssima nota para recordar um dos mais hediondos dias da República Portuguesa: a noite sangrenta. Em 19 de Outubro de 1921, a Noite Sangrenta, são assassinados o presidente do ministério, António Granjo e o fundador da República, Machado Santos, juntamente com J. Carlos da Maia, o coronel Botelho de Vasconcelos o secretário do ministro da marinha, comandante Freitas da Silva. Triunfava a revolta falhada em 30 de Setembro, agora apoiada por forças da marinha. Uma camioneta-fantasma com o cabo Abel Olímpio, chamado O Dente de Ouro, circula por Lisboa recolhendo aqueles que serão assassinados. As culpas foram entretanto atribuídas à esquerda republicana, mas a viúva de Carlos da Maia, Berta Maia, decidiu investigar junto do marinheiro que chefiava a camioneta, o “Dente de Ouro”, e concluiu que tudo tinha sido uma conspiração monárquica destinada a eliminar os autores do 5 de Outubro de 1910.

7) Surge por oposição à Formiga Branca – nome pejorativo com que foi baptizada pelos inimigos a milícia semiclandestina do Partido Democrático destinada a apoiar pelas armas as instituições da I República.
A Formiga Branca começou por combater as incursões monárquicas de 1911-12, mas rapidamente se dedicou à repressão de todos os opositores de Afonso Costa, o político mais influente do regime – desde os sindicalistas e os operários em geral até aos republicanos de outras tendências. O massacre da ‘Noite Sangrenta’, foi atribuído a elementos da Formiga Branca. Uma milícia formada sobretudo por carbonários. Teve um papel fundamental no derrube da ditadura de Pimenta de Castro (1915).
A formiga preta foi o nome pelo qual ficaram conhecidos os apoiantes de Machado dos Santos. Estas milícias defendem o ataque dos primeiros a O Intransigente, jornal diário de Machado Santos, dito diário republicano radical. Começa por proclamar-se órgão dos verdadeiros carbonários. Combatia os provisórios e os adesivos.

Paulo Sérgio Ferreira

* modificado

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8 Responses to Memórias do «Reviralho» (I)*

  1. rms diz:

    Todos com o Reviralho, um movimento do caralho!

  2. Ricardo Noronha diz:

    Caros amigos, talvez seja desejável um pouco de bom senso e razoabilidade. Esta nota prévia – “A memória histórica do povo português esquece este importante acontecimento: por um lado, a historiografia do Estado Novo apagou-a por completo, passando a ideia de que a implantação do novo regime decorreu com tranquilidade e com pleno apoio dos militares e mesmo do povo, e por outro lado a que surge no pós 25 de Abril mostra-se profundamente marcada pela ideia de que só o Partido Comunista Português constituiu resistência activa à Ditadura Militar e ao Estado Novo que se lhe seguiu.” – não tem qualquer sentido. Há vários trabalhos historiográficos acerca do reviralho, muitos dos quais elaborados precisamente num dos centros de investigação que mais se dedicou ao estudo do Estado Novo – o Instituto de História Contemporânea da UNL. Por sinal o ex-director da revista História, Luís Farinha, tem um livro intitulado, “Reviralho – Revoltas republicanas contra a Ditadura e o Estado Novo (1926-1940)” e já foram publicados vários artigos na revista sobre o tema . Recentemente, o Fernando Rosas publicou um «Roteiro da Lisboa revolucionária» que aborda largamente as insurreições de 1927 e 1931. A afirmação da nota é portanto injusta e largamente infundada, sendo de realçar que o comentário acerca da putativa hegemonia do PCP na historiografia pós-25 de Abril é manifestamente infeliz.
    Um abraço

    • Ricardo Santos Pinto diz:

      Caro Ricardo,
      O texto não é meu, como pode ver, mas parece-me que devo fazer um esclarecimento. O autor diz «a memória histórica do povo português». ou seja, a população, o povo em geral, não conserva memória alguma deste acontecimento, como acontece com as grandes e pequenas revoluções de que toda a gente já ouviu falar. Penso que o autor não se referia à memória dos historiadores e à História. Aliás, foi exactamente na bibliografia sobre o assunto que ele se baseou para escrever o texto.
      Abraços.

