Intercultural intercourse (may contain spoilers and profane language)

Ontem fui ver “The Wrestler” com um amigo canadiano e um súbdito de Sua Majestade, um filme em que metade da acção é passada a ver a carne fora de prazo do Mickey Rourke apertada em calças de licra, e a outra a Marisa Tomei (ainda fresca apesar do que dizem alguns clientes) em topless. Dizer que gostei é um understatement: the Wrestler, acreditem em quem não percebe nada disto, é mesmo muito bom. Rourke / Randy the Ram, a estrela de wrestling vinte anos depois do seu apogeu, é um adorável perdedor incapaz de voltar à glória ou deixar o palco, e a stripper com aging problems o seu perfeito contraponto. Não estamos longe (sempre quis usar o plural majestático dos críticos de cinema) do território (eat this, Lauro António) do dramalhão hollywoodesco, mas os actores e o realizador salvam a função, não se desviando um milímetro (e ainda há quem diga mal dos chavões) da dureza da história, mas concedendo aqui e ali (vêem como isto dá um jeitão?) momentos de humor inesquecíveis – como quando o ex-lutador afasta a cortina de plástico ao som dos vivas imaginários dos fãs, antes de começar a trabalhar como talhante num hipermercado. Por norma não sou sentimental, mas não pude evitar uma lágrima quando a acção chegou ao clímax, pardon my French, culpa da puta da altura do mês (hey, I’m a girl). Os meus companheiros também elogiaram a performance, o inglês “despite the fact that no-one spoke a word of English”, o canadiano inebriado com a crueza (“rawness”) do filme, e em especial da sex scene (“foda” em português).
 
Cá fora a fumar um lânguido cigarro pós-cinemático (acho que é assim que se diz), atrevo-me a sugerir que aquele discurso do Ram antes do mergulho para o ringue era escusado: já toda a gente tinha percebido o problema do anti-herói, não era preciso chamarem-nos “STUPID!” com tantas letras. O anglo-saxão e o amigo da Terra Nova olham-me intrigados. “I liked the speech”, diz o canadiano. “Hmmmm… É um bocado ‘in your face’ para uma europeia sofisticada como eu, habituada a uma dieta de filmes franceses”, desculpo-me diplomaticamente. “Preferias que ele tivesse vagueado em silêncio durante 10 minutos, olhando alienadamente para os transeuntes, e se atirasse de uma ponte imediatamente antes dos créditos finais?” (tradução livre). “Sim!”, entusiasmei-me. “E depois podíamos encobrir o facto de não termos percebido peva [no original, “fuck all”] usando palavras muito longas, em alegre masturbação intelectual?”, sugeriu o cavalheiro das ilhas britânicas. “Exacto!” (é bom ver que a comunicação intercultural é, afinal, possível, apesar das diferenças que nos separam). “Ok”, assentiram.

Depois fomos para o computador mais próximo ver quem tinha ganho a aposta “que idade tem a Marisa Tomei” (44 – and yes, she does look great).

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.