O que é preciso para ser professor? (II)*

A propósito do «post» anterior do Pedro Ferreira, darei aqui a minha visão do problema. É curioso que Portugal está a seguir o caminho inverso da França. Ao que parece, lá era necessária uma prova de acesso e agora vai ser suficiente o curso. Em Portugal, bastava o curso com componente pedagógica e agora o Governo pretende que seja obrigatória a realização de uma prova de acesso.
Antes de falar da actual formação de professores, recuemos até ao 25 de Abril ou a anos anteriores. Muitos dos docentes de então não tinham a licenciatura. À actual Ministra da Educação, por exemplo, foi-lhe permitido leccionar ao ensino primário apenas com o 9.º ano de escolaridade. Uma nódoa. Havia uma coisa chamada Curso do Magistério Primário que permitia dar aulas.
Desde há alguns anos, já não é assim. Para concorrerem aos concursos internos e externos, os professores têm de ser profissionalizados, ou seja, têm de ter realizado um estágio profissional, integrado na licenciatura, normalmente realizado numa escola pública e supervisionado pela instituição de ensino superior responsável pela licenciatura. No meu caso pessoal, fiz o estágio profissional (duração de um ano lectivo, com duas turmas a meu cargo) na Escola Secundária de Rio Tinto e sob a supervisão dos metodólogos da Faculdade de Letras do Porto.
Será uma formação adequada aquela que é ministrada actualmente aos futuros professores? Sim e não. As comentadoras Catarina e De Puta Madre, nos comentários ao «post» do Pedro Ferreira, têm razão. Por um lado, se o Estado deu autorização para determinadas instituições formarem professores, é porque tinha confiança nelas e reconhecia-lhes todas as condições necessárias. Por outro lado, quando pensamos na forma como determinadas instituições foram legalizadas, sobretudo no período cavaquista, e quando pensamos na sua qualidade, somos obrigados a ficar de pé atrás. A De Puta Madre falou no Piaget – conheço bem o Piaget. Olhem o caso da Universidade Independente. Já pensaram na hipótese do primeiro-ministro José Sócrates poder ser professor? Como diz o meu sobrinho Gustavo, que medo!
E agora? Parece que o Governo quer criar uma prova de acesso à carreira docente. Espera-se que apenas para os que ainda não são profissionalizados e ainda vão entrar na carreira. Porque quanto aos outros, seria muito injusto alterar as regras a meio do jogo. Se já lá estão, é porque o Estado o permitiu.
Só que essa prova de acesso que o Governo quer implementar é de rir! Parece que irá ser uma prova com questões de escolha múltipla. Quer dizer que, a partir de agora, para ser professor, será preciso fazer um teste de cruzinhas. E é assim que aquela gente perceberá quem é que merece ser professor?
A «coisa» ficará resolvida se, um dia, como se vai falando, for criada a Ordem dos Professores. Já há organismos a movimentarem-se nesse sentido, embora os Sindicatos sejam contra. É que, a existir essa Ordem, seriam os próprios professores a fixar as condições de acesso à profissão. Pessoalmente, é uma questão para a qual não tenho opinião definitiva. Já agora, gostava de saber a opinião dos nossos leitores.
Ainda a propósito do «post» do Pedro Ferreira, sempre direi que, em minha opinião, é muito mais importante, no ensino básico, a componente pedagógica do que a componente científica. Claro que é necessário saber, mas saber demasiado se não se souber comunicar com miúdos em idade complicada não serve de nada. A partir do ensino secundário, penso que a componente científica passa a ser mais importante.

* modificado

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16 Responses to O que é preciso para ser professor? (II)*

  1. Ana Paula says:

    Concordo… apesar de alguns alunos terem tido a sorte de, nos anos imediatamente a seguir ao 25 de Abril, terem encontrado professores que já o eram antes e que se esforçaram, com bons resultados na aplicação dos programas curriculares dos primeiros (mas apenas dos primeiros) anos do Unificado. Quanto à minha visão da questão pode ler-se nos 2 textos sobre educação que publiquei em A Nossa Candeia (anapaulafitas.blogspot.com). Obrigado pelo contributo para a reflexão sobre o tema.

  2. ana says:

    Que má fé! Os professores primários davam aulas com o curso do Magistério Primário, e acediam ao curso com o 5.º ano ou com o 7.º ano. Não teve nada a ver com a democratização do ensino. Desculpe, mas deve mesmo ir para político, daqueles tipo Pacheco Pereira, sabe, a manipular os factos. Que vergonha.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      «Deve mesmo ir para político.»
      Agradecia que não me insultasse, por favor.
      Claro que tinham de fazer o curso do Magistério Primário, mas isso não adianta nada ao que eu disse. Davam aulas sem licenciatura. Está a tomar as dores da senhora ministra, é?
      E claro que a democratização do ensino teve muito a ver com tudo isto.

