Morreu o último dos clássicos: a propósito de Lagoa Henriques

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Morreu no passado sábado o escultor Lagoa Henriques, professor nas Belas-Artes de Lisboa e Porto desde 1959 (com aposentação da Escola de Lisboa em 1987). De Lagoa Henriques contamos pois com mais de 60 anos de ofício de escultor e cerca de 50 anos de ensino superior artístico. De tal forma que todos nós podemos dizer que fomos alunos de Lagoa Henriques, e eu fui aluno de Lagoa – o «mestre Lagoa» como todos sabem que assim ele era chamado – em 1987 no meu 4º Ano da disciplina de Desenho. Muito do que eu posso dizer de Lagoa refere-se a esses poucos meses de trabalho; mas posso acrescentar mais do que isso.

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«A Justiça». Tribunal de Rio-Maior. 1961.

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«União do Lis e do Lena». Fonte luminosa, Leiria. 1973.

Ele viria a aposentar-se a meio desse meu ano lectivo, e o que posso acrescentar relaciona-se com a sua figura ou aura construída ao longo de várias décadas de trabalho pedagógico, ao qual ele deu o melhor de si e, estou certo por aquilo que ouvi, sei e conheço, pertencem-lhe muitos dos melhores momentos da Faculdade. Em termos históricos, Lagoa pertence à 3ª geração de artistas modernistas portugueses, seguindo eu a tabela de José-Augusto França e não encontrando nenhum motivo para não a seguir (apesar das discordâncias existentes acerca do trabalho de França, algo que não é tema deste texto evocativo).
Como se sabe, a 1ª geração de modernistas portugueses não fica marcada por nenhum grande escultor, a não ser por autores que se secundarizaram em relação aos pintores Amadeo, Almada, Viana e Santa-Rita, as figuras tutelares. Temos nomes como Diogo de Macedo e outros que futuramente se afirmariam, mas neste espaço cronológico (anos 10 e 20) iniciavam as suas carreiras para se tornarem representantes da 2ª geração, como Canto da Maia e Francisco Franco. Da 2ª geração destacaremos ainda Leopoldo de Almeida e Barata Feyo, que viria a ser o mestre referencial de Lagoa na Escola do Porto. A obra desta geração viria a responder por uma escultura de encomenda estatal essencialmente decorativa e comemorativa.
Lagoa pertence já à 3ª geração e prolonga estas actividades comemorativas e decorativas; esta geração trilharia dois caminhos: tentaria uma abertura a espaços inéditos (como dirá França) e/ou continuaria o «sistema» (e França inscreve Lagoa na continuidade). De facto, Lagoa termina o Curso Especial de Escultura no Porto (com a mais alta classificação), onde trabalhou com Leopoldo e Barata Feyo. Nos anos 60 estuda com Marino Marini em Milão, escultor mais atento à forma e à sua invenção dinâmica do que à função «comemoração».
De 66 a 87, como disse, Lagoa foi professor em Lisboa, na então ESBAL, hoje FBAUL.
Gostaria de acrescentar três notas: uma, pessoal; outra, «conceptual» e uma terceira, de protesto. Começaria pela última. É sabido que a relação de alguns escultores com uma política pública de encomendas lhe dispersa a obra, e a de Lagoa não é excepção. Isto é uma razão acrescida para no que respeita a certas figuras, e Lagoa é uma delas, devermos dispor de uma boa e completa monografia que reuna a obra e proporcione o seu estudo, objectivando uma ligação entre as várias direcções que a inevitável diversidade temática dos trabalhos acaba por comportar. Ora, não temos monografias completas de Leopoldo, Barata Feyo ou Lagoa, e é lamentável, pois temos objectos completos e de luxo sobre artistas absolutamente irrelevantes como Francisco Simões (ainda activo), factos que me escapam (e muitas vezes estão relacionados com políticas autárquicas e empresariais em nada relacionadas com critérios artísticos ou estéticos).
Conceptualmente, Lagoa é um clássico, um escultor classicizante, digamos, que eu caracterizaria segundo esta fórmula: a forma nasce da modelação e a reflexão nasce no desenho. De facto, é na relação entre material e mão que a forma se liberta, ultrapassa por vezes a vontade do seu autor, resiste-lhe, faz-se em suma. O instante do pensar da forma também é um instante de actividade manual, através do meio elementar e «rudimentar» do desenho, sendo esta elementaridade directamente proporcional à reflexão: quanto mais elementar é o processo desenhístico (a ausência da cor é a sua característica essencial e extrema), mais apurada é a reflexão formal do autor. Este sempre foi o método de Lagoa.
Em terceiro lugar, ou em primeiro, uma pequena impressão pessoal, a minha relação com o professor. Vi muitas vezes Lagoa em estado de maravilhamento perante obras de alunos ou perante detalhes dessas obras. Sinteticamente, isso na altura fez-me pensar numa hipótese de maravilhamento acrítico. Mas, estava eu completamente enganado, claro. Acontecia que o mestre gostava de gostar. Quer dizer, tinha prazer em contemplar bons apontamentos de obras, gostava profundamente daquilo que era conseguido e bem realizado. Ter prazer em seguir o trabalho do aluno, ter prazer no seu sucesso e evolução. Gostar de gostar. Ter prazer em gostar. Desejar ter prazer. É a impressão que ficará para muita gente do convívio com Lagoa. E diria mais, é a condição sine qua non do espectador das artes: querer que a obra lhe dê prazer antes de a contemplar, querer ter prazer estético. Querer que a obra nasça e exista para esse fim.

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2 respostas a Morreu o último dos clássicos: a propósito de Lagoa Henriques

  1. «Ter prazer em seguir o trabalho do aluno, ter prazer no seu sucesso e evolução. Gostar de gostar.»

    Gostar de gostar, excelente.
    Uma atitude em sentido contrário à usual, na arte e não só.
    Diria que a atitude mais frequente é gostar de não gostar e explicar cheio de certezas e pedantismo porquê, porque razão não devemos gostar daquela manifestação de arte.

  2. O “mestre Lagoa” foi também meu professor de desenho na ESBAL (hoje FBAUL), nos 3º e 5º anos. Apreciava sobretudo o desenho de expressão linear quando a linha segue de perto a emoção do traço e o rigor da forma.
    Entusiasmava-se nas aulas com as pequenas-grandes coisas como: uma corda retorcida e envelhecida com o uso que nela se adivinhava ter tido num barco ou numa roldana, mostrava, um bocado de madeira queimado etc, e não se cansava de chamar a atenção para essa beleza
    aí presente. Revivia o objecto refazendo-o num trajecto de referências e ligações às pessoas.
    Soube ontem pela tv que tinha falecido. Penso que é dele a escultura do poeta Aleixo existente em Loulé, na concepção igual à do FP.

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