  3. O nome de reviralho cheira a comunas… estes episódios sempre me deixaram curioso, constatar que este povo de vez em quando se ergue e parte para a luta em defesa das suas convicções. Estranho… só mesmo no reviralho. (pessoas decentes não sem metem nisso)

  4. Caro Ricardo

    O que se torna incompreensível é este constante desfiar das atribulações da dita 1ª república que no fundo, é exactamente aquilo que alguns querem comemorar em 2010. Nem uma nota de rodapé aos assaltos dos “costistas” aos jornais, à censura PRÉVIA – na monarquia era a posteriori e limitava-se a uma coima e geralmente à absolvição -, passando-se também sem mencionar o ataque feroz ao movimento sindical, a liquidação do partido socialista, a vexatória guerra à igreja (que teve as consequências que todos sabemos), a drástica redução dos cadernos eleitorais. Podíamos continuar indefinidamente, mas o que se torna extremamente bizarro, é a ânsia de consagrar mais de um século de propaganda, cuja mentira não pode substituir-se à história. A 2ª república, vulgarmente conhecida por estado Novo, teve terreno propício para vingar. Fale com gente que tenha mais de oitenta anos e perceberá porquê. No fundo, os republicanos muito têm a agradecer a Salazar. Sem ele, o trapo verde-encarnado já há muito estaria na lixeira da nossa memória.

  5. Ricardo Noronha diz:

    Olhe que não Ricardo, olhe que não. A note refere a «a historiografia do Estado Novo» e «a que surge no pós 25 de Abril» responsabilizando-a assim pelo alegado «esquecimento» da «memória histórica» do povo português. Seguramente não é um drama, mas parece-me uma formulação incorrecta do problema. Não é a ausência de produção historiográfica que está em causa, mas a sua difícil divulgação no espaço público e no debate político em torno da memória.
    Quanto à raiva monárquica do sr. Castelo-Branco, recomenda-se-lhe um chazinho. Denunciar a repressão do movimento sindical pela formiga branca não fica bem a «gente da Ordem», ainda mais se de seguida se faz a apologia do Estado Novo, que como é sabido não foi grande amigo do sindicalismo. As misérias da I República não isentam a mediocridade do liberalismo monárquico. De resto a «guerra à igreja» parece não ter sido levada tão longe quanto o desejável. Eles andem aí.

  6. Tomo chá todos os dias, não se preocupe. Aconselho-o a fazer o mesmo, porque os ventos não sopram de feição aos comemorantes do regabofe de 1910-2010. Já agora, vá dizendo também quem é que a Formiga Branca servia : o Costa, esse símbolo do regime de todos os desastres. Descanse, não existe qualquer raiva monárquica, até porque a pretensa república não vale o esforço. No entanto, gostava de saber onde é que fiz a apologia do Estado Novo? É que o dito regime não é coisa do meu tempo, era apenas uma criança quando desapareceu da história. Deixo essas questiúnculas para a geração Rosas, etc. De facto, os republicanos baseiam o fictício “fervor” na oposição à 2ª república, a tal república “habitual, ordeira e disciplinada, imperial e nacionalista” que muita gente do defunto prp almejou. Dê uma vista de olhos nos Diários do João Chagas ou nas Memórias do José Relvas e conclua acerca do que se passava em Portugal e que tipo de gente dizia pretender governar o país.
    Queiram ou não queiram, o Estado Novo foi república e de que maneira! Até na simbologia propagandeou-a até à exaustão, desde os “venerandos senhores presidentes da república”, até ao já citado paninho. Na sede da PIDE estava hasteada uma bem conhecida bandeira. Essa mesmo.

  7. Camelo no buraco da agulha? diz:

    Não se consegue passar pelo dito buraco… ai ai… assim ninguém se salva!

    A propósito da memória histórica… já se esgotou a recriação do dossier Freeport?

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