O que é preciso para se ser professor?
21 de Fevereiro de 2009 por Pedro FerreiraImportámos muitas coisas do sistema francês mas no que toca ao ensino uma diferença enorme existe no recrutamento de professores do ensino secundário. Em Portugal o diploma do ensino superior determina a entrada na carreira docente, em França nenhum diploma dá directamente acesso à docência. Usando o meu caso como exemplo, em França mesmo tendo um doutoramento em Matemática não posso ensinar no secundário a não ser que passe um concurso onde estarei em pé de igualdade com outros candidatos.
Neste momento, em França, um movimento de protesto está em curso contra vários aspectos da reforma do ensino superior. Um dos pontos que os representantes dos professores e dos alunos do superior contestam é a “masterização” do acesso à docência no secundário. O que a ministra propõe é a adopção de um modelo próximo da prática portuguesa com o acesso à carreira docente a depender directamente do diploma de Master desvirtuando completamente o sistema de concursos actualmente em vigor. Um dos aspectos que mais choca na reforma é a substituição das provas da matéria que se vai ensinar por provas de didáctica, ou seja para se ensinar matemática deixa de ser preciso saber matemática, só se pede que se saiba didáctica da matemática.
A luta actual dos sindicatos de professores e estudantes em França parece-me totalmente oposta a algumas reivindicações que li na imprensa portuguesa contra a introdução de concursos de recrutamento (até vi argumentar que os concursos desvalorizam as licenciaturas).
Na minha opinião uma das grandes forças do sistema de ensino francês é a grande solidez da formação dos professores nas matérias que ensinam. Uma das condições necessárias para se ser um bom professor é uma sólida formação na matéria que se ensina, alguém pode imaginar um professor de música que não saiba ler uma pauta?
O sistema dos concursos em França: CAPES e Agrégation tem a vantagem de por todos os candidatos em pé de igualdade independentemente da Universidade de que venha (para se candidatar a um concurso há um nível mínimo de habilitações). Na minha área o candidato passa uma prova escrita onde tem que demonstrar que domina noções de Álgebra, Análise, Geometria e Matemática Aplicada, e uma prova oral onde tem que dar uma aula de um tema escolhido entre 3 lições tiradas à sorte perante um júri. Na oral pretende-se verificar que o candidato domina os conceitos científicos, é capaz de organizar a lição, expõe bem, sabe escrever claramente no quadro e sabe responder às perguntas. A diferença entre os dois concursos está no nível de conhecimentos exigido (os candidatos à Agrégation podem ensinar até ao segundo ano da universidade) e na dificuldade. Os professores “Agrégés” formam uma espécie de elite com um serviço mais reduzido e salários mais elevados. Aqueles que passam o concurso são integrados num instituto universitário de formação de mestres (IUFM) onde aprendem os aspectos pedagógicos.
O sistema Francês não é perfeito, as orais do CAPES e da Agrégation têm tendência a transformar-se num sistema codificado deixando para segundo plano a avaliação das capacidades de comunicação do candidato com a turma. Outra crítica recorrente é o cariz excessivamente teórico da formação nas IUFM onde a pedagogia é ensinada de um ponto de vista demasiado distante da realidade do terreno que os professores vão enfrentar. As IUFM têm tendência a valorizar os aspectos psicológicos e a menosprezar os aspectos práticos da transmissão de conhecimentos: como se fazer respeitar, como organizar uma aula, como lidar com alunos em dificuldade, etc.

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