As slums deles, os nossos millions

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Slumdog Millionaire causa-me sentimentos de culpa. Sei que se trata de uma fita vagamente imoral – e no entanto deu-me imenso prazer vê-la. Digo imoral (e não amoral, categoria bem mais interessante) porque é uma clara busca voyeur de miséria exótica, de colorido local com que dar umas pinceladas garridas à abjecção. Já muitos perguntaram porque não fez Boyle o seu filme em subúrbios ingleses; assim uma espécie de Shameless sem gargalhadas. Não o fez porque queria coisa menos batida – e por ser mais barato, quiçá. Todo o carnaval em torno das criancinhas do filme – os manhosos episódios a propósito da sua remuneração, o seu desfile na passadeira dos Oscars sob o braço do realizador, ao som daquele paleio enjoativo da “família que fez este filme”– e muitos aspectos da própria obra, como a postiça música ou a insistência no retrato de um país corrupto e violento até à medula, deixaram-me na alma um desconfortável travo a soberba neo-colonialista.
Que tal tenha sido feito em nome de uma excelente obra de Cinema, com um argumento intricado e lentamente desvelado, personagens com alguma espessura e qualidades artísticas e técnicas bem acima da média… eis o que só me deixa mais irritado. Em resumo: gostei bastante de Slumdog Millionaire; como aprecio medicamentos que me curem, mesmo que tenham sido feitos à pala do ADN de uma tribo qualquer no Amazonas. Mais uma vez, a estética dá um tareão à ética.

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