Por exemplo

Se eu fosse americano, teria votado Obama, por razões políticas (parecia-me melhor que McCain) mas também por ser preto. Não que eu ache que um preto é diferente de um branco, claro; mas porque, dada a história de discriminação racial nos E.U.A., a eleição de um preto (ou, mais rigorosamente, de um não-branco) me parece ter um valor simbólico inegável e obviamente positivo. Mas se, por exemplo, a Condoleezza Rice tivesse sido candidata, e o Partido Democrata tivesse nomeado contra ela um candidato branco? Aí provavelmente teria votado no candidato do Partido Democrata, apesar de branco (e apesar de homem, porque acho que a eleição de uma Presidente mulher também seria simbolicamente positiva): politique d’abord, e não se serve uma causa progressista com a eleição de uma reaccionária.

Eu também acharia que a eleição – nos E.U.A. ou noutro país – de um(a) candidato(a) favorável a medidas contra a discriminação dos homossexuais ou declaradamente homossexual ele(a) próprio(a) (o que cada um faz na cama, desde com consenting adults, é-me absolutamente indiferente) teria um valor positivo, dada a história da discriminação em função da orientação sexual – nos E.U.A. e noutros países. Mas se, por exemplo, esse(a) amigo(a) da causa LGBT fosse um(a) corrupto(a), ou tivesse pelo menos, para utilizar um understatement maravilhoso, “problemas persistentes com a verdade”? Nesse caso, também nunca lhe daria o meu voto e, mais, acharia mesmo a sua eleição contraproducente para a causa que ele(a) era suposto promover, porque a associaria, como disse alguém, a uma degradação que seria profundamente lamentável dos “valores éticos e da decência na vida democrática”.

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SEXTA | António Figueira
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4 respostas a Por exemplo

  1. E se fosse uma preta, lésbica, democrata e séria? Aí é que era!

  2. GL diz:

    Que tal se começasse por utilizar o termo “negro” no lugar de “preto”, hã? O rapaz já é crescidinho, hã? Que tal? Vamos aprender uma nova palavra?

  3. licas diz:

    RSPinto
    *Não vale* contestar os *tiques* dos calinos esquerdinos . . .
    Mas, pergunto: a um Caucasiano, isto é, a um branco,
    chamamos porventura *rosto pálido*, *anémico*, *deslavado*, *cadavérico*. . .
    Por que razão não podemos chamar a um preto, preto?

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