As slums deles, os nossos millions

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Slumdog Millionaire causa-me sentimentos de culpa. Sei que se trata de uma fita vagamente imoral – e no entanto deu-me imenso prazer vê-la. Digo imoral (e não amoral, categoria bem mais interessante) porque é uma clara busca voyeur de miséria exótica, de colorido local com que dar umas pinceladas garridas à abjecção. Já muitos perguntaram porque não fez Boyle o seu filme em subúrbios ingleses; assim uma espécie de Shameless sem gargalhadas. Não o fez porque queria coisa menos batida – e por ser mais barato, quiçá. Todo o carnaval em torno das criancinhas do filme – os manhosos episódios a propósito da sua remuneração, o seu desfile na passadeira dos Oscars sob o braço do realizador, ao som daquele paleio enjoativo da “família que fez este filme”– e muitos aspectos da própria obra, como a postiça música ou a insistência no retrato de um país corrupto e violento até à medula, deixaram-me na alma um desconfortável travo a soberba neo-colonialista.
Que tal tenha sido feito em nome de uma excelente obra de Cinema, com um argumento intricado e lentamente desvelado, personagens com alguma espessura e qualidades artísticas e técnicas bem acima da média… eis o que só me deixa mais irritado. Em resumo: gostei bastante de Slumdog Millionaire; como aprecio medicamentos que me curem, mesmo que tenham sido feitos à pala do ADN de uma tribo qualquer no Amazonas. Mais uma vez, a estética dá um tareão à ética.

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5 respostas a As slums deles, os nossos millions

  1. Daniel diz:

    Para mim foi dos melhores que vi nos últimos meses.

  2. Bem, n vamos fazer de conta uo mundo não existe. Ele sempre existiu ( salvo seja) y foi muito linear na sua manutenção de estádios de sobrevivência. A História dos “detalhes” deste filme tem precedentes na história do cinema. Esperemos que com os enormes erros e indiferença do passado se possa ter ganho lastro para desenvolver outra forma de dar corpo y possibilidade a estes maravilhosos garotos, em especial ao irresistível Jamal ( o mais piquinino!) … Alguém viu o filme Espanhol que passou na cinemateca por alturas da Expó ” Segredos da Inocência” ( daquela época pré-escândalos pedófilos)… Lembrei-me! Porque alguém -a sala inteira – ficou arrebatadamente rendida ao pequeno prodígio do garoto do filme; mas essa pessoa lá nos “alertou” que estaríamos numa das últimas vezes em que se poderia dizer publicamente que ficámos Apaixonados pelo personagem … O que será feito dele agora? Pergunto-me (!??). Já deve ter 20 anos… etc.
    Jamal – o mais piquinino – Tb não o esquecerei. Mas que importa eu recordá-lo. Que pode a minha memória fazer?? De que serve arrepiar-me com o seu futuro, talvez igual ao futuro que teve o garoto Argentino de um filme dos anos 70. Mas se esse futuro do Garoto Argentino foi escandalo que manchou de ignomínia y infâmia a Indústria Cinematográfica de que me chegaram só os relatos enfabulados do meu amigo da Suécia. Espero um dia Enfabular o relato do futuro do Jamal piquinininho com a “moral” da narrativa deste magistroso filme. Contaram-nos uma hisória de Amor sob a formula rara de fábula para quem já não está na idade de se arrebatar ou empolgar. É(!), a pedra de toque deste filme é mesmo essa irresistível rendição ao Ouvir.
    Veremos o que é que o Futuro Ecoará sobre a “Moral” da Indústria Cinematográfica.

    PS.: “uma clara busca voyeur de miséria exótica” isso acaba por não interessar absolutamente nada para o filme … y acabamos por n querer saber disso, porque estamos é mesmo interessados na história, em Ouvir a história.

    PS.2: Está na Linha de Um Cinema Paradiso…

  3. Também gostei muito de Slumdog Millionaire, mas tenho outra explicação para o facto de Dany Boyle ter escolhido a Índia. Se quiser dar-se ao trabalho de ler, aqui fica o link:
    http://cronicasdorochedo.blogspot.com/2009/02/nao-queira-ser-milionario.html

  4. Luis Rainha diz:

    É sempre um prazer visitar o seu rochedo. Quanto à Índia, só conheço Nova Deli, que não me parece ser lá muito diferente. Mas olhe que a mudança para “Mumbai” já tem mais de 10 anos…

  5. A mudança para Mumbai deu-se ainda eu vivia no Oriente, por isso foi há mais de 10 anos, concerteza. Acredite que, comparada com Bombay ( Mumbai), Nova Delhi é um paraíso…
    É sempre muito bem vindo no rochedo

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