  3. ana says:

    A minha professora primaria, nos idos de 70, tinha o 7.º ano. Os pais, professores primários também, tinham o 5.º ano. Talvez não saiba, que é novo e arrogante, que se podia frequentar cursos médios, assim eram entendidos, com o 5.º ano, Magistério Primário, Engenharias, os chamados agentes técnicos, que hoje são engenheiros iguais aos outros, e mais alguns cursos. A saloice portuguesa está patente no almoço que tive esta semana, com um perito inglês. às páginas tantas, o engenheiro português lá lhe perguntou qual a licenciatura. Nenhuma, mas não deixava de ser o perito de uma prestigiada firma de Liverpool.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Isso não tem nada a ver com o texto do «post». Só estou a comparar a situação passada com a situação presente – nem sequer faço juizos de valor. Se reparar, o meu alvo está bem direccionado. Aliás, o objectivo deste «post» é responder a um outro «post», anterior, do meu colega Pedro Ferreira.
      Arrogante, eu? Por que diz isso?

  4. Vai para o twitter … o pessoal está nos Oscars … eu estou disfrçada de patriota! Dps venho ler y comentar. Vale.

  5. ana says:

    Depois do 25 de Abril, o sistema português deparou-se com um problema. A democratização do ensino conduziu a um aumento do número de alunos, que não tinha correspondência no número de professores. Muitos dos docentes de então não tinham sequer a licenciatura. À actual Ministra da Educação, por exemplo, foi-lhe permitido leccionar ao ensino primário apenas com o 9.º ano de escolaridade. Uma nódoa.

    Não foi depois do 25 de Abril. Aliás, depois do 25 de Abril, e porque se pretendia que os jovens ficassem mais tempo no sistema de ensino, aumentou-se a escolaridade obrigatória. Antes do 25 de Abril, e quando o ensino era para uns poucos, é que se achava que para dar aulas aos meninos bastava o 5.º ano e o Magistério Primário. Não só o 5.º ano, ou como diz, novo e arrogante, o 9.º ano.

    Ah, já agora, não foi a democratização do ensino. Foi a integração dos milhares de retornados que entupiram as salas de aulas, e para os quais, toda a sociedade portuguesa fez um esforço suplementar de integração.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Mas o tema do «post» era a formação actual de professores. Concentrou-se num parágrafo e esqueceu tudo o resto. Dantes, não era obrigatória a licenciatura para dar aulas. Agora, é. Será que podemos passar à frente? Ou vou ter de apagar essa contextualização do passado para que se possa concentrar no presente?
      E o arrogante sou eu!

  6. ana says:

    E, ouça lá, quer comparar a sociedade dos anos 70 do séc. XX com a da primeira década do séc. XXI? E vai querer-me dizer que a culpa do estado actual do ensino, professores e alunos mauzinhos no geral, é culpa da ministra? Vá-se curar da arrogância, maus alunos sempre houve, menos, é claro, mas menos pessoas estudavam e o sistemas encarregava-se de as afastar. E maus professores também, claro, os que gostariam de ganhar a vida de outra forma, mas que não tinham capacidades para tal. E, desculpe, foi o Rogério que trouxe à colação as habilitações para ensinar da ministra. As exigidas na altura, e, garanto-lhe, todos nós que fomos alunos, achamos extremamente adequadas. Vá lá, homem, critique com razões para isso, e, já agora, com argumentos mais inteligentes, ou mais informados. Não afirme o que não sabe.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Rogério?
      Já lhe pedi para não me insultar.
      Quanto ao resto, pode continuar a debitar os insultos que quiser. Aqui, não se censura ninguém. Mas, pela minha parte, vai ficar a falar sozinha.
      E peço desculpa por me ter atrevido a falar da sua ministrazinha tão adorada.

  7. ana says:

    Ai já me pediu? Não dei conta…tão lugar comum…

  8. ana says:

    E insultos? Não aguenta uma crítica ou outra? Então, em vez de mudar de profissão, mude também de hobby. Fazia-lhe bem ao ego, sei lá…

  9. Pedro Ferreira says:

    Ricardo, é só uma pequena nota para dizer que no que me diz respeito estou 100% de acordo contigo sobre a importância da componente cientifica. É óbvio que não vamos pedir a um professor do ensino básico que saiba o que é uma série de Fourier (se souber também nãio lhe faz mnal nenhum mas isso não vem ao caso :) )

  10. “Espera-se que apenas para os que ainda não são profissionalizados e ainda vão entrar na carreira.
    Questão é que o Merdado está viciado pela NOTA FINAL de Curso y as vagas são monopolizadas pela clientela dos Institutos Y Universidades Privadas. Até a Clássica y a Nova se renderam a dar 18/19/ 20 para n prejudicarem os seus alunos excelente. Esquecendo-se que nesta guerrilha de notas arredaram para o desemprego alunos tb excelentes de uma epoca mais séria.
    ………………
    Só espero que o Exame seja tão exigente como aquele que se realiza em Espanha. Para assim ao “Malhar” separe o fruto da Palha!

  11. nilda says:

    pra ser professora é só terminar o 2 grau?

    • joana silva says:

      bom, li tudo o que ai escreveram vi que tudo ja tem 2 anos é claro que eu nao tenho o vosso conhecimento por isso peço se possivel que me respondam eu pensava ou melhor penso que para ser professor seria 12 escolaridade curso universitario e mestrado isto claro na materia que querem ensinar nao é assim?